É impossível parar a máquina

Oposição do Partido Democrata a um novo tratado de abertura comercial é irracional

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2015 | 02h04

As duas forças mais poderosas que transformaram o mundo nas últimas décadas foram a expansão da globalização e a revolução da informação. Esses dois grandes motores continuaram em ação, integrando a Ásia ao sistema global e abrindo caminho para a era digital que hoje invade todos os aspectos da nossa vida. A oposição do Partido Democrata à concessão de poderes para o presidente dos EUA, Barack Obama, negociar acordos comerciais não enxerga a realidade fundamental desta era - você não pode desligar a máquina.

Não pode impedir a China de crescer. Não pode evitar que a África intensifique sua integração ao sistema global. Essas forças, hoje profundamente enraizadas, continuarão a todo vapor. O possível acordo com a Ásia, a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), pode, no entanto, influir no sentido de essas tendências serem compatíveis com o ideal e os interesses americanos. É por isso que a oposição no Congresso - especialmente a democrata - está tão equivocada.

É tarde demais para os que acreditam que, após o TPP, os EUA terão de competir com países onde os salários são baixos. Como observou Zachary Karabell, já estamos vivendo no mundo do livre comércio. A tarifa média no mundo desenvolvido hoje é de cerca de 3%. Nas três últimas décadas, os países em desenvolvimento reduziram substancialmente as suas também. A Organização Mundial do Comércio observou que a média na China é inferior a 10% hoje, contra 40% em 1985.

É verdade que o comércio desacelerou seu ritmo vertiginoso de outrora, mas faz sentido. Durante os anos 90, regiões inteiras, como a Europa Oriental, e países como a China se integraram à economia global - o que teve enorme impacto na expansão. Hoje, países como Uganda e Gana vêm se inserindo no sistema, mas os efeitos são obviamente menores.

A revolução tecnológica acelerou a globalização à medida que produtos digitalizados podem ser enviados de um lado a outro através das fronteiras a um custo mínimo. Quase tudo hoje é digital num certo sentido, uma vez que até o setor de táxis hoje vem sendo reformulado por empresas como a Uber, que utiliza grandes volumes de dados e software inteligente. Como impedir a globalização de produtos e serviços digitais? Você conseguiria aprovar uma lei proibindo um laboratório em Nova York de enviar exames a um médico em Chennai para ele ler e interpretar? É possível impedir que um contador em Manila prepare sua declaração de imposto de renda e envie por e-mail? Não importa o que você acha dessas forças, pode haver resistência a elas em alguns lugares e por algum tempo, mas olhe à sua volta - elas continuam avançando.

Os Estados Unidos têm uma das economias mais abertas do mundo. Qualquer acordo comercial como o TPP abrirá outras economias - como Japão ou Vietnã - muito mais que no caso dos EUA. E o caráter da abertura e as novas regras refletirão os ideais e interesses americanos.

Num ensaio na Foreign Affairs em 1993 sobre o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), Paul Krugman explicou que o tratado não teria muito impacto sobre a vasta economia americana. O importante realmente era a política externa. Os efeitos econômicos do Nafta foram intensamente debatidos, mas as consequências na área da política externa são óbvias - e claramente positivas.

Hoje, nos esquecemos, mas há somente três décadas o México era um dos países mais antiamericanos do mundo. A política adotada pelo país era uma mistura de ressentimento, inveja e cólera dirigidos ao rico vizinho. O partido no governo tinha uma postura revolucionária de esquerda, obstinadamente oposta a Washington e sua política externa.

Hoje, o México é um país transformado, um inequívoco aliado dos EUA. Seu presidente, do mesmo partido revolucionário no governo, é resolutamente pró-americano. O país é um componente essencial de uma economia americana estreitamente interconectada que se tornou o bloco regional mais vibrante do mundo. Muitos fatores levaram a essa transformação, mas o Nafta foi o principal deles.

Se algo similar ocorrer com o TPP na Ásia, os efeitos serão ainda maiores. O mundo em que vivemos é um mundo em que novas potências emergem e velhas regras deterioram. A luta é redigir novas regras - para o comércio, a segurança cibernética, a propriedade intelectual e muito mais.

Esperemos não voltar 20 anos no tempo, quando as novas regras foram ditadas pela China, e pensar que deveríamos ter sido mais ativos e assertivos quando tivemos a oportunidade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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