TANG CHHIN Sothy / AFP
TANG CHHIN Sothy / AFP

‘É legítimo questionar o papel da China na pandemia’, diz pesquisador

Especialista em China, Antoine Bondaz diz que país se prepara para aumentar seu papel na indústria médica mundial

Entrevista com

Antoine Bondaz

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Professor da Sciences Po e especialista em China da Fundation pour la Recherche Stratégique (Fundação para Pesquisa Estratégica), em Paris, Antoine Bondaz diz que, na pandemia de covid-19, é tão legítimo questionar o papel do país na crise quanto é fácil tentar pôr a culpa na Organização Mundial de Saúde (OMS). Leia sua entrevista.

O que pretende a China com a chamada nova "rota da seda sanitária"?

Em 2015, ela lançou seu projeto de cooperação sanitária. O País queria aumentar sua influência na governança sanitária regional e mundial e ajudar a medicina tradicional chinesa a se internacionalizar. Os objetivos eram organizar fóruns de cooperação sanitária com os países participantes da “Rota da Seda”, com a Associação dos Países do Sudeste Asiático, com a Europa Central e a do Leste e com os árabes. Queria fazer um mecanismo de prevenção e de controle de doenças infecciosas na Ásia Central e na sub-região do Grande Mekong e criar um plano de formação de pessoal de saúde com a Indonésia e o Laos. Ambições de longo prazo de diplomacia sanitária estão definidos no plano Healthy China 2030. O País pretende se tornar importante na produção de equipamentos médicos de diagnósticos e de tratamento e conquistar parte substancial do mercado farmacêutico mundial, facilitando a criação de gigantes nacionais do setor. As autoridades desejam igualmente participar ativamente na governança mundial da saúde e exercer uma influência sobre a elaboração das normas e regras internacionais.

A epidemia de ebola na África Ocidental em 2014 marcou um crescimento em poder de engajamento chinês na diplomacia da saúde?

Em 1963, a China enviou uma primeira equipe médica para a Argélia. Entre os anos 1960 e o fim dos anos 2010, mais de 20 mil profissionais de saúde chineses foram enviados à África e levaram seus cuidados a mais de 200 milhões de pessoas. Entretanto, foi a crise do ebola na África Ocidental em 2014-2015 que foi a ocasião em que a China conquistou uma maior visibilidade como ator da governança mundial no domínio da saúde pública. A China participou pela primeira vez de um esforço internacional em face a uma emergência mundial na saúde. O país contribui financeiramente e com o envio de 1.200 especialistas em saúde. Pela primeira vez, a China se tornava um país de primeiro plano em termos de cooperação sanitária claramente se inserindo em uma lógica de cooperação internacional. De fato, a China e os Estados Unidos cooperaram estreitamente na luta contra a epidemia de ebola que fez mais de 11 mil mortos, principalmente, apoiando a criação de um Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, em janeiro de 2016. A China se tornou, assim, um parceiro crível ao mesmo tempo em que é cada vez mais percebido como um concorrente em termos de influência na África.

 

Como o Ocidente deve reagir aos planos chineses ligados à "rota da seda sanitária"?

É fundamental se lembrar que os países ocidentais são de longe os que mais contribuem com a cooperação internacional em matéria de saúde pública e fornecem uma ajuda humanitária, técnica e financeira considerável. Que a China desenvolva sua diplomacia sanitária e participe desse esforço é, evidentemente, uma coisa boa, pois sua contribuição permite melhorar a saúde pública em numerosos países. Os 17 protocolos de acordos bilaterais assinados em 2017 com outros países, assim como o Programa Comum das Nações Unidas sobre o HIV/Aids (ONUSIDA), o Fundo Mundial da Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária (The Global Fund) e a Aliança Global pelas Vacinas e pela Imunização (Gavi), são evidentemente bem-vindos. As inquietudes ocidentais não são sanitárias, mas políticas, notadamente as relacionadas com a vontade da China de utilizar seu peso econômico e sua diplomacia a fim de aumentar sua influência. Vê-se isso principalmente na ajuda entregue recentemente aos 54 países africanos, por exemplo. Essa ajuda é uma boa coisa, evidentemente, mas a divulgação sobre ela é considerável, principalmente nas redes sociais. E aí, entre os elementos de linguagem dos diplomatas e da mídia chinesa, podemos notar numerosas referências a uma suposta superioridade do modelo de governança chinês e uma crítica ao modelo de governança democrático. É esse aspecto que preocupa muitos diplomatas, pois o objetivo é moldar a opinião pública desses países em relação à China em detrimento dos países ocidentais.

A eleição de Tedros Adhanom em vez do britânico David Nabarro para a OMS simboliza a influência da China? Trump teria razão em acusar a organização?

Como todos os países, a China procura aumentar a sua influência no seio de organizações internacionais a fim de defender melhor seus interesses. A influência crescente dela nas organizações internacionais se traduz pelo aumento de suas contribuições financeiras à ONU (o país é o segundo maior contribuinte atrás dos Estados Unidos e na frente do Japão), mas também pela nomeação de diplomatas chineses para postos-chave, como Qu Dongyu, eleito para dirigir a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) contra a candidatura francesa. A China procura notadamente convencer os países em desenvolvimento de que ela é um porta-voz indispensável em face dos países desenvolvidos. Nós vimos isso claramente quando da eleição para a direção da OMS do etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus no lugar do britânico David Nabarro e da paquistanesa Sania Nishtar, em 2017.  O antigo ministro da Saúde e das Relações Exteriores da Etiópia é frequentemente apresentado como alguém próximo à China, mas é necessário não ceder ao comodismo de imaginar que ele seria completamente dependente desse país. Como em todas as organizações internacionais , há na OMS uma luta por influência política e é por demais lógico que a China esteja tentando influenciar a organização.  Mas a verdadeira questão é outra: é a da transparência da China em relação à OMS e, principalmente, saber se o país transmitiu a tempo à organização as informações que estavam a sua disposição com relação à epidemia. Ora, se um primeiro caso foi declarado à OMS no dia 31 de dezembro, parece que os primeiros casos teriam aparecido muito antes. Assim como se no dia 20 de janeiro o pneumologista Zhong Nashan anunciava uma muito provável transmissão entre humanos do vírus, as autoridades chinesas pareciam estar persuadidas disso desde o dia 14 de janeiro ou antes ainda. É fácil querer jogar a culpa na OMS. Mas como toda organização internacional, ela depende da contribuição e colaboração de seus membros. Se um país decide não compartilhar informações com a OMS, é difícil obrigá-lo a isso. Se a OMS não teve acesso à região de Wuhan antes do fim de janeiro, apesar dos pedidos, ela não é mais responsável, mas, sim a China que lhe recusou o acesso.

O senhor disse que a China aumentou sua capacidade de produção de equipamentos médicos de proteção, de máscaras, e de respiradores, dos quais os outros países, que já dependiam da produção chinesa, têm uma necessidade cruel. O senhor também mostrou que, levando sua ajuda técnica, a China procura convencer seus parceiros de seus exemplo e, assim, fazer esquecer seus erros e responsabilidades na gestão inicial da crise. Quais devem ser as consequência para a China em razão de seu comportamento no começo da crise e quais as medidas que a comunidade internacional pode tomar para evitar que isso ocorra de novo?

Há dois aspectos importantes. O primeiro aspecto nos leva a interrogações legítimas na China e no exterior sobre a gestão inicial da epidemia e, notadamente, sobre a transparência das autoridades chinesas nas primeiras semanas da epidemia. É como reação a essas questões que a China procura impor a própria narrativa sobre os eventos minimizando suas responsabilidades, colocando toda a culpa nas autoridades locais e, fazendo esquecer a censura, edulcorar sua imagem no exterior. Não há nada de surpreendente nisso. Mas alguns diplomatas chineses querem ir mais longe propagando rumores e desinformação, o que evidencia as inquietudes do regime. O segundo aspecto importante tem relação com a cooperação internacional em matéria de saúde pública e de luta contra as epidemias. Além da tensões políticas, é indispensável ir ainda mais longe naquilo que é feito no campo dos alertas epidemiológicos e das respostas coordenadas. Vê-se, mesmo na Europa, que nos faltou inicialmente solidariedade e cooperação. Isso passa pela tomada de consciência dos dirigentes dos riscos inerentes às epidemias. Essa pandemia certamente contribuiu para isso, para a adoção de medidas ainda mais fortes em termos de cooperação. Na Europa, isso pode passar por um papel aumentado da União Europeia em matéria de cooperação sanitária com, por exemplo, a criação de um centro de gestão de crise dedicado à construção de estoques estratégicos.

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