É hora da Alemanha refazer laços com os EUA

O chanceler alemão Gerhard Schroeder venceu, mas está enfraquecido. Primeiramente, por causa dos bons resultados obtidos pelos aliados do Partido Verde. Em segundo lugar, devido à minúscula vantagem que os socialistas/verdes conseguiram sobre os conservadores/liberais. E isso não é tudo. Schroeder assumiu também durante a campanha posições que podem agora lhe custar muito caro. Ele imaginou - e conseguiu - atrair uma parte de seu povo com um discurso nacionalista, orgulhoso, arrogante e "soberanista".Resumindo, podemos dizer que ele apresentou aos alemães a seguinte análise: "Nos últimos 50 anos, a Alemanha, por causa das monstruosidades cometidas por Adolf Hitler, está ´sob vigilância´. Não tem o direito de se manifestar a respeito do que acontece no mundo. Nada mais pode fazer além de aprovar o que seus aliados lhe dizem. Isso não pode continuar. Hitler morreu há meio século e a Alemanha, por sua capacidade, sua força, sua cultura, é uma das grandes nações do mundo. Agora, recuperamos o orgulho, a satisfação de sermos alemães."Sobressalto de orgulhoE esse sobressalto de orgulho alemão expressou-se singularmente, à custa do grande aliado, o vencedor da 2ª Guerra Mundial, o amigo indefectível da Alemanha: os Estados Unidos. É preciso dizer que o presidente norte-americano George W. Bush ofereceu a Gerhard Schroeder uma oportunidade ímpar de se rebelar: sua obsessão de atacar o Iraque.Schroeder não é o único, na Europa, a desaprovar o belicismo de Bush. Com exceção da Inglaterra, e talvez da Espanha, os europeus, em sua maioria, consideram incoerente a obsessão de Bush. Mas não dizem isso. Procuram contemporizar, ganhar tempo, mas não se opõem frontalmente a Washington. Schroeder, provavelmente por motivos eleitorais, mas também porque os alemães ainda nutrem sentimentos antiamericanos bastante fortes, ousou lançar esse desafio ao "amigo americano". E, de fato, isso não impediu que Schroeder se elegesse, embora por uma margem muito estreita.Declarações deploráveisAlém disso, alguns membros do Partido Social-Democrata alemão fizeram declarações deploráveis, como a ministra da Justiça, Herta Daeubler-Gmelin, que ousou comparar os métodos de Bush com os de Hitler (imbecilidade manifesta). Os norte-americanos não se conformaram com essa rebeldia "de um dos alunos mais aplicados e obedientes da Europa". E disseram claramente que podiam muito bem mudar de aliado privilegiado na Europa continental.Schroeder é um político muito sutil, muito intuitivo para não compreender que "pisou na bola". É o perigo das campanhas eleitorais: os candidatos falam muito, dizem besteiras e, depois de eleitos, se arrependem. Na França, o presidente Jacques Chirac é mestre nessas "palavras irresponsáveis" das quais se arrepende já no dia seguinte da eleição. Na última campanha, Chirac prometeu a "lua" a todos, e hoje percebe-se que a "lua" não existe. Foi o que fez Schroeder em sua campanha eleitoral. E ele pode avaliar a extensão dos estragos.Dedo na feridaA ira dos norte-americanos parece profunda e persistente. Não será fácil acalmá-la com desculpas e explicações. Uma das primeiras tarefas do chefe de governo alemão agora consistirá, portanto, em restaurar a confiança dos norte-americanos. A empreitada será ainda mais perigosa porque os adversários de Schroeder, os conservadores, que obtiveram praticamente o mesmo número de votos que ele, não perderão a oportunidade de colocar o dedo na ferida.Felizmente, o socialista Schroeder tem a seu lado um homem extremamente inteligente e que deve ajudá-lo: o extraordinário Joschka Fischer, ministro de Relações Exteriores e líder do Partido Verde.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.