É hora de abandonar Munique

No dia 30 de setembro de 1938, o pacto de Munique, saudado na época como uma vitória para a paz, tornou-se rapidamente o oposto: permitiu a Hitler apossar-se da maior parte do Leste Europeu sem derramar uma gora de sangue. Desde então, Munique foi considerada uma palavra-chave para a pacificação e o sinônimo da perda do melhor momento para barrar um ditador.

Tom Shachtman*, Foreing Policy - O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2013 | 02h08

O secretário de Estado americano, John Kerry, num telefonema realizado em setembro aos democratas do Congresso, referiu-se à necessidade de punir o presidente sírio Bashar Assad por ter usado armas químicas como um "momento de Munique", afirmando que os americanos não podem ser "espectadores silenciosos do massacre".

O presidente Barack Obama, embora evitasse o uso explícito daquelas palavras, deixou claro que não se pode permitir que Assad aproveite da relutância do Ocidente a usar a força como Hitler aproveitou semelhante falta de disposição em 1938. Como o secretário da Defesa Chuck Hagel afirmou, a falta de ação dos EUA em relação às armas químicas da Síria teria ampla repercussão - os sul-coreanos temem que possa encorajar a Coreia do Norte a usar armas químicas e biológicas.

A expressão Munique foi usada como uma analogia em referência a tantas situações que teve de ser retirada. A retórica político-militar não precisa se perpetuar. No mundo moderno, não costumamos mais comparar situações à passagem do Rubicão, a encontrarmos o nosso Waterloo. Olhando retrospectivamente, podemos dizer que a França e a Grã-Bretanha não deveriam ter negociado e sim ido para a guerra naquele instante, mas a visão retrospectiva costuma omitir importantes detalhes e Munique foi algo mais complexo do que uma opção entre lutar e render-se.

Em Munique, Hitler, Benito Mussolini, Neville Chamberlain e Edouard Daladier assinaram um breve memorando no qual Grã-Bretanha, França e Itália concordavam em não entrar em guerra contra a Alemanha e permitir que Hitler tomasse a região dos Sudetos, na Checoslováquia, em troca da promessa de não invadir nenhum outro território. Chamberlain e Daladier assinaram porque França e Grã-Bretanha, que ainda se recuperavam da devastação da Grande Guerra, não tinham muito apetite ou capacidade para combater. Na época do Anschluss, seis meses antes, quando Hitler tomara a Áustria, Daladier identificou corretamente o próximo alvo dos nazistas. Mas em setembro, quando ele quis honrar as obrigações do tratado da França a fim de proteger a Checoslováquia, foi impedido por seu gabinete e pelo aparato militar francês. Ele sabia que não poderia ir à guerra sem os britânicos.

Além disso, um pacto de paz era exatamente o que o povo francês e o britânico queriam. Enormes multidões saudaram o primeiro-ministro de 70 anos e acreditaram nele quando Chamberlain declarou que o acordo significava a "paz no nosso tempo". Daladier voltou para Paris imaginando que seria linchado e foi exaltado.

Hitler quebrou sua promessa e semanas depois já martelava às portas das partes restantes da Checoslováquia, que não falavam alemão. No dia 1.º de setembro de 1939, os nazistas invadiram a Polônia. França e Grã-Bretanha declararam guerra à Alemanha dois dias depois.

Munique foi usado abundamentemente durante a 2.ª Guerra e depois. A razão para não atacar Hitler em setembro de 1938 havia sido esquecida, e Munique tornou-se a palavra de ordem dos que tentavam impedir os comunistas. O presidente Dwight Eisenhower escreveu a Churchill em 1954, justificando a ajuda americana aos franceses em Dien Bien Phu: "Nós não conseguimos deter Hirohito, Mussolini e Hitler por não termos agido unidos e tempestivamente. Isso assinalou o início de muitos anos de pura tragédia e riscos desesperados. Será que nossas nações aprenderam alguma coisa daquela lição?". Esses pensamentos levaram ao envolvimento inicial dos EUA no Vietnã.

Durante a crise dos mísseis cubanos, o presidente John Kennedy e seus assessores concordaram que se tratava de um "momento Munique" - que aquele era o lugar e o momento certo de impedir que os soviéticos instalassem mísseis nucleares a um passo do continente americano. Mas Kennedy teve de usar de todo tato para acalmar o comandante chefe da Força Aérea americana, Curtis LeMay: o general esbravejava que a diplomacia era inútil para resolver a crise e a resposta mais adequada seria lançar uma bomba nuclear sobre Cuba.

Munique forneceu a justificativa para a decisão de Lyndon Johnson de enviar grande quantidade de tropas ao Vietnã. Johnson escreveu posteriormente: "Tudo o que sabia a respeito de história me dizia que se eu saísse do Vietnã e permitisse que Ho Chi Minh percorresse as ruas de Saigon, estaria fazendo exatamente o que Chamberlain fez na 2.ª Guerra. Estaria premiando amplamente a agressão."

A oposição a atitudes de submissão no estilo de Munique tornou-se o slogan de Richard Perle e de outros neoconservadores que criticaram possíveis acordos nucleares com os soviéticos nos anos 70 e 80. O exemplo mais recente, acusavam os neoconservadores, fora a retirada das tropas americanas do Líbano em 1984, ordenada pelo presidente Ronald Reagan, seis meses depois do atentado terrorista ao alojamento dos fuzileiros navais americanos naquele país.

Houve uma última referência a Munique como justificativa para ação, sussurrada pelo assessor de Segurança Nacional Brent Scowcroft e pela primeira-ministra Margaret Thatcher no ouvido do presidente George H. W. Bush em 1991, para convencê-lo da necessidade de expulsar Saddam Hussein do Kuwait. O paralelo com Munique foi tão próximo - o ditador apoderou-se de um país vizinho e planejou seguir em frente invadindo a Arábia Saudita - que a comunidade mundial concordava e apoiava os EUA quanto à necessidade de empurrar os invasores de volta para Bagdá.

A maioria das crises nas quais a comunidade internacional vê razões para intervir, 75 anos depois, não envolve fronteiras territoriais, mas a criação de fronteiras morais e éticas, muito difíceis de definir com precisão. Além disso, as opções na Síria não consistem só em lutar ou em ceder: a diplomacia pode ser capaz de encontrar um terreno neutro quase equivalente à conciliação.

Devemos esquecer de Munique como uma palavra que serve para galvanizar o apoio a toda ação contra qualquer ditador em qualquer momento. O mundo cresceu desde 1938 - é mais complexo, mais interconectado e em muitos aspectos o bem e o mal não são separados tão facilmente. Certamente, no caso do gás sarin, a comunidade mundial pode encontrar múltiplas razões para responder e punir o agressor. Mas está na hora de encontrarmos uma nova analogia nas asas retóricas de quem montará a carga.

*Tom Shachtman é jornalista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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