É a hora de testar o Irã

Se Teerã receber oferta clara para abdicar de programa nuclear, iranianos verão que bombardeio seria culpa do próprio governo

O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2012 | 08h44

A maior parte do debate sobre como tratar os esforços do Irã para ter a capacidade de produzir armas nucleares se concentra em duas opções. A primeira é confiar na dissuasão e conviver com um Irã com um pequeno arsenal nuclear ou com a capacidade de construir um em pouco tempo. A segunda é lançar um ataque militar preventivo para destruir partes mais perigosas do programa iraniano e retardar seu progresso em estimados dois ou mais anos.

Agora surgiu uma terceira opção: negociar um teto para o programa nuclear que não seja baixo demais para o governo iraniano nem alto demais para EUA, Israel e o restante do mundo. Essa opção, aliás, já vem circulando há anos - e por várias rodadas de negociações. O que mudou, porém, é o contexto. E mudanças no contexto podem ser críticas. Aliás, o que ocorre longe da mesa de negociações quase sempre determina o resultado das conversações face a face.

A mudança isolada mais importante no contexto é a rápida deterioração do estado da economia iraniana. As muitas sanções financeiras e relacionadas ao petróleo implementadas nos últimos meses e anos estão começando a surtir efeito. Elas se destinavam não a impedir diretamente o programa nuclear iraniano, mas a aumentar o preço que os líderes do país teriam de pagar para perseguir suas ambições nucleares.

A ideia (ou, mais precisamente, a esperança) era que os líderes do Irã, forçados a escolher entre a sobrevivência do regime e armas nucleares, optasse pela primeira.

Essa hipótese pode se tornar, em breve, um teste no mundo real. A moeda iraniana, o rial, caiu quase 40% nas últimas semanas, aumentando fortemente a taxa de inflação e o que os iranianos precisam pagar por importações e muitos gêneros de primeira necessidade. O resultado são os primeiros sinais de grave insatisfação pública com o regime desde a violenta repressão ao Movimento Verde em 2009. A classe comerciante do Irã, um dos pilares do establishment clerical que governa o país desde a revolução de 1979, também está descontente.

Outros fatores também poderiam dar uma chance real às negociações. As sublevações no mundo árabe sugerem que nenhum regime do Oriente Médio está protegido: os líderes iranianos teriam de ser cegos para não ter notado isso. Em seu discurso às Nações Unidas, no fim de setembro, o premiê israelense Binyamin Netanyahu deu sinais de estar disposto a dar mais tempo às sanções, ao menos até meados de 2013. E há sinais de que, ganhe quem ganhar a eleição presidencial americana em novembro, os EUA poderão perfeitamente empreender um ataque armado, com uma destruição potencial muito maior do que se Israel agisse sozinho. Os iranianos poderiam ver um acordo como a menor das ameaças.

Por enquanto, as negociações foram, quando muito, inconstantes. O acordo que autoridades iranianas estão sugerindo está longe do que elas poderiam ter de aceitar para evitar uma ação militar e ganhar um afrouxamento das sanções. Mas chegou a hora de apresentar ao Irã um pacote abrangente - o que ele deve fazer e qual seria a recompensa se concordasse. Seria fundamental também estabelecer um prazo para o Irã aceitar tal acordo, para que ele não use as novas negociações para ganhar tempo para melhorar seu programa nuclear.

Os termos precisos teriam de ser determinados, mas o Irã teria de abrir mão de todo o urânio que enriqueceu a 20% e parar de enriquecer até esse nível. Ele também teria de aceitar um teto para a quantidade de urânio que poderia ter e enriquecer a níveis mais baixos. Também poderiam ser necessários limites ao número de centrífugas e aos lugares onde elas poderiam ser abrigadas. As inspeções teriam de ser frequentes e intrusivas para tranquilizar o mundo exterior sobre o que o Irã está fazendo - ou, talvez, mais precisamente, o que não está. Em troca, o Irã receberia um alívio substancial com a remoção das sanções.

Além disso, os elementos fundamentais da oferta deveriam ser tornados públicos. Assim, se o regime não aceitar, ele teria de explicar a seu próprio povo por que não estava preparado para abandonar seu programa de armas nucleares, apesar de uma proposta americana razoável não planejada para humilhar o Irã e capaz de garantir grande melhora nos padrões de vida iranianos.

É possível que o novo contexto econômico e político leve os governantes iranianos a aceitar o que eles até agora recusaram. Por outro lado, se o regime se mantiver determinado a perseguir seus objetivos nucleares custe o que custar, então saberemos que não há uma alternativa às duas primeiras opções: atacar instalações iranianas ou conviver com um Irã nuclearmente armado. Os dois desfechos são potencialmente arriscados e caros, mas o público americano, em particular, deveria estar ciente de que foi o Irã que rejeitou uma alternativa razoável à guerra antes de uma delas começar.

Se a situação chegar a esse ponto, seria bom que outros governos soubessem que os EUA e/ou Israel decidiram atacar somente depois de oferecer ao Irã uma saída honrosa. Isso tornaria mais fácil manter a pressão econômica sobre o Irã depois de algum ataque.

Ir a público faz sentido por outra razão: o povo iraniano precisa saber que qualquer ataque ao país terá sido provocado, em grande parte, pelo próprio país. Essa percepção poderia abafar qualquer reação de "mobilização em torno da bandeira" e, com isso, deixar aberta a possibilidade de uma mudança de regime no futuro.

Tendemos a pensar em diplomacia como algo conduzido às ocultas: às vezes, porém, é melhor ocultar à plena vista. Este é um desses momentos. Mas os prazos contam; a diplomacia precisa agir com mais presteza para não ser atropelada por um avanço do Irã rumo a uma arma nuclear - e, com isso, um avanço rumo ao conflito. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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