É a demografia, estúpido?

Contados os votos da eleição dos Estados Unidos, inaugura-se a temporada de explicações. O atual presidente Barack Obama ganhou porque a economia americana está se recuperando. A esperança, embora minguante, ainda está vencendo o medo. A oposição republicana era raivosa demais. E há um por que para cada paladar.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h05

Mas o que mais se ouve no momento é uma afirmação mais comovente. A vitória de Obama teria sido fruto de um terremoto social. Numa eleição amargamente polarizada, com o eleitorado partido ao meio, quem fez a diferença foram as minorias: negros, asiáticos e especialmente, os latinos. Compareceram em números recordes e votaram em peso no candidato democrata.

São eles representantes de uma nova América que está nascendo, em sintonia com o mundo multicultural, segundo os analistas de plantão.

Latinos, negros, mulheres e milhões de eleitores da classe média e baixa somaram forças. Essa "nova coalizão", com os latinos à frente, "ameaça reduzir os republicanos a um mero detalhe nas eleições do futuro", sentenciou Juan Williams, no Wall Street Journal. Há quatro anos foi Barack Obama e sua historia emocionante que galvanizaram a nação, disse Eugene Robinson, em The Washington Post. "Desta vez, fomos nós", cidadãos de um "futuro multicolorido, multicultural", entusiasmou-se. Ou melhor: é a demografia, estúpido. Sim, as chamadas minorias étnicas, mais as mulheres, fizeram a diferença nesse pleito.

Dez por cento do eleitorado americano já é latino, diante de 9% em 2008. São 4 milhões de latinos a mais que há quatro anos, e 71% deles votaram em Obama. Mas até que ponto é sólida essa "nova maioria" que reconduziu o democrata Barack Obama à Casa Branca?

Há controvérsias. Primeiro, os Estados Unidos são um país diversificado e, quanto mais cresce, mais se diversifica - e se complica.

A ideia de que os latinos, negros e asiáticos sejam aliados naturais, com a mesma visão e agenda política, dificilmente se sustenta. Frequentemente, veem-se mais como rivais, especialmente no mercado de trabalho. Segundo pesquisas, os latinos revelam-se tão conservadores quanto à média dos americanos (e bem mais "republicanos" em temas como religião e aborto). Quanto mais tempo no país, mais conservadores ficam.

Para quem imagine que o resultado das urnas americanas seja a voz rouca de uma nova América, e essa nação multitimbre e politonal pertence ao Partido Democrata, uma palavra de cautela. A cor, a etnia e a crença são um cimento falho para qualquer aliança. Pense no Zuccotti Park, a praça da revolta contra a ganância de Wall Street, que durou um outono americano.

Era uma vez os católicos apoiavam automaticamente candidatos democratas, convicção coroada na eleição de John F. Kennedy. Chegou Ronald Reagan, que travou a Guerra Fria contra o comunismo ateu, e o voto carola pulou de sigla. "Quanto mais diversidade étnica, mais divergências e conflitos entre eles devem surgir", opina a jornalista econômica Megan McArdle.

Da mesma forma, com os custos insustentáveis das aposentadorias públicas, a lua de mel democrata entre os sindicatos do setor público (espinha dorsal do partido) e os jovens eleitores de Obama (os pensionistas de amanhã) pode acabar mal.

Tampouco o apoio latino não está garantido. Boa parte dos eleitores latinos que votaram em Obama passaram quatro anos na expectativa e terminaram na frustração. Depois de acenar com a distensão política com a ditadura cubana, Obama optou por um tímido relaxamento das barreiras de viagem entre Cuba e EUA.

Flertou com uma renovada e inovadora política de imigração, apanhou dos ultraconservadores e deu meia- volta. Em quatro anos, o governo democrata deportou 400 mil imigrantes sem documentos por ano, 30% a mais que George W. Bush. E enquanto a Casa Branca vacilava, os oposicionistas governadores de Estados da fronteira, em Arizona e Texas, começaram a erguer muralhas.

Os EUA podem ser mesmo um país em transformação, rumo ao futuro multipolar. Mas se há uma lição das urnas americanas, é que ninguém é de ninguém. Obama comprou fiado sua vitória. A conta vem depois.

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