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É possível isolar Putin?

Há 70 anos, era erradicado o maior flagelo dos tempos modernos. A Alemanha nazista, esgotada por mortes, sangue e ódio, estava aniquilada. No dia 8, Europa e EUA comemoraram a libertação. A Rússia também, mas no dia seguinte, com uma parada militar.

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2015 | 03h07

Potências ocidentais não participaram da festividade de Moscou. O presidente francês, François Hollande, não foi à Rússia. Paris limitou-se a delegar a tarefa ao ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, mas ele não assistiu ao desfile militar. Os outros países ocidentais, europeus e americanos, estiveram igualmente ausentes do evento.

Era preciso mostrar a Vladimir Putin que ele não está agradando. Esse russo é insuportável. Não gosta da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Detesta a União Europeia e a chantageia com seu gás, além de fomentar uma espécie de guerra contra a Ucrânia. Foi punido. 

Esse comportamento será justo e razoável? As opiniões a respeito estão muito divididas. Em Le Figaro, os pontos de vista variam. O historiador Pierre Rigoulot, que foi stalinista até 1967, antes de se tornar inimigo do stalinismo, acha normal que as cerimônias de Moscou sejam ignoradas.

Lembrando os massacres de Katyn, o pacto germânico-soviético de 1939, os milhões de mortos do Gulag, ele se recusa a celebrar o Exército Vermelho porque, na sua opinião, em maio de 1945, “no momento em que se abriram as portas da nossa prisão, povos da Europa Central apenas mudaram de algoz”.

No mesmo jornal, Gérard Longuet, que faz parte da ala mais dura da “direita republicana” francesa (UMP), assinou, em nome dos 60 deputados de direita, um apelo rigorosamente contrário. “No dia 9 de maio, Hollande deveria estar em Moscou. Não podemos esquecer do martírio do povo russo. As aldeias incendiadas, a resistência dizimada marcaram uma geração de combatentes e resistentes irmanados por sofrimentos e por lembranças que nada poderá fazer esquecer.”

Mais adiante: “O soldado Ryan, vindo do outro lado do Atlântico, não foi esquecido nas comemorações de junho na Normandia. A memória do soldado valoroso e de seus camaradas soviéticos não deve passar em silêncio. Não se trata de fazer ode aos comunistas, mas de prestar homenagem ao povo russo e seus 21 milhões de mortos”.

Também no Figaro, o historiador Hervé Juvin, homem de centro, criticou Hollande, mas por motivos políticos. “Dizem que Putin e a Rússia ficarão isolados. Mas o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, assistiram ao desfile. Eles representam 2,5 bilhões de pessoas.”

Juvin indagou: “A tendência cega da União Europeia a aderir às ideias dos EUA acaso não nos isolará do mundo? Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, na Europa teria sido possível uma nova organização com a Rússia. Mas a Europa jamais foi o Cavalo de Troia da Otan. A Otan perdeu a razão de ser com o fim da URSS”.

O historiador apontou, então, os erros que o Ocidente foi acumulando em seguida. “O grande jogo que recomeçou, da instalação de um ‘Estado mafioso’, Kosovo, às portas da Europa, até o golpe de Estado organizado na Ucrânia, levou ao espantoso renascimento de uma divisão planejada, orquestrada, do continente europeu em duas partes: O Muro de Berlim caiu. O muro do Ocidente, com o qual os interesses nacionais americanos pretendem separar a Europa Ocidental do continente euro-asiático e concluir sua ‘vassalização’ estratégica, está de pé.”

Conclusão: “O dia 9 de maio de 2015 marca uma mudança decisiva nas relações europeias. E é essa mudança que deve nos preocupar”. 

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris/Tradução de Anna Capovilla

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