É preciso dar uma chance para Chuck no Pentágono

Ex-senador é o nome ideal para o Departamento de Defesa

É COLUNISTA, ESCRITOR, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h05

Caso não tenham ouvido dizer, o presidente Barack Obama anunciou que pretende nomear o ex-senador por Nebraska, Chuck Hagel, condecorado com a insígnia militar Purple Heart, para o cargo de secretário de Defesa. O anúncio provocou um verdadeiro tiroteio verbal entre críticos e partidários de Hagel.

Sou um dos partidário do ex-senador. Acredito que ele seria um excelente secretário de Defesa exatamente porque algumas de suas posições não são convencionais. Os que se opõem, dividem-se em duas correntes: a repulsiva e a filosófica. É vital analisá-las para compreender porque, neste momento, Hagel seria a escolha mais adequada para a Defesa.

Repulsivo é o fato de Hagel ter sido acusado de odiar Israel e de ser antissemita. Certa vez, ele definiu o lobby pró-israelense como "lobby judeu" e declarou francamente que seu cargo de senador não previa que ele recebesse ordens do lobby israelense, mas sim defendesse os interesses dos EUA.

Se, em algum momento, Israel precisou de um secretário de Defesa americano empenhado em defender a sobrevivência de Israel, o momento é agora. Hagel sabe que garantir essa sobrevivência não significa que os EUA tenham de cooperar com a política insensata e autodestruidora de Israel de construir novos assentamentos na Cisjordânia e impedir a solução dos dois Estados.

Tenho a certeza de que a grande maioria dos senadores e estrategistas americanos pensa com relação a Israel exatamente como Hagel. Ou seja, que, mais do que nunca, esse país está cercado de inimigos implacáveis, precisa e merece o apoio dos EUA. Mas, ao mesmo tempo, o atual governo israelense está tão mal acostumado e pende a tal ponto para a direita que não faz o menor esforço para levar em conta os interesses americanos, freando sua aventura isolacionista dos assentamentos. Essa tendência deverá, inclusive, se agravar.

Os amigos de Israel precisam compreender que a centro-esquerda está desaparecendo em Israel. As eleições que se realizarão em janeiro conduzirão ao poder a direita israelense. São as pessoas que querem anexar a Cisjordânia. O primeiro-ministro Binyamin Bibi Netanyahu é uma "pomba" perto dessa gente.

A única coisa que se interpõe entre Israel e o suicídio nacional são os EUA e sua determinação em falar a verdade ao governo israelense. No entanto, a maioria dos senadores, dos estrategistas e dos judeus americanos prefere enfiar a cabeça na areia, porque enfrentar Israel é muito desagradável e politicamente perigoso. Hagel se preocupa com a questão o suficiente para constituir uma exceção.

Ninguém captou o desespero em Israel melhor do que Bradley Burston, um colunista do jornal israelense Haaretz, que escreveu dias atrás: "Este ano, no Hanukah, quero que uma pessoa que esteja visitando Israel me aponte uma luz. Um movimento - qualquer um - em favor da liberdade e de todas as pessoas que vivem aqui. Um passo, por menor que seja, na direção de um futuro melhor", disse.

"O que torna esse Hanukah diferente dos outros?", questionou Burston. "É a escuridão. É a sensação de que esse país, assediado pelo inimigo, assediado por si mesmo, fechou todas as portas para o futuro e vedou todas as janelas para a esperança. Esse país começa a parecer uma lâmpada trincada cuja luz está se apagando. Nessas longas noites, mal conseguimos enxergar que a ocupação está se tornando cada vez mais permanente e a democracia, cada vez mais temporária."

Portanto, podem me colocar ao lado dos que pensam que seria bom se houvesse mais amigos de Israel que falam abertamente no governo dos EUA.

A legítima crítica filosófica a Hagel diz respeito à preferência, que ele não esconde, pela busca de uma solução negociada para o programa nuclear de Israel, à sua determinação a conversar com o Hamas para saber se poderá ser demovido do seu radicalismo, à sua convicção de que o orçamento do Pentágono pode ser reduzido e à sua aversão em levar a guerra para lugares como Iraque e Afeganistão, porque ele foi à guerra e sabe até que ponto ela pode ser um erro.

Quer os leitores concordem ou não com esses pontos de vista, será muito saudável que eles sejam levantados nos debates sobre segurança nacional promovidos pelo presidente. Por exemplo, na minha opinião, é impossível entender de que maneira os EUA poderão garantir os seus interesses no Irã, Afeganistão, Iraque, Síria, Bahrein e Líbano sem pôr fim à guerra fria entre Washington e Teerã no Oriente Médio. Tenho minhas dúvidas de que isto seja possível.

Acho que o regime iraniano precisa cultivar essa hostilidade com os EUA para justificar sua sobrevivência. No entanto, como as sanções o afetam profundamente, gostaria de ver se um acordo diplomático seria possível antes de optar por um ataque militar. Acho que o objetivo último do Hamas é a destruição de Israel e ele tem sido desastroso para os palestinos.

No entanto, o Hamas tem raízes profundas. Controla Gaza e não está disposto a sair de lá. Não acredito que os EUA ou Israel tenham alguma coisa a perder tentando uma aproximação com o grupo para constatar se existe a possibilidade de um futuro diferente.

É imprescindível para o mundo que os EUA sejam um país forte para manterem a estabilidade global, mas o "abismo fiscal" nos mostra que nosso orçamento de Defesa está encolhendo e precisamos de um programa estratégico inteligente. Acho que seria útil ter um secretário de Defesa que já tem essa posição e não precisa ser forçado a abraçá-la.

Portanto, sim, Hagel não é um político tradicional. É exatamente esse o motivo pelo qual, agora, sua voz será muito valiosa. No final, a decisão caberá sempre a Obama, mas deixemos que ele o faça depois de ouvir todas as alternativas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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