'É a vez de a economia definir a eleição', diz especialista

Propostas sobre habitação e emprego devem pesar na decisão de eleitores que não são fiéis a um dos partidos

Adriana Carranca e José Roberto de Toledo,

20 de outubro de 2012 | 22h49

Praticamente empatados, o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney travarão um cabo de guerra no debate de segunda-feira, 22, na tentativa de trazer para o seu lado o eleitor "pendular", aquele que no curso da história votou em candidatos de ambos os partidos e pode mudar de opinião na reta final. Eles são menos de 1/3 do eleitores. Há 5% de indecisos.

 

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Temas como direitos da mulher, a morte de Osama bin Laden, as guerras no Afeganistão e Iraque devem ser levados à arena, mas o vencedor será aquele capaz de responder a duas perguntas dos eleitores: "Eu tenho a garantia de um teto para morar? Terei emprego amanhã?". A análise é de Darrell Bricker, CEO do Ipsos, instituto de pesquisa que acompanha diariamente o humor dos eleitorado nos EUA.

 

Estado: O que definirá as eleições?

 

Darrell Bricker: O grande tema é a economia e a percepção de que o progresso na gestão do presidente Barak Obama não foi como os eleitores imaginaram. Muitos na classe média americana estão insatisfeitos. Parte deles são pessoas sem adesão forte a um partido - os que a têm votarão como sempre, não importam as circunstâncias. São os que estão no meio que decidirão essas eleições. Os independentes estão dia a dia levando o resultado para um ou outro lado.

 

Estado: Qual é o tamanho desse eleitorado "pendular"?

 

Darrell Bricker: No geral, pouco menos de 1/3 do eleitorado, mas depende de onde estão geograficamente (há Estados predominantemente republicanos e outros democratas).

 

Estado: Há a percepção de que os eleitores americanos estão mais polarizados. Como o sr. avalia isso?

 

Darrell Bricker: É verdade. Mas não significa necessariamente que estejam se tornando mais democratas ou republicanos tanto quanto de esquerda ou direita. Na política, a ideologia parece estar se tornando mais importante do que a identificação partidária.

 

Estado: Não é a mesma coisa?

 

Darrell Bricker: No final acaba sendo. Mas os eleitores têm outras formas de expressar sua ideologia do que por um partido. A polarização tem base mais no papel do Estado, na percepção sobre se o Estado está trazendo coisas boas para o país - e para a sua vida - ou é parte do problema. Os cidadãos têm mais expectativa sobre o que o governo deve lhes proporcionar, um problema na maioria dos países, porque você tem uma população que envelhece. A demografia está influenciando a política.

 

Estado: Qual o efeito dessa polarização no resultado das eleições?

 

Darrell Bricker: Os eleitores podem estar tão insatisfeitos com a gestão Barack Obama na economia que votarão por mudança. E é isso o que torna Romney tão perigoso. Ele pode ter votos de pessoas que historicamente apoiavam os democratas.

 

Estado: Não foi sempre assim?

 

Darrell Bricker: Historicamente, o que define as eleições americanas é a política externa (em que republicanos e democratas mais diferem) e a economia. Esta é a vez de a economia definir a eleição. Muitos dos números apresentados por Barack Obama são razoavelmente bons, então, a minha aposta é de que vença, a menos que mande tudo pelos ares no próximo debate. Mas é uma disputa tão apertada quanto pode ser, tanto quanto entre George W. Bush e Al Gore (em 2000, quando Al Gore obteve maioria dos votos enquanto Bush ganhou na Flórida, Estado mais populoso, o que garantiu que fosse eleito).

 

Estado: Considerando que alguns Estados têm mais peso que outros e podem definir uma eleição, não há assuntos locais que pesam?

 

Darrell Bricker: Há sempre assuntos como legalização do aborto que têm peso num Estado conservador. Mas o ‘gorila de 800 libras’ (expressão americana para descrever uma força tão poderosa que está acima de todas as outras) dessa eleição é a economia. Veja, a maioria das disputas eleitorais é sempre sobre uma coisa: continuidade ou mudança. A pergunta que os americanos estão se fazendo é: nós realmente queremos mais 4 anos do tipo de liderança que temos ou vale a pena dar ao outro candidato uma chance? E eles estão divididos.

 

Estado: Qual o peso de temas tão relevantes em eleições passadas como a guerra no Afeganistão?

 

Darrell Bricker: Zero. Veja, você vem de um lugar que não passou pelo que os EUA estão passando. A crise econômica não atingiu o Brasil. Nos EUA, as pessoas perderam a casa, o emprego. Eles estão muito ansiosos sobre o futuro. Eu tenho a garantia de um teto para morar? Terei emprego amanhã? É o que querem saber!

 

Estado: Mas em 2008, os EUA já estavam em crise...

 

Darrell Bricker: Sim, mas podiam culpar Bush por isso e a mudança era Obama. Dessa vez, quem é?

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