É preciso escolher um lado na política do Afeganistão

EUA têm de agir com energia para influenciar em 2014 a eleição de um sucessor para Karzai, uma imensa decepção

Max Boot, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2013 | 02h04

Há muito que Hamid Karzai é presidente do Afeganistão - desde o fim de 2001, quando foi instalado no cargo por uma aliança liderada pelos Estados Unidos. Na época, parecia um líder encantador, fluente em inglês, com um guarda-roupa colorido e capaz de criar um Estado democrático pós-Taleban.

Hoje, Karzai é percebido, ao menos no Ocidente, como um oportunista volúvel e imprevisível que tem vínculos problemáticos com autoridades corruptas e chefes tribais abusivos. Longe de consolidar a democracia, Karzai presidiu o desenvolvimento de um Estado profundamente corrupto e abusivo que permitiu o ressurgimento do Taleban. Ele não é nenhum George Washington. Não é nem sequer um Ramon Magsaysay (líder filipino dos anos 50) ou um Álvaro Uribe (ex-presidente colombiano).

A menos que o Afeganistão consiga encontrar um sucessor mais capaz para Karzai, é difícil imaginar o país consolidando os avanços de segurança obtidos a duras penas pelas tropas americanas desde 2009. O futuro do Afeganistão poderá mudar na esteira da eleição presidencial de abril de 2014 - supondo que ela seja realizada.

Há no Afeganistão, que visitei no começo de maio, uma suspeita generalizada de que Karzai, desesperado para permanecer no poder, poderá adiar a eleição indefinidamente com base na ideia de que a nação é demasiadamente violenta e caótica para uma eleição "livre e limpa". Isso os Estados Unidos não devem permitir. O presidente Barack Obama deve deixar claro que a continuidade da ajuda dos EUA é contingenciada pela saída de Karzai do cargo, ao qual ele não pode mais se candidatar.

Mas, supondo que a eleição transcorra conforme o cronograma, que papel os EUA deveriam jogar? Em Washington, o senso comum sugere que o envolvimento americano deve se limitar a ajudar as autoridades afegãs a garantir a integridade física do processo eleitoral. Tudo que os EUA desejam é uma eleição livre e limpa, declaram repetidamente porta-vozes do governo.

Muito recomendável, mas será realista? A última eleição, em 2009, foi manchada pela fraude generalizada orquestrada por Karzai e seus aliados. Não há motivos para pensar que a eleição de 2014 será diferente, considerando que, a essa altura, a presença militar americana estará reduzida dos atuais 66 mil soldados para apenas 34 mil - que atuarão como consultores e não como fiscais nas seções eleitorais. Os afegãos terão de realizar a eleição em grande parte por conta própria.

Lamentavelmente, o histórico do governo de Cabul não inspira muita fé, em especial desde que Karzai deixou claro que não tolerará nenhum estrangeiro na Comissão de Reclamações Eleitorais, uma organização de vigilância crucial que no passado foi formada por membros afegãos e estrangeiros.

Se Karzai permitir que o pleito se realize, tudo indica que ele tentará, no mínimo, orquestrar a eleição de um sucessor escolhido a dedo, possivelmente seu irmão, Abdul Qayum Karzai, que manteria a camarilha política e permitiria que Karzai exercesse o poder dos bastidores. Isso seria um desastre para o Afeganistão e para os interesses americanos na região.

A neutralidade no processo político em um país estrangeiro é um belo ideal, mas é impossível no Afeganistão. Se conservarmos o rumo atual, mantendo uma posição de não ingerência, na verdade ratificaremos a continuidade da influência nefasta de Karzai. A revelação pública de que a CIA tem lhe fornecido sacos de dinheiro não ajuda.

A melhor alternativa seria adotar um papel mais ativista politicamente. O embaixador americano, o chefe da sucursal da CIA e o comandante militar americano em Cabul, agindo em estreita sintonia com as autoridades em Washington, deviam escolher um favorito entre os muitos candidatos que buscam suceder a Karzai - o melhor (ou, mais provavelmente, menos ruim) líder para o futuro do Afeganistão.

Os EUA poderiam usar então sua influência, incluindo aqueles notórios sacos de dinheiro da CIA, para fazer o que puderem para garantir a eleição do candidato que julgarem mais capaz de se tornar um líder forte e unificador que atacará tanto o Taleban quanto a corrupção das autoridades.

Há obstáculos evidentes nesse caminho. Primeiro, não temos um bom histórico na escolha de candidatos afegãos - afinal, Karzai foi uma escolha nossa em 2001. Segundo, as tentativas desajeitadas para promover alternativas a Karzai por parte do então embaixador americano no Afeganistão, Karl W. Eikenberry, e do enviado especial Richard C. Holbrooke, em 2009, foram tiros que saíram pela culatra; Karzai venceu mesmo assim e ficou muito mais difícil negociar com ele.

Isso tudo é verdade, mas não devemos ser paralisados por erros passados. Em 2001, as autoridades americanas mal conheciam o panorama político afegão. Tivemos uma dezena de anos desde então para conhecer os meandros da política local e isso, assim se espera, nos permitiria fazer uma escolha melhor desta vez.

O problema em 2009 não foi que os EUA apoiaram um concorrente de Karzai, foi que o esforço foi acanhado e ineficaz. Desta vez, teríamos de fazer um trabalho melhor. E não devemos ser dissuadidos pela possibilidade de que nossas articulações fiquem expostas - o apoio americano é visto como uma coisa boa para a maioria dos afegãos. É por essa razão que Karzai não negou que recebe dinheiro da CIA.

Se não agirmos, deixaremos a decisão não para o povo afegão, mas para Karzai, os chefes tribais e uma legião de autoridades corruptas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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