Gabriela Biló/ Estadão
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É preciso cautela com a ideia de reabertura

Há um certo clima no Brasil de que é hora de retomar as atividades, porque é isso o que o mundo está fazendo, mas a reabertura ocorre em países que já enfrentaram o pico da doença

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 03h00

Há um certo clima no Brasil de que é hora de retomar as atividades, porque é isso o que o mundo está fazendo. O raciocínio ecoou na Praça dos Três Poderes, durante a missão liderada pelo presidente Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando um representante dos empresários lembrou que “a Ásia está abrindo”.

Sim. Mas a China está três meses na frente do Brasil nessa história; a Itália, dois meses; e os Estados Unidos – um exemplo a não ser seguido –, um mês. 

Como pairam muitas dúvidas acerca da transparência dos dados da China em relação ao novo coronavírus, vamos nos ater por um instante ao caso da Coreia do Sul, uma democracia avançada que se notabilizou pelo número de testes. São 10.822 casos para uma população de 52 milhões, ou seja, um para cada 4.805 habitantes. No Brasil, 145.328 casos para uma população de 209 milhões significam um para cada 1.438 habitantes. 

Com duas diferenças importantes: o Brasil testa muito menos que a Coreia do Sul. As estimativas de especialistas são que há 1,5 milhão a 2 milhões de casos no Brasil, observa Vitor Engrácia Valenti, pós-doutor em fisiopatologia pela USP e um dos autores do estudo Brasil, o Próximo Epicentro da Pandemia. 

Além disso, o Brasil está longe do seu pico. A Coreia do Sul detectou 25 novos casos na sexta-feira e adotou providências. No Brasil, foram 10.222 casos novos na sexta-feira. Nossa curva está em plena ascensão. Não há o menor sinal de que ela vá se achatar tão cedo. 

Alemanha, Itália e Espanha começaram a afrouxar as medidas, depois de meses de confinamento de suas populações, porque os novos casos diminuíram muito – graças precisamente às medidas rigorosas adotadas por seus governos, e pelo tempo suficiente. 

O governo alemão anunciou na quarta-feira que reabriria restaurantes, hotéis e lojas, e o campeonato nacional de futebol, a Bundesliga, voltaria, sem torcedores nos estádios. De lá para cá, no entanto, o número de casos voltou a subir. De quinta para sexta-feira, foram 1.268 novos registros e 117 novas mortes. Então a chanceler Angela Merkel determinou que as áreas que tiverem 50 novos casos por 100 mil habitantes voltarão ao confinamento. 

O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, ameaçou fechar o Navigli, o passeio ao longo do canal, e proibir serviços de entrega, porque as pessoas não estão obedecendo distanciamento social nem usando máscaras, ao voltarem do confinamento.

Na Espanha, mais da metade da população vai retomar atividades amanhã, mas não em Madri e Barcelona, as cidades mais afetadas. O governo nacional recusou autorização para a região de Madri afrouxar as medidas de confinamento. Barcelona reabriu praias das 6 às 10 horas da manhã para as pessoas nadarem e correrem, sob vigilância da polícia para manterem o distanciamento e usarem máscaras.

O contraexemplo são os EUA, onde 47 dos 50 Estados estão retomando parte das atividades até hoje, quando sua curva ainda está em ascensão. Christopher Murray, diretor do Instituto de Métrica de Saúde e Avaliação da Universidade de Washington, disse na sexta-feira que estava revendo as projeções de mortes, porque elas envolviam muitas cautelas que agora estão sendo abandonadas. Uma dessas projeções era de 134 mil mortes até o início de agosto.

A curva do Brasil é igual à dos EUA em números absolutos. Se você considera que a população americana é 50% maior que a do Brasil, estamos indo de forma acelerada para o topo do ranking mundial, onde estão hoje os Estados Unidos. 

Segundo um modelo matemático desenvolvido por Valenti e mais dois cientistas, o Brasil chegaria a 64 mil mortes no dia 9 de junho, se mantido o ritmo de abril. Medidas rigorosas, como distanciamento social e uso de máscaras, diminuiriam esse número para 31 mil. Ou seja, salvariam 33 mil vidas.

A paralisia econômica, assim como o confinamento, é consequência do coronavírus. Querer salvar a economia permitindo a circulação do vírus não vai dar certo.

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