AFP PHOTO / GUILLERMO LEGARIA
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'É melhor uma paz imperfeita do que uma guerra perfeita'

Presidente da Colômbia diz 'ter certeza' de que o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia será aprovado no plebiscito do dia 2 de outubro; ele negou que tenha como meta o prêmio Nobel da paz e descartou ter 'ambição internacional' para 2018, quando deixar o governo

Entrevista com

Juan Manuel Santos

Alina Dieste / France-Presse, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2016 | 13h48

Após 52 anos de conflito com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, gostaria de ver na prisão os guerrilheiros responsáveis por "crimes atrozes", mas está 100% convencido de que "sempre é melhor uma paz imperfeita do que uma guerra perfeita".

Em entrevista à AFP na segunda-feira, 5, Santos confessou que demorou a assimilar finalmente que um acordo de paz com as Farc foi alcançado, após árduas negociações iniciadas em 2012 em Cuba. E foram as vítimas da guerra interna - quase oito milhões de colombianos - que deram uma "grande lição de vida" e o estimularam a perseverar no diálogo.

Santos negou que com o pacto a Colômbia se torna um país "castrochavista", como afirmam seus principais opositores, os ex-presidentes Álvaro Uribe (2002-2010) e Andrés Pastrana (1998-2002). Também disse que "depende do ELN" (Exército de Libertação Nacional, segunda guerrilha na ativa) instalar uma mesa formal de diálogo antes do plebiscito de 2 de outubro, no qual os colombianos votarão "Sim" ou "Não" para o acordo com as Farc.

O líder colombiano negou ainda ter iniciado o árduo processo de negociação com os guerrilheiros das Farc com o prestigioso prêmio de Nobel da paz como meta. Santos também negou ter uma "ambição internacional" para 2018, quando vai deixar o governo e, disse, encerrar sua carreira política.

- Como ficou a par da conclusão do acordo com as Farc?

Estava em meu gabinete, pendente dos avanços. Às 18h45 a chanceler (María Ángela Holguín) me ligou de Havana. Ela disse: "Presidente, finalmente fechamos". Respirei fundo e comecei a pensar em tudo o que fizemos em tantos anos. Disse: "Por fim, que maravilha!". Demorei um pouco a assimilar o que havia acontecido, mas, com certeza, estava muito feliz. Muitas coisas me passaram pela mente, como nos filmes que vão a mil por hora. Muitas figuras, muitas, mas sobretudo um descanso. Finalmente, algo que muitas pessoas pensavam que era impossível, eu mesmo pensei muitas vezes que não seria possível, ter alcançado foi muito satisfatório. Ter conseguido perseverar foi muito importante.

- Gostaria de ver presos os guerrilheiros?

Certamente eu gostar de ver atrás das grades todos os que cometeram crimes atrozes. Mas prefiro a justiça transicional para que não sigamos produzindo mais vítimas. Esta transação não é fácil de aceitar para muitas pessoas, mas é necessária se queremos a paz. Pensei que as vítimas seriam as mais duras, porque foram as que mais sofreram. Me demonstraram como eu estava equivocado. As mais generosas, as que mais me respaldaram as que mais disseram 'Presidente, persevere, não desista", foram as vítimas. Isto foi uma grande, grande lição de vida.

- O historiador britânico Malcolm Deas disse que Uribe oferece a paz que os colombianos querem e não podem ter e o senhor a paz que não querem, mas podem ter. Concorda com ele?

Em 100%. A paz perfeita não existe, porque a paz perfeita implica a justiça perfeita e a justiça perfeita torna impossível a paz. É uma paz imperfeita, mas sempre, sempre é melhor uma paz imperfeita que uma guerra perfeita.

- Você disse que depois que os colombianos vissem que finalmente um acordo havia sido alcançado, o aprovariam mesmo que não fosse perfeito. Continua pensando da mesma forma?

Sim, estou certo de que os colombianos estão começando a ver o que realmente foi negociado e estão dizendo: "Isso eu compro". Houve tanta desinformação nestes últimos quatro anos que há muitos colombianos confusos. Mas você está vendo as últimas pesquisas e os colombianos se inclinam cada vez mais em direção à aprovação, em direção ao "Sim", em vez do "Não".

- Teme o fantasma do Brexit?

Não acredito que neste caso isso se apresente. Os colombianos estão muito chateados com esta violência, com esta guerra. Demoramos três gerações. Alguém disse que perdemos inclusive a compaixão, a capacidade de sentir a dor alheia. E isso, em certa medida, é verdade. Por isso vão dizer que, embora seja uma paz imperfeita, cumpre com todos os requisitos mínimos, os padrões internacionais, os nacionais, e vamos aprová-lo.

- Mas se o "Não" ganhar a guerra voltará?

Se o "Não" vencer, voltamos ao que tínhamos há seis anos, quando começamos.

- Não considera isso improvável após as negociações em Cuba?

O que acontece é que o "Não" não vai vencer. O "Sim" vai ganhar. Tenha total certeza disso, estou convencido, e por isso não estou preocupado com o que alguns chamam de Plano B. Eu estou absolutamente convencido. E não assumiria um risco como esse, porque não sou obrigado a assumir este risco. Eu poderia ter negociado isso sem referendar, mas referendar é algo democrático, legitima muito mais um acordo desta natureza. Por isso insisti muito no plebiscito.

- A legitimação ajuda na implantação do acordo?

A implementação depende do plebiscito. O ato legislativo que o Congresso aprovou, que estabelece procedimentos para a implementação, diz especificamente que tudo dispara, começa, quando os acordos forem confirmados mediante o plebiscito.

- Os Estados Unidos estiveram muito próximos da Colômbia nos últimos 15 anos. Quem é o candidato presidencial que pode ajudar mais a implementar a paz?

Pela minha experiência, tanto Bill Clinton quanto Hillary foram grandes aliados da Colômbia. Foi Clinton que iniciou o Plano Colômbia, que foi muito útil para alcançar o que alcançamos. Hillary também apoiou muito estas negociações quando trabalhou como secretária de Estado. Conheço os dois e os dois são muito amigos da Colômbia. Não conheço Trump e as políticas de Trump não estão muito em conformidade com o que a Colômbia quer dos Estados Unidos, e com o que a Colômbia quis do mundo inteiro: livre comércio, políticas de imigração que sejam convenientes para todos os países. Neste sentido, pelo que conheço, a candidata Hillary Clinton oferece mais garantias.

- O senhor lutou muito contra as Farc como ministro da Defesa de Uribe. Por quê passou de falcão para pomba?

Nunca fui falcão nem pomba. Sempre fui um defensor da paz. E para que esta paz fosse possível era necessário negociar a partir de uma posição de força. Fiz as pazes com (o falecido presidente venezuelano Hugo) Chávez, meu grande inimigo, não porque concordasse com ele, e sim porque desejava que a região apoiasse este processo. Não existe, acredito, um colombiano que tenha golpeado tanto as Farc como este servidor. E isso também me dá autoridade moral ante aqueles que não queriam a negociação. Envolvi os militares desde o início no processo de paz e, de bom grado, participaram. Isto é um aspecto chave.

- E por quê se opõem Uribe e Pastrana?

Não entendo. Buscaram a paz desesperadamente. O que faz com que duas pessoas que foram os piores inimigos agora estejam juntas? Será ódio, inveja? É uma força muito poderosa. Oxalá reflitam, a porta está aberta, sempre serão bem-vindos. Seria bom que pudéssemos entre todos construir esta paz que o país necessita!

- A Colômbia se tornará um país "castrochavista"?

Me acusam de neoliberal, de ser da oligarquia, de direita. Sou do extremo centro e, se me diferencio de algum modelo, é do modelo de Chávez. Eu disse a ele quando fizemos as pazes: "Você tem o seu modelo, eu tenho o meu (...) Vamos lutar com resultados". E aí estão os resultados: olhe como está a Venezuela e olhe como está a Colômbia. O que existe no acordo com as Farc que faz com que pensem que estamos semeando algo do modelo castrochavista? Absolutamente nada.

- É possível instalar o diálogo com o ELN antes do plebiscito?

Isto depende do ELN. Enviaram sinais neste sentido e eu afirmo: "Perfeito, libertem os sequestrados".

- O que pensa de seguir os passos de Nelson Mandela, o herói da luta anti-apartheid na África do Sul que venceu o Nobel da Paz em 1993?

Eu nunca trabalhei pela paz por prêmios. Para mim o verdadeiro prêmio será quando o plebiscito for vencido e quando veremos o início da reconciliação dos colombianos. Se eu quisesse os aplausos da opinião pública não teria entrado no processo de paz. Tem sido muito caro, politicamente. Eu acredito na liderança que faz o correto e não que é popular. Os prêmios são totalmente secundários. Não busco aplausos. Quero fazer o correto.

- O que pensa para 2018? Descansar em sua propriedade de Anapoima, comer mangas e brincar com os netos?

Assim é. Tenho uma filha que casou recentemente. Espero ter netos. Com minha senhora (María Clemencia Rodríguez) afirmamos que cumprimos com a tarefa. Não quero virar prisioneiro do poder. Pelo contrário. No ano de 2018 termino minha carreira política. Se alguém me contratar, posso ser um bom professor em uma universidade ou colégio. Dedicar-me a escrever e a descansar.

- Se o acordo com as Farc for aprovado no plebiscito de 2 de outubro e seu sucessor pedir ajuda para implementar a paz, fará isto?

O próximo presidente, não importa quem seja, terá muitos assessores. Se me procurar urgentemente para algo muito importante, você não pode negar, mas a princípio vou dizer que procure outras pessoas que podem fazê-lo inclusive melhor que eu.

- Não o veremos na ONU?

Não tenho esta ambição internacional.

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