É legítimo tirar um monstro do poder, diz professor

Para o professor Robert Leiber, da Georgetown University em Washington, os Estados Unidos não estão travando uma guerra contra o povo iraquiano, mas, isto sim, contra um tirano chamado Saddam Hussein. Leiber é professor de ciência política e relações internacionais. Tem doutorado da Harvard. Já publicou 13 livros sobre a diplomacia americana. O professor Leiber falou com o editor Tom Murphy, da Agência Estado, por telefone. AE: Existe, na sua opinião, uma justificativa legal para a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque? Leiber: Existe uma forte justificativa. Há uma base legal clara e consistente. A Resolução das Nações Unidas número 678, adotada em 1991, autoriza qualquer membro a usar força contra o Iraque. A Resolução 687, adotada apos a primeira Guerra do Golfo, requer o desarmamento do Iraque. De acordo com a Resolução 1441, Iraque já violou todas as outras 16 resoluções adotadas ao longo dos últimos 12 anos sobre armas e munições. E a resolução preve ?consequências graves? no caso de o Iraque continuar num estado de ?violação material? das ordens da ONU. De acordo com o Capítolo 7 da Carta Magna da ONU, todas as resoluções do Conselho de Segurança obrigam egualmente todos os membros. Não houve, na realidade, a necesidade de uma ?segunda resolução.? Alias, tal resolução teria sido a decima-oitava exigindo o dasarmamento do Iraque. AE: Existe alguma justificativa do ponto de vista ético? Leiber: Do ponto de vista moral, a justificativa é ainda mais forte por causa do histórico de atrocidades de Saddam Hussein. Ele já atacou cinco países vizinhos. Ele torturou seu próprio povo e, há 25 anos, tem feito a vida dos iraquianos um inferno na Terra. As provas contra ele são contundentes.AE: E em relação ao argumento de que, considerando a oposição à guerra de países como França, Alemanha e Rússia, os EUA estariam minando a ONU? Leiber: Eu inverteria sua pergunta e diria que são a França, a Alemanha e outros países que estão minando a ONU. Eles votaram a favor da resolução 1441, mas depois deram as costas na hora de implementá-la. Eles estão sendo hipócritas. Existe uma forte impressão de que eles teriam sido os transgressores no que diz respeito à ONU. AE: Mas os EUA não estariam minando a ONU como instituição? Leiber: A ONU é fraca, mas importante. Se ela não existisse, teríamos de criá-la. O problema é que quando surgem questões cruciais de vida e morte, a ONU é incapaz de agir. Nós vimos isto antes em Kosovo e Ruanda, onde milhares de pessoas morreram. Se os EUA retomassem a sua política isolacionista da década de 1930, como alguns, mesmo da direita, têm defendido, o mundo acabaria se tornando mais violento e instável. O que os ataques de 11 de setembro (de 2001) nos ensinaram é que ainda existem monstros nos mundo. Existem também armas de destruição em massa. Quando há uma combinação destas duas coisas, o mundo torna-se mais perigoso. AE: E a opinião pública mundial? Há países como a Grã-Bretanha e Espanha que apóiam os EUA no Conselho de Segurança, mas as populações de ambos os países fazem forte oposição à guerra. Leiber: Nestes casos, os governos estão agindo dentro de uma estrutura constitucional. Não existe lei que diga que um governo deva sempre seguir as pesquisas de opinião pública antes de tomar uma decisão. Os governos só prestam contas ao povo nas eleições, mas, em outras épocas, os governantes têm de usar o bom senso. Existe também uma questão relacionada à mídia. Muitos jornalistas têm inclinação esquerdista. Nos EUA, os jornalistas freqüentemente reagem ao presidente Bush e a seu governo de acordo com suas orientações políticas. Uma pesquisa de 1998 revelou que entre sete e oito de cada dez jornalistas votaram a favor dos democratas. Além disso, eu devo acrescentar que a opinião pública mundial pode mudar muito rápido assim que as primeiras cidades iraquianas forem libertadas. Eu acho que veremos imagens na TV de iraquianos abraçando soldados americanos. Vamos também ouvir relatos tocantes sobre os 25 anos de opressão sob o regime de Saddam.AE: O presidente Bush usa o argumento do ?ataque preventivo? para justificar a guerra. Isto não geraria ceticismo, e até mesmo cinismo, sobre as verdadeiras motivações dos EUA? Isto não cria um precedente perigoso?Leiber: Não é um precedente perigoso. Nós vivemos em um mundo pós 11 de setembro. Nós não podemos nos dar ao luxo de esperar que alguém como Saddam use suas armas de destruição em massa contra nós. Saddam Hussein está determinado a obter armas nucleares. Ele tem tudo para isso, menos uma quantidade suficiente de material radioativo, que não seria muito maior que uma laranja. É só uma questão de tempo. O ódio que ele alimenta pelos EUA é obsessivo. Embora não hajam indícios concretos sobre a participação do Iraque nos eventos de 11 de setembro, é melhor enfrentar Saddam agora do que esperar que ele obtenha mais armas de destruição em massa. Interessa ao mundo que isso seja feito.AE: Como O Sr. prevê que será a guerra? Será curta e vitoriosa para os EUA? Ou existem riscos de complicação, como o uso pelo Iraque de armas de destruição em massa?Leiber: Nunca se deve olhar uma guerra com arrogância. Sempre há conseqüências imprevisíveis. Mas não havia nenhuma outra alternativa à guerra. Seria preciso muita boa vontade para achar que havia alguma outra saída. Mas há motivos para sermos otimistas. Os EUA são mais poderosos, militarmente, do que eram há 12 anos e Saddam está enfraquecido. Existem indícios de que muitos soldados iraquianos irão se entregar. O povo do Iraque odeia Saddam Hussein. AE: Durante a guerra do Vietnã, houve um intenso movimento pacifista nos EUA. Importantes membros do Congresso faziam parte do movimento e milhões de pessoas saíram às ruas para protestar contra a guerra. Desta vez, o movimento pacifista parece menor, mais fraco e disperso. Por quê a diferença?Leiber: Isto não é o Vietnã. Seria simplista e irrelevante comparar o que está acontecendo hoje com o Vietnã. Os americanos entendem os motivos de se apoiar uma guerra contra um regime fascista, um regime que estupra mulheres, tortura crianças e usa gás venenoso contra o seu próprio povo. Saddam é uma figura completamente diabólica. Para entender Saddam, é necessário um psicanalista, e não um especialista em relações internacionais. Os americanos também entendem que tentar usar uma política de contenção contra Saddam seria pura fantasia.AE: Cerca de dois terços da população americana apóiam a guerra, enquanto na Europa a oposição à guerra tem sido mais ou menos na mesma proporção. A que você atribui esta discrepância? Leiber: A muitas coisas. Uma delas seriam as reportagens distorcidas que saem na mídia. Muitos europeus não têm consciência do mal que o atual regime de Saddam causa ao povo iraquiano. Além disso, é lógico, existe um certo ressentimento contra o poderio americano. Se tudo der certo no campo de batalha, eu acho que veremos uma grande mudança na opinião pública, inclusive na Europa. Veja o especial :

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