'É bobagem falar de um regime islâmico no Egito', diz opositor

Esam el-Erian, membro do Diretório Executivo da Irmandade Muçulmana, fala ao 'Estado'

Lourival Sant’Anna, enviado especial

17 de fevereiro de 2011 | 01h00

Prioridade são eleições para o Parlamento, diz el-Erian.

 

CAIRO - Numa cidade em que raramente se marca um compromisso de manhã e quase tudo acontece à tarde e à noite, Esam el-Erian chega pontualmente para a entrevista às 9h30, no escritório da Irmandade Muçulmana, no Cairo. "Esqueci que era feriado", sorri ele, lembrando que na quarta-feira foi o aniversário do Profeta Maomé - distração curiosa para um religioso.

 

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Nestes dias revolucionários, tudo o que a Irmandade quer evitar é a pecha de religiosa, e o esforço é visível na entrevista ao Estado. Aos 57 anos, oito deles na prisão sob o regime de Hosni Mubarak, derrubado na sexta-feira, el-Erian garante que a Irmandade não tem uma agenda própria para o país, e não imporá os preceitos do Islã a seus cidadãos. Mas mantém sua posição crítica em relação aos EUA e rejeita discutir a posição do grupo em relação a Israel: "Não somos guardiães de Israel. Ele pode se proteger sozinho".

 

Os militares já entraram em contato com vocês?

 

Até agora, não.

 

Nesta transição, vocês acham que primeiro se deve realizar eleições para o Parlamento?

 

Essa é a nossa prioridade, embora tudo tenha de ser discutido para se buscar consenso. Para nós, o principal objetivo agora é transferir o poder para o povo. Se houver eleição para presidente antes do Parlamento e antes de uma nova Constituição, o poder será transferido para um único homem. O Parlamento representa a todos.

 

Vocês estão criando um partido político?

 

Sim. Não podíamos ter um no tempo de Mubarak.

 

Vocês anunciaram que não terão candidato próprio a presidente. Por quê?

 

Veja, somos o espantalho do mundo. Querem nos demonizar, como fundamentalistas islâmicos. Queremos parar esse jogo infantil, explorado por Mubarak.

 

Quem, então, vocês apoiarão para presidente?

 

Vamos examinar as propostas e o currículo dos candidatos. O ideal seria que todas as forças da oposição se unissem em torno de um único candidato. Seria o caos se na primeira eleição presidencial livre houvesse 20 candidatos.

 

Qual é a agenda de vocês para o país? Introduzir um regime islâmico?

 

Não temos nenhuma agenda a priori para o país. Falar de introduzir um regime islâmico é bobagem, porque o Egito já é um país muçulmano há mais de mil anos, assim como há cristãos aqui e houve judeus também. Todos viveram juntos aqui ao longo de toda a História.

 

Vocês imporão a sharia (código penal islâmico), a barba, o véu e a proibição do álcool?

 

Essas coisas se resolvem na vida cotidiana. A Arábia Saudita e o Irã obrigam as mulheres a se cobrir com o véu, e elas fazem isso sob pressão. Aqui no Egito, a maioria das mulheres muçulmanas usa o véu porque quer, contra a vontade de Suzanne (Mubarak, a ex-primeira-dama). Ninguém pode obrigar ninguém a seguir uma religião.

 

Como seriam as relações com Israel num governo da Irmandade Muçulmana?

 

Venha me fazer essa pergunta quando esse dia chegar. Talvez não exista mais Irmandade Muçulmana ou talvez não exista mais Israel.

 

O que vocês acham dos atentados suicidas?

 

Não respondo a essas questões agora, porque estão tentando propagandear que o Irã e o Hamas estiveram por trás da Revolução. E isso é mentira.

 

Como devem ficar as relações do Egito com os EUA?

 

Os Estados Unidos são a potência mais importante do mundo e querem que todos os obedeçam. Isso precisa mudar. Espero que todos os aliados dos EUA tenham aprendido a lição de que os americanos não podem protegê-los da fúria do povo. Não podemos ser escravos dos EUA. Somos iguais. Fizemos a revolução graças a nossos esforços e a Alá, apenas. Todas as tentativas dos americanos de criar democracia fracassaram, como no Afeganistão e no Iraque. Qualquer um que busca a proteção dos Estados Unidos destrói sua própria imagem perante seu povo.

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