E agora, Fidel?

O que Fidel Castro anda fumando? Ultimamente o líder da cinquentona revolução socialista está irreconhecível. Apenas nos últimos meses praticamente esvaziou as prisões de dissidentes políticos. Afagou a comunidade judaica com críticas ao líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad ("nenhum povo foi tão caluniado quanto os judeus", disse). Pregou o fim da corrida armamentista nuclear e, pasmem, confessou ao mundo por meio do jornalista Jeffrey Goldberg, um ianque (e judeu, de quebra), que o modelo da revolução já caducara.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

As atitudes de Fidel, claro, foram a senha para acionar a indústria de interpretação da vida e obra cubana. Há quem diga que as reformas anunciadas somam uma admissão cifrada da revolução na lona, sangrando divisas e prestes à rendição incondicional ao inimigo mortal, a democracia capitalista. Afinal, desde o colapso da União Soviética, Cuba carece de um patrocinador de gabarito. Para outros, tudo não passa de teatro político.

Os irmãos Fidel e o "pragmático" Raúl livrariam-se do peso morto da burocracia balofa, cortando programas deficitários e milhões de empregos de servidores públicos ociosos, assim saneando as contas no curto prazo, para apertar as rédeas do poder novamente quando a emergência passar.

O analista de política internacional George Friedman, do centro de estudos Stratfor, vai mais longe: as mudanças anunciadas seriam um ensaio de aproximação calculada com os Estados Unidos. Ao abandonar os discursos inflamados da apostila cubana (o antissemitismo tacanho), acenar para os direitos humanos (soltando 60 presos políticos desde maio) e abraçar a austeridade fiscal (500 mil demissões, podendo chegar a 1 milhão) - todas essas causas caras ao governo americano -, Havana estaria estendendo um ramo de oliveira para a maior superpotência ao mesmo tempo em que indica seu afastamento da aliança bolivariana - Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua. Assim, com a perestroika tropical, Fidel aposta em converter a crise em oportunidade.

Faltou combinar com os gringos, e por ora o embargo americano à ilha continua intocado. Mas para Washington deve ser um colírio ler nas páginas do Granma, porta-voz do regime castrista, advertências do tipo: "Despesas não podem ser confundidas com gastança. Para poder gastar, há de ter receitas," como escreveu recentemente o editor Alberto Nuñez Betancourt. A charge ao lado do editorial ainda mostrou uma gangorra chamada Orçamento, com o gordo "Gasto" lançando o magrelo "Receita" para o espaço. Já Caracas não deve achar graça nenhuma. Se para o mundo Cuba está definhando, na Venezuela, a miúda ilha desponta cada vez mais como uma grande potência, fonte de inspiração ideológica, fornecedora de mão de obra e acervo de tecnologia de autoritarismo e repressão popular. O elo entre as duas nações começou em 1994, logo que Hugo Chávez saiu da prisão após sua tentativa de tomar o poder por meio de golpe de Estado em 1992, frustrado em casa, mas festejado em Cuba.

Depois, já eleito, mas acossado pela oposição, que o tentou depor em 2002, Chávez encampou a sugestão castrista de lançar "missões", as políticas contra a miséria, escancarando as portas para agentes comunitários cubanos. Em troca, Chávez mandou à ilha petróleo - são 36 milhões de barris ao ano, metade do consumo do país - a preços companheiros. Nasceu a "Venecuba", "uma só nação", nas palavras de Fidel.

Depois disso, a cumplicidade aprofundou-se, passando das iniciativas sociais para as estratégicas e militares, todas com DNA cubano. Agora já se fala em 30 a 60 mil cubanos atuando no país em ministérios importantes, como de Portos, Telecomunicações, Defesa e Inteligência.

Destaque para o general Ramiro Valdés, ex-número 3 do governo cubano. Contratado em fevereiro por Chávez como "consultor" de assuntos energéticos, é mais conhecido como carrasco fidelista, padrinho do G2, o temível serviço de inteligência cubana que ganhou fama reprimindo manifestações populares contra o racionamento de energia em Cuba. Coincidência ou não, depois disso as milícias bolivarianas - hoje passam de 1 milhão os cidadãos fardados e armados com fuzis Kalashnikov - só crescem.

São tantos os cubanos nos ministérios venezuelanos que até figurões da "boligarquia" já pediram as contas, como o ministro de Saúde Carlos Rotondo e o vice-ministro de Defesa Ramón Carrizales. "Há ministros cubanos que se instalam aqui durante meses e despacham como se estivessem em Havana", escreveu Teodoro Petkoff, editor do jornal venezuelano Tal Cual. Assim tem sido o namoro "venecubano", duas revoluções irmanadas atendendo às carências umas às outras, em nome de José Martí e Simón Bolívar.

E agora, Fidel? Como ficam o escambo socialista e os órfãos bolivarianos? A decadência assumida da revolução lança dúvidas não apenas sobre o destino da ilhota das Antilhas, mas sobre todos seus devotos, do altiplano andino aos bairros caraquenhos. Os herdeiros de Cuba aguardam instruções.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA ''NEWSWEEK'' E COLUNISTA DO ''ESTADO''

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