Lourival Sant'Anna/AE
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'É muito difícil um grupo radical tomar o poder no país', diz oposicionista

Louay Hussein, presidente do Partido Construindo o Estado Sírio, esteve preso durante 7 anos na década de 1980

Lourival Sant'Anna, enviado especial a Damasco, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2012 | 03h03

Com a evolução do conflito na Síria, tem havido um alinhamento entre sunitas, de um lado, e cristãos e alauitas - a seita do presidente Bashar Assad -, de outro. Louay Hussein, no entanto, presidente do Partido Construindo o Estado Sírio, criado em setembro, um dos oposicionistas mais conhecidos no país, é alauita.

 

Hussein, de 51 anos, que se mantém distante do Conselho Nacional Sírio (CNS), a oposição no exílio, da qual participa a Irmandade Muçulmana, nega a possibilidade de um grupo sunita radical tomar o poder na Síria. Preso durante 7 anos na década de 80, articulista de política em jornais libaneses, Hussein propõe uma transição para a democracia com a participação do presidente e dos oposicionistas, e sem intervenção estrangeira.

 

Ele concedeu a seguinte entrevista ao Estado na sede de seu partido em Damasco, onde militantes, visivelmente de classe média, preparavam para hoje o seu primeiro ato com o Comitê de Coordenação Nacional (CCN), que reúne outros grupos de oposição dentro da Síria.

 

Estado: O cessar-fogo muda alguma coisa?

 

Louay Hussein: Certamente, porque uma parte dos oposicionistas voltou a se manifestar pacificamente.

 

Estado: É possível alguma forma de negociação com esse regime?

Louay Hussein: Estamos num processo de negociação indireta, por meio da missão de Kofi Annan. Por isso, pedimos ao regime para observar o cessar-fogo e retirar as tropas das ruas, e pedimos a outros grupos que também obedeçam esse cessar-fogo.

Estado: Quais as diferenças entre seu grupo e o CNS e o CCN?

Louay Hussein: Estamos num processo de luta contra o regime, dentro da Síria, enquanto que outros grupos estão esperando para entrar na luta após o regime cair. Podemos atuar em conjunto com o CCN muito mais do que com o CNS, porque eles (o Comitê de Coordenação Nacional) também estão dentro da Síria e temos a mesma perspectiva.

Estado: Alguns dizem que o CNS é dominado por sunitas radicais. O sr. concorda com isso?

Louay Hussein: Não é segredo para ninguém que a Irmandade Muçulmana é um dos grupos mais fortes no Conselho.

Estado: Há risco de o país cair nas mãos de um grupo sunita radical?

Louay Hussein: Levando em conta o mosaico de seitas e etnias da Síria, é muito difícil um grupo islâmico reunir força suficiente para tomar o poder no país.

Estado: Qual o peso da religião nesse conflito, considerando que a maioria dos alauitas e cristãos apoia o regime?

Louay Hussein: Definitivamente, ela tem um papel. Muitas pessoas acreditam que os sunitas em especial eram injustiçados. Antes da rebelião, a parcela de alauitas na oposição era bem maior que a de sunitas. Tanto que a maioria dos oposicionistas conhecidos é alauita.

Estado: Qual sua proposta de transição democrática?

Louay Hussein: Queremos que uma coalizão conduza o país à democracia. Mas essa é uma tarefa difícil agora. Definitivamente, a transição deve ser compartilhada com o regime. Não que deva ser conduzida por Bashar Assad. O regime será parte, não líder da coalizão.

Estado: O sr. é contra a intervenção externa?

Louay Hussein: Claro, tanto militar quanto política, no sentido de que eles desenhem o modelo do novo regime.

Estado: O que acha da posição do Brasil?

Louay Hussein: Tivemos uma reunião muito boa com o embaixador do Brasil (Edgard Casciano). Ele entendeu bem nossa posição como partido oposicionista, embora, como você sabe, o Brasil seja parte do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que apoia esse regime.

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