É hora de repensar a guerra no Afeganistão

Ao discursar na segunda-feira passada para veteranos de guerra, em Phoenix, o presidente americano, Barack Obama, não poderia ser mais conclusivo. "Não podemos nos esquecer jamais: essa não é uma guerra por escolha, mas uma guerra por necessidade", disse, se referindo ao Afeganistão. O presidente não criou nada novo no caso, somente reforçou uma política já existente. No início do ano, decidiu enviar mais 17 mil soldados e 4 mil instrutores para o Afeganistão, aumentando o contingente americano para mais de 60 mil militares. Em março, articulou uma missão mais ampla: os EUA "assumiram a luta contra o Taleban no sul e no leste do país", entrando de vez na guerra civil afegã. Como resultado, soldados americanos estão combatendo o Taleban para dar tempo e espaço para as forças afegãs serem treinadas e para dissuadir os insurgentes de resistirem. Vamos chamar isso de "reconstrução armada de um Estado". Mas a guerra no Afeganistão é uma necessidade? E se, na verdade, for uma guerra por escolha? Guerras por necessidade precisam passar por duas análises. Elas devem atender, em primeiro lugar, a interesses nacionais vitais e, em segundo lugar, não devem existir alternativas viáveis ao uso da força militar. A 2ª Guerra foi um conflito por necessidade, assim como a Guerra da Coreia e a do Golfo. Após o 11 de Setembro, o conflito no Afeganistão era uma guerra de necessidade. Os EUA tinham de agir em autodefesa para derrubar o Taleban. Mas agora, com um governo amistoso em Cabul, a presença militar americana ainda é necessária? Naturalmente, no Afeganistão o interesse é tornar difícil para a Al-Qaeda planejar operações e limitar o uso do território afegão pelo Taleban para desestabilizar o vizinho Paquistão. Reduzir as possibilidades de ataques contra americanos é vital, como também é garantir que o arsenal nuclear paquistanês não caia em mãos erradas. Mas, mesmo que os EUA tenham êxito no Afeganistão - e isto significa conseguir forjar um governo afegão forte o bastante para controlar a maior parte de seu território -, os terroristas ainda podem operar a partir dali e criar raízes em todas as partes. E o futuro do Paquistão continuaria incerto. Além disso, existem alternativas para a atual política americana. Uma delas seria reduzir as operações de combate em terra e aumentar os ataques de aviões não-tripulados, intensificar o treinamento de policiais e soldados, aumentar a ajuda ao desenvolvimento e à atividade diplomática para dividir o Taleban. Uma alternativa ainda mais radical seria retirar forças e centralizar os esforços antiterrorismo. A guerra no Afeganistão é, portanto, uma escolha - do presidente Obama. Assim, é uma guerra análoga à do Vietnã, Bósnia, Kosovo e à do Iraque de hoje. Guerras por escolha não são inexoravelmente boas ou más. Depende se o envolvimento militar consegue mais realizações do que gastos e se o emprego da força é mais encorajador do que as alternativas. É difícil avaliar isso no caso do Afeganistão. Os taleban são habilidosos e pacientes, e podem usar o Paquistão como um santuário. Não se sabe se os afegãos superarão lealdades tribais e étnicas, a corrupção e as rivalidades pessoais. Independente de quem seja o vencedor, é quase certo que a eleição de quinta-feira tenha deixado o país ainda mais dividido. O risco de encerrarmos nossas atividades militares no Afeganistão é que o governo de Cabul pode cair. O risco da estratégia atual (ou mesmo de outra, envolvendo o envio de mais 10 ou 20 mil soldados, como o presidente parece estar querendo) é que ela pode levar ao mesmo resultado no final, mas a um custo humano, militar e econômico mais alto. Tudo isso torna o conflito no Afeganistão não só uma guerra por escolha, mas uma escolha penosa. O governo, o Congresso e os americanos precisam fazer uma avaliação rigorosa para saber se esses esforços estão dando resultados. Se ficar evidente que não, o presidente deve reduzir o papel do país nos combates ou retirar-se. Se a guerra no Afeganistão fosse uma necessidade, ela justificaria qualquer tipo de esforço. Ela não é, e não justifica. É preciso estabelecer um limite para o que os EUA pretendem fazer no Afeganistão e para o tempo que isso levará, de modo a não nos tornarmos incapazes de enfrentar outras guerras - necessárias ou não. *Richard Haas é presidente do Council on Foreign Relations

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.