EFE/Alexei Druzhinin
EFE/Alexei Druzhinin

‘É o pior momento desde a Crise dos Mísseis’, diz especialista em Rússia e EUA

Para professor russo, cenário é imprevisível e questões domésticas, em ambos os países, aumentam as chances de conflito

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2018 | 05h30

A tensão atual entre EUA e Rússia é a pior desde que os dois países ficaram à beira de uma guerra nuclear na Crise dos Mísseis de 1962, diz o professor Ivan Kurilla, especialista na relação entre americanos e russos da Universidade Europeia, em São Petersburgo, na Rússia. Em sua opinião, a situação atual é mais imprevisível que o período da Guerra Fria, posterior ao conflito de 1962.

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Para ele, o cenário doméstico de ambos os lados aumenta a possibilidade de agravamento do conflito, ainda que não acredite em uma guerra aberta. “Quando o presidente Trump está sob pressão das elites políticas americanas, isso o torna mais imprevisível.” Putin também age com um olho no seu público interno. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado. 

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O presidente Trump disse que as relações entre EUA e Rússia estão no pior patamar desde a Guerra Fria. O sr. concorda? 

Nós não temos os blocos militares e a competição ideológica de antes. Na Guerra Fria, o mundo era dividido quase igualmente entre o bloco ocidental e o bloco oriental. E havia duas grandes máquinas militares. Agora, temos apenas a Rússia, que tenta desafiar todo o mundo, o que não parece colocar o perigo estratégico real de uma guerra mundial. A situação é mais semelhante à dos anos 20. Depois da Revolução Comunista de 1917, houve um período de quase dez anos em que a Rússia soviética não foi reconhecida diplomaticamente pelo Ocidente. Foi um período em que os governos ocidentais não tinham políticas para lidar com esse adversário novo, ambicioso, que havia quebrado todas as regras.

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O que estamos vendo é mais imprevisível que a Guerra Fria?

Sim e essa é a pior característica da situação atual. Com certeza é mais imprevisível do que o período posterior à Crise dos Mísseis, em 1962. Depois dela, os dois países tentaram conter a agressividade mútua. A situação atual é como o “jogo da galinha” (no qual ambos os jogadores avançam na direção do outro e o que desvia perde; se nenhum desviar, os dois perdem). É muito ruim para as relações internacionais. A situação atual não é tão ruim quanto a Crise dos Mísseis, mas é a pior desde então.

Qual é o risco de confronto entre EUA e Rússia na Síria?

O risco existe. Eu espero, como todo mundo, que não haja confronto militar real. A pior coisa que pode acontecer é o disparo de mísseis pelos Estados Unidos na Síria e sua interceptação pela Rússia. Mas não espero uma guerra aberta. Eu cresci no fim da Guerra Fria e não creio que uma guerra entre Rússia e Estados Unidos seja possível. Um grande confronto entre os dois países será nuclear e todo mundo cresceu com o temor da guerra nuclear. Ninguém quer isso. 

Qual o impacto da personalidade de Trump sobre a imprevisibilidade atual?

Quando o presidente Trump está sob pressão das elites políticas americanas, isso o torna mais imprevisível. Parte da elite política dos EUA continua a usar a chamada interferência da Rússia nas eleições e as conexões de Trump com a Rússia para limitar sua habilidade de definir sua própria política externa. Não me refiro apenas à imprevisibilidade de Trump como pessoa, mas ao fato de que seu embate contra grande parte das elites americanas torna a política externa dos EUA muito mais imprevisível. Do lado russo, também há fatores domésticos, especialmente desde a recente reeleição do presidente Putin. Nos dois casos, questões domésticas jogam um papel muito mais importante do que o que está acontecendo na Síria. Claro que a Síria cria o pretexto para um conflito, mas a escalada foi provocada não pela Síria, mas foi provocada pela construção da imagem do inimigo, tanto nos EUA quanto na Rússia. 

Se os EUA atacarem a Síria, a Rússia vai responder?

Não tenho como prever. Mas Putin repetiu, nas entrevistas que concedeu depois de sua reeleição, que ele não gosta de fazer concessões. A ideia é que qualquer concessão leva à derrota. Por isso, é difícil esperar que ele faça concessões, a menos que haja uma maneira de permitir que ele saia da situação com dignidade.

Qual o grau de preocupação dos russos com essa crise?

As pessoas estão muito preocupadas, a julgar pelo que eu vejo nas mídias sociais. Hoje é o segundo dia seguido em que a possibilidade de um confronto entre a Rússia e os EUA é o principal tópico na internet. De 80% a 90% dos comentários no Facebook russo e em outras mídias falam sobre o assunto. É algo que todo mundo está discutindo. Ninguém quer uma guerra.

 

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