Argentinian Presidency / AFP
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'É muito difícil que Brasil e Argentina se distanciem', diz analista

Para Marcos Fávaro, gesto de reaproximação indica disposição das duas nações em deixar de lado diferenças ideológicas em período de crise

Entrevista com

Marcos Fávaro, doutor em integração da América Latina pela USP e professor de relações internacionais

Paulo Beraldo e Levy Teles, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 16h00

O presidente Jair Bolsonaro e o seu colega Alberto Fernández fizeram sua primeira reunião nesta semana em uma relação marcada desde o início por troca de críticas dos dois lados. Na avaliação de Marcos Fávaro, doutor em integração da América Latina pela USP e professor de relações internacionais da Universidade Paulista, o encontro é positivo ao sinalizar um gesto de reaproximação e indica que os dois países querem deixar de lado as diferença para valorizar a relação histórica.

"Os argentinos nos observam com cuidado, dão muita importância para as relações com o Brasil e tiveram a sabedoria de ver que governos passam e os Estados ficam", avalia Fávaro.

Ainda durante a campanha presidencial na Argentina em 2019, Fernández chamou Bolsonaro de “racista, misógino e violento”. O ataque foi um revide após o presidente dizer que “o Rio Grande do Sul pode virar um Estado como Roraima”, se a esquerda triunfasse nas eleições vizinhas. 

À época ainda candidato, Fernández garantiu que a relação com o principal parceiro econômico não seria afetada. “Bolsonaro é uma conjuntura na vida do Brasil, como Macri é uma conjuntura na vida da Argentina”, afirmou. A confirmação da vitória do kirchnerista na Argentina piorou a situação. O brasileiro afirmou que não o cumprimentaria pela vitória, após Fernández aparecer em foto fazendo o gesto de Lula livre. 

Durante os meses seguintes, sinais de um possível esfriamento apareceram. O primeiro encontro foi marcado para março deste ano, na posse do presidente uruguaio Lacalle Pou, mas acabou cancelado pela ausência de Fernández na cerimônia. 

O Estadão mostrou no domingo que a pandemia e a consequente desaceleração econômica no país, que causou a maior saída de empresas multinacionais da Argentina desde a crise de 2002, fizeram o presidente argentino moderar seu discurso e começar a se afastar da cartilha de Cristina Kirchner, para tentar salvar a economia.    

Qual o significado desse primeiro encontro virtual entre Jair Bolsonaro e Alberto Fernández?

É positivo. É muito difícil que Brasil e Argentina se distanciem, dada a evolução dos acontecimentos em tempos recentes e nos últimos 30 anos. É fundamental retomar e valorizar nossas conquistas com a Argentina por vários motivos. Existem muitos motivos econômicos para isso. Os números das indústrias dos dois países caíram nos últimos anos, e manter a escala dos mercados em um processo de integração é fundamental. A cooperação científica também, como no caso da crise sanitária que atravessamos. São duas sociedades que, de maneiras diferentes têm muita força, muita energia, e seria muito interessante continuar somando para as duas sociedades prosperem juntas. Vejo que agora as relações Brasil-Argentina não vão se aprofundar, mas vão retomar o seu modus operandi. 

Como viu a relação Brasil-Argentina nos últimos anos?

Desde a era Temer (2016-2018) até a era Bolsonaro, houve um distanciamento. No documento Uma Ponte Para O Futuro, plano de governo de Temer, há uma certa indiferença às relações de Brasil-Argentina. E isso se aprofunda com Bolsonaro pela lamentável frase do Paulo Guedes de que o Mercosul não era prioridade. O Brasil tem que gostar do Mercosul e, para isso, a Argentina é fundamental. O Mercosul é um das poucas plataformas em que o Brasil pode vender produtos industrializados, que não são a maioria na nossa pauta de exportação. O comportamento de Bolsonaro ao longo dos últimos meses também não foi bom. 

O que motivou o lado argentino a fazer esse gesto de aproximação? 

Os argentinos foram sábios porque a situação poderia piorar. Eles nos observam com cuidado, dão muita importância para as relações com o Brasil e tiveram a sabedoria de ver que governos passam e os Estados ficam. E, claro, tem também a ver com a economia. O sentimento antibrasileiro é residual na Argentina. Pela nossa importância, pelo nosso tamanho, pela nossa projeção mundial, não é vantagem se afastar do Brasil ou gerar atrito, e as últimas décadas mostraram esse caminho para a Argentina. Quando o Mercosul foi fundado, falou-se que, para o Brasil, era bom negócio mas, para a Argentina, era um excelente negócio. Há essa consciência consolidada.

Historicamente, qual a importância para ambos os países dessa relação próxima? 

O Mercosul é o principal exemplo. A história começa com a Guerra das Malvinas, quando começa a se encerrar um paradigma de conflito de Brasil e Argentina de longa duração. O Mercosul começou com um acordo bilateral entre Brasil e Argentina. Para a Argentina foi muito bem vindo, por que tirou ela da situação de isolamento. É um marco da nossa história e muda nosso registro das relações exteriores com aquele país. 

Temos parcerias importantes no campo militar, desenvolvemos equipamentos juntos, a Marinha da Argentina faz manutenção de seus equipamentos em nossos estaleiros. As últimas décadas mostram que há vários pontos em que a cooperação é possível. Mas o principal acontecimento que os países devem respeitar, cultuar e deve ser mais debatido pela sociedade civil são as origens e a importância do Mercosul para a integração regional e inserção comercial. 

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