E a guerra inédita que nos prometeram?

Então, onde é que ela se passou, essa nova guerra, essa guerra inédita, que nos prometeram há um mês? Assistimos a uma guerra clássica, com canhões, mísseis, aviões, bombas, do gênero Kosovo e do gênero Iraque, sem a menor originalidade. Para que a semelhança seja absoluta nos produziram até os danos ?colaterais? que as bombas provocam quando são meio indisciplinadas. Mas, para que tenhamos paciência, disseram-nos que os ataques aéreos eram somente a primeira fase, a que visa destruir as capacidades aéreas e antiaéreas dos talebans. E que pouco depois, na segunda fase, ficaríamos estupefatos com a originalidade das táticas e das estratégias. Bem, somos pacientes. Aguardamos a segunda fase. Infelizmente, essa segunda fase ?está atrasada?. Ela aguarda. Ela está intimidada. Não ousa começar. E, enquanto esperamos que ela ponha o nariz para fora, ofereceram-nos, para preencher o silêncio, um pequeno ?suplemento? da primeira fase: umas bombas a mais! Dia após dia, percebemos no mundo inteiro perguntas, angústias, expectativas, nervosismos. Nos Estados Unidos, onde todavia Bush iniciou uma bela ?união sagrada?, Ralph Nader, que dirigiu os ?verdes? na última campanha, disse: ?Quando se vai aprender que não se percorre o caminho rumo à justiça a golpes de bombas?? O grande romancista inglês, John le Carré, escreve: ?Existe uma saída (em que não pensei) que nos evitaria transformar nosso inimigo público nº 1 (Bin Laden) em mártir nº 1 aos olhos daqueles que já o consideram um semi-deus?? Quanto às pessoas que estão nas alavancas, poderíamos jurar que elas tentam achar uma solução. Os chefes guerreiros dos Estados Unidos inventaram esse ?acrônimo? para descrever suas perplexidades ? AOS, o que quer dizer: ?All options stink?, e que se pode traduzir por ?Todas as opções cheiram mal?. É preciso dizer que o tempo é um ator indócil dessa estranha aventura: quanto mais os dias passam, mais as fragilidades, os mal-entendidos, as dissimulações, que eram imprecisos nos primeiros dias de pânico, tendem a fragilizar a unidade da ?grande coalizão?. De todos os lados, os ?aliados? revelam seu mau humor: o Paquistão resiste ao cansaço, mas pode explodir a propósito da Caxemira e lembra que Bush prometeu ataques rápidos. A Índia, anteriormente aliada dos Estados Unidos contra a China, começa a perder as forças. A Arábia Saudita foi esquartejada entre seus petróleos e seus islamitas Wahabites, os mais duros de todos. A Indonésia e suas centenas de milhões de muçulmanos estão em efervescência. E não falamos dos cenários secundários que poderiam tornar-se palcos principais: Iêmen, Somália, Egito, etc. A coalizão resistiria mal a um prolongamento extremamente longo dos ataques aéreos? Então? É preciso passar para as operações terrestres. Sem dúvida, mas o tempo urge: o Ramadam, o mês sagrado dos muçulmanos, o mês da abstinência, começa em meados de novembro, em menos de um mês. Bombardear os talebans nesse período traria o risco de escandalizar milhões de muçulmanos não extremistas. E não é só o Ramadan. Há o inverno: em poucas semanas, no alto dessas montanhas, haverá neve, frio e céus de trevas. No entanto, não temos dúvidas de que os estrategistas do Pentágono esconderam habilmente seu jogo e se preparam para iniciar uma ofensiva ao mesmo tempo inesperada, sem precedentes conhecidos e fulgurante. Leia o especial

Agencia Estado,

17 Outubro 2001 | 17h27

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