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E-mails hackeados revelam método de arredação de Macron

Trocas de mensagens mostram que equipe levantou € 15 milhões com técnicas de uma startup e dentro do limite

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2017 | 20h10

No dia 5, três horas e meia antes do término oficial da campanha eleitoral na França, 15 gigabytes de informações contidas em caixas postais do movimento En Marche!, do então candidato à presidência Emmanuel Macron, foram roubadas por hackers e publicadas em redes sociais por grupos de extrema direita situados nos EUA. 

Por ora, não foi encontrado nada de ilegal nas atividades da legenda, mas as trocas de mensagens mostram uma máquina de arrecadação que levantou € 15 milhões com técnicas típicas de uma startup e uma rede de doadores privados, boa parte deles ligada ao sistema financeiro.

O chamado #Macronleaks teve origem a partir da invasão e do roubo de informações de cinco caixas postais eletrônicas de membros do movimento criado por Macron. Durante meses o partido disse ter sido assediado por hackers, que acabaram fracassando. Mas no último dia da campanha o esquema de segurança montado pelos peritos de informática da legenda – que compreendia caixas de e-mail falsas, para despistar hackers – sucumbiu a um ataque. 

Horas depois, dezenas de milhares de mensagens, muitas das quais com documentos e planilhas de financiamento, vieram a público em uma rede social, achan, depositadas por um usuário anônimo. 

O ataque informático foi logo interpretado pela imprensa da França como uma tentativa de último minuto de repetir o efeito devastador do vazamento de e-mails na campanha do Partido Democrata, que levou à derrota de Hillary Clinton nos EUA em 2016.

Então a imprensa da França decidiu respeitar a legislação eleitoral e não entrar no tema no período de quarentena até o fechamento das urnas, às 20 horas de domingo. 

Passada a eleição e a vitória de Macron, duas equipes de reportagens dos jornais Le Monde e Libération vêm publicando suas primeiras conclusões a respeito do conteúdo. 

Entre as mensagens, há muito lixo eletrônico, como propagandas e newsletters, e mensagens de caráter privado. Nos e-mails de caráter profissional, pirateados sobretudo das caixas postais de Cédric O, tesoureiro da legenda, e Christian Dargnat, responsável pelo levantamento de recursos, nenhum dos dois diários encontrou, ainda, indícios de ilegalidades no financiamento do partido, criado há 13 meses. 

Os e-mails revelam que o limite estabelecido pela legislação eleitoral, de um máximo de € 7,5 mil por doador privado, teria sido respeitado. As planilhas indicam que mais de 30 pessoas aderiram a esse volume de doação, incluindo empresários, mecenas e parentes de políticos envolvidos no projeto En Marche!. “Os e-mails entre diferentes membros da equipe mostram vontade de respeitar estritamente a legislação sobre o financiamento dos partidos”, descreve o jornal Libération.

Embora até aqui não revelem ilegalidades, os e-mails mostram uma prática de arrecadação de fundos ostensiva, com organização de reuniões com o propósito de obter financiamento, e uma relação muito próxima entre Macron e o meio financeiro francês – ele havia sido banqueiro no banco de investimentos Rothschild.

Quando Macron ainda era ministro da Economia e não havia anunciado sua candidatura ao Palácio do Eliseu, o partido já havia € 230 mil em doações. Ao final, 78 doadores forneceram entre € 4 mil e € 7,5 mil à formação política.

Nos e-mails, os responsáveis organizam agendas de potenciais doadores e estabelecem estimativas de “taxa de conversão”. Nos e-mails, há referências como: “Potencial máximo de doações: € 225 mil. Probabilidade de doações: 60%. Montante previsível: € 135 mil”. Dessa forma, 1,7% dos doadores foi responsável por 45% de todos os recursos reunidos pelo partido.

Com a prática de arrecadação privada – o partido ainda não tinha direito a fundos públicos por não dispor de bancada na Assembleia Nacional –, En Marche conseguiu reunir em seu primeiro ano de atividades € 15 milhões, apenas € 3 milhões a menos do que o recebido pelo partido Republicanos, o segundo com maior bancada na câmara. 

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