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E agora, Fidel?

"Esse país pode se autodestruir, a revolução pode se destruir. Eles (os EUA) não podem destruí-la, mas nós podemos", discursou Fidel Castro, em novembro de 2005. Estava prestes a completar 80 anos. Aparentava cansaço, suas mãos estavam visivelmente trêmulas, a memória por vezes lhe faltava. A velhice o desafiava e o líder da Revolução Cubana andava obcecado com a ideia de que seus ideais não sobreviveriam a sua morte.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2015 | 02h00

Os camaradas envelheceram, enquanto a geração pós-Revolução se tornara maioria - 77% da população nasceu depois de 1961, ano em que os EUA cortaram relações diplomáticas com Cuba. Eles não viveram a ditadura de Fulgencio Batista. Ernesto Che Guevara, morto em 1967, era o símbolo de uma luta que não foi sua. Tampouco testemunharam o auge da URSS. Pelo menos 30% nasceram no "período especial", quando a potência socialista ruiu e, com ela, os subsídios à ilha. Sua referência do passado é o regime que lhes impõe as dificuldades do presente: os blecautes, o preço proibitivo da gasolina que substituiu os velhos carros por bicicletas nas ruas de Havana, a escassez de itens básicos, a falta de liberdade.

Por muitos anos, o embargo dos EUA propiciou a Fidel um bode expiatório para seus problemas e à população um inimigo maior do que o regime. "Na curta história dos EUA, poucas decisões ruins duraram tanto tempo", escreveu Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, na New Yorker. Mas esses sentimentos eram constantemente testados pelos infortúnios do cotidiano na ilha. Muitos cresceram desejando nada além do que emigrar. Balsas lotadas atravessavam o mar rumo à Flórida. Falava-se em três alternativas, 3Rs: roubar, remar ou resignar-se.

Na virada do século, Fidel aproveitou a disputa judicial e política com os EUA pela custódia do menino Elián González - que, aos 6 anos, chegou a Miami sem a mãe, morta em um naufrágio na travessia - para desvelar seu último ato: uma batalha de ideias.

Visava a reacender o fervor revolucionário nos jovens. O comando foi dado à Juventude Comunista, da qual Elián, devolvido a Cuba em 2000, é hoje líder. Mais de 170 projetos de cunho ideológico foram lançados e um exército de 28 mil servidores enviado às casas para pregar a doutrina marxista e dar aos insatisfeitos um objetivo de vida alinhado aos ideais da revolução. Logo, eles passaram a ser chamados de "taleban", por interferir na vida privada dos cubanos - a maioria estava preocupada demais com o sustento da família para pensar em revolução.

Para esses jovens, Fidel tinha se tornado um avô austero, amoroso com os que lhe obedeciam e tirano com os outros; um velho com ideias ultrapassadas, preso a um passado de glórias.

Em 2008, Fidel passou o comando do PC ao irmão caçula, Raúl Castro. O petróleo da Venezuela dera sobrevida ao regime, mas a morte de Hugo Chávez, em 2013, e o colapso da economia venezuelana deixaram o presidente sem alternativa.

De um lado, a bandeira americana hasteada ontem em Havana pode simbolizar a derrota da revolução. De outro, Barack Obama admitiu o fracasso da política externa para Cuba - 54 anos de isolamento não derrubaram o regime. Fidel sobreviveu a nove presidentes americanos e foram os Castros que permitiram a volta dos EUA. O que ocorrer a partir de agora definirá o legado de Fidel. A geração pós-Revolução espera mais do governo do que seus antecessores - não é à toa que é mais crítica do regime que seus pais e avós. Liberdade está entre as demandas.

O maior desafio talvez seja evitar a evasão. A reaproximação com os EUA despertou nos jovens "a esperança de um amanhã possível dentro do país", escreveu o Havana Times. Como atender às suas expectativas dependerá do governo. Como disse Fidel, os americanos não podem destruir Cuba. Os Castros podem.

* ADRIANA CARRANCA É JORNALISTA E ESCRITORA

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