É hora de envolver o Hamas nas negociações

Agora está claro que Israel desferiu um golpe devastador no Hamas durante a campanha de três semanas que terminou no dia 17, atingindo com sucesso os seus estoques de armamentos, instalações de treinamento e postos de comando. Diversas centenas de membros das suas forças de combate foram mortas e muitas outras feridos. Ao não dar prosseguimento à campanha, Israel deixou o Hamas contemplando não apenas a hostilidade na qual o grupo incorreu por parte do Egito, Jordânia, Arábia Saudita e demais países árabes moderados, mas também a dura sensação de ter sido traído pelos seus aliados entusiasmados - a Síria, o Irã e o Hezbollah libanês. Ainda digerindo a derrota, o Hamas entrou num período de introspecção. O grupo deve perguntar a si mesmo se continuará como bucha de canhão para os interesses de Damasco e Teerã. E, o mais importante, deve considerar se é capaz de conservar o apoio das massas palestinas . Aqueles de nós do outro lado que estão buscando a paz no Oriente Médio também devem aproveitar essa oportunidade de um Hamas extremamente enfraquecido para refletir quanto à maneira de trazer o grupo para o processo político, em vez de simplesmente confrontá-lo com tanques nos becos de Gaza. Para começar, recapitulemos os eventos dos últimos anos.O Hamas sobreviveu a dois períodos de cinco anos de protestos - duas intifadas. Então, para a surpresa de todos, incluindo os líderes do grupo, a administração de George W. Bush exigiu que Israel e a Autoridade Palestina permitissem a participação do Hamas nas eleições palestinas de 2006 - apesar de o grupo não ter renunciado ao terror e nem reconhecido o direto de existência de Israel. Apesar de o Hamas ter obtido uma maioria absoluta das cadeiras do Parlamento, justamente aqueles que insistiram na sua participação nas eleições não deram ao grupo a legitimidade necessária para governar. Nem mesmo um governo de unidade nacional patrocinado pela Arábia Saudita não foi reconhecido nem por Israel e nem pelos EUA. Os dois países conseguiram desde então mobilizar amplo apoio internacional a uma lista de condições que deveriam ser cumpridas pelo Hamas para que fosse aceito como participante na solução da equação palestina. Em primeiro lugar, o grupo deve respeitar todos os acordos firmados pela Autoridade Palestina. Em segundo, deve se abster de agir por meio da violência. Em terceiro, deve reconhecer o direito de existência de Israel. Na semana passada, a secretária de Estado Hillary Clinton reafirmou publicamente que estas condições permanecerão inalteradas.Apesar de ser verdade que o Hamas se recusou prontamente a aceitar as três condições, especialmente "o direito de existência de Israel", os seus líderes disseram no ano passado que aceitariam as fronteiras determinadas pela ONU em 1967 entre Israel e os seus vizinhos palestinos como "fronteiras provisórias" para um Estado palestino. Isso não seria equivalente a uma declaração de aceitação do outro Estado - Israel - do outro lado das fronteiras de 1967? Em vez de pressionar o Hamas a renunciar à sua ideologia, por que não lidar com eles com base na sua fórmula das fronteiras de 1967 e gradualmente estimulá-los a envolver-se no processo político como os participantes racionais que eles, no fundo, são?Qualquer progresso da arena da ideologia para o reino das soluções práticas e realistas é certamente desejável.Agora é a hora de tomar essa medida. Numa das muitas reviravoltas da História, pode muito bem ocorrer de a única esperança do Hamas de compensar suas perdas em Gaza seja uma nova aliança com a Autoridade Palestina, liderada pelo cada vez mais velho e mais fraco Mahmud Abbas. A partir da perspectiva palestina, o desempenho do remanescente da liderança palestina em Ramallah durante os combates foi desolador e patético; eles nada tinham a oferecer e nada fizeram além de condenar publicamente os atos de Israel, enquanto torciam secretamente por uma contundente vitória israelense. Apesar de a comunidade internacional apoiar a Autoridade Palestina e desejar o seu fortalecimento em relação ao Hamas, na realidade o Fatah - o movimento tradicional que foi liderado por Yasser Arafat por quase 40 anos - está perdendo espaço na opinião pública rapidamente. Sua única verdadeira chance de ressurgimento está na iniciativa de recriar um governo de unidade nacional com o Hamas, uma iniciativa especificamente aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU em 7 de janeiro. O Egito agora tenta aproximar as facções enfraquecidas da Autoridade Palestina e o Hamas num ato de reconciliação. O sucesso da iniciativa é incerto, pois as desavenças entre eles são muito profundas.Quem sabe por enquanto seja melhor a comunidade internacional deixar que os palestinos resolvam as coisas entre si mesmos. Se o produto final tiver o formato de uma liderança unificada, com o Hamas se afastando da traiçoeira Teerã e se concentrando em vez disso no bem-estar dos palestinos, isso pode justificar o esforço. Certamente vale a pena tentar. A última coisa que devemos fazer é frustrar essa esperança em razão da intransigência ideológica, quando o momento pede inteligência prática.*Efraim Halevy foi chefe do serviço secreto israelense, Mossad, e embaixador para a União Europeia. Agora, dirige o Centro Shasha para Estudos Estratégicos na Universidade Hebraica de Jerusalém

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