É preciso impedir a aliança do Irã com a América Latina

União é alimentada pelo desejo de reduzir influência dos EUA

Lawrence J.Haas / LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

Henry Kissinger fez uma pergunta que se tornou famosa: Acaso o Irã se considera uma "nação" com um papel a desempenhar no sistema internacional ou uma "causa" que procura derrubar o sistema por meio de uma revolução popular global?

As atividades do Irã, não apenas em seu próprio quintal, mas também na América Latina - especificamente na Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua - sugerem a segunda alternativa, o que constitui uma crescente ameaça à qual os Estados Unidos devem reagir rapidamente.

Essas atividades incluem a cooperação cada vez maior do país persa com seus amigos emergentes latino-americanos em questões de interesse global, como a ampliação do intercâmbio entre os países e dos vínculos financeiros, e o aumento das relações entre as forças militares destas nações e os grupos que elas apoiam.

O caminho escolhido pelo Irã para influenciar cada vez mais a América Latina tem um aspecto irônico. Quando o presidente James Monroe enunciou a "Doutrina Monroe", há dois séculos, advertindo a Europa a não se imiscuir na região, foram Simon Bolívar e outros revolucionários que reagiram intensamente porque ela apoiava a luta para a emancipação de seus territórios latino-americanos do jugo das potências coloniais europeias.

Agora, são o Irã e seus aliados na Venezuela e em outras nações latino-americanas que citam Simon Bolívar enquanto procuram tirar os Estados Unidos de sua posição no topo da hierarquia mundial, e criar uma ordem global pós-americana.

Para os Estados Unidos, o apoio de Teerã ao grupo xiita libanês Hezbollah e a organizações terroristas, seus esforços para desestabilizar os países do Oriente Médio como um todo e sua busca de armas nucleares são motivo de grande preocupação. E são cada vez mais assustadores quando considerados no contexto de uma aliança intercontinental de revolucionários que têm um programa comum e relações cada vez mais estreitas.

Esta improvável aliança é alimentada principalmente por um forte antiamericanismo, e impulsionada pelo desejo de minar a influência dos EUA nas Américas e no mundo, os dois elementos que mantêm unida esta aliança.

O antiamericanismo é o tema das declarações públicas de Mahmoud Ahmadinejad do Irã, de Hugo Chávez da Venezuela, Evo Morales da Bolívia, Rafael Correa do Equador e Daniel Ortega da Nicarágua, que ultimamente têm realizado frequentes visitas recíprocas.

Segundo Ahmadinejad, a aliança reflete "um grande movimento anti-imperialista" na região, enquanto os líderes latino-americanos comparam a própria ascensão ao poder à Revolução Iraniana.

O Irã tem o que as capitais latino-americanas querem e vice-versa, promovendo um casamento de conveniência que abrange desde comércio, desenvolvimento e bancos ao compartilhamento dos recursos naturais e à cooperação militar.

Nos últimos anos, o Irã triplicou seus investimentos na região, concedendo centenas de milhões de dólares de ajuda a cada um de seus aliados latino-americanos. Em relação a Caracas, em particular, Teerã montou empreendimentos industriais na Venezuela e fundou uma sociedade para o financiamento de projetos de desenvolvimento em ambos os países.

Além do âmbito econômico, o Irã está ajudando a Venezuela a construir a infraestrutura do seu próprio programa nuclear; a Guarda Revolucionária Islâmica treinou os serviços secretos e a polícia venezuelanos; e o Hezbollah, com o apoio do Irã, expandiu suas operações na Venezuela e recebeu apoio financeiro e de outro tipo de Caracas, Em troca, as nações latino-americanas apoiam a busca de armas nucleares do Irã e procuraram minar as iniciativas do Conselho de Segurança da ONU e da Comissão Internacional de Energia Atômica para pressionar Teerã.

A Venezuela foi mais longe ainda, permitindo que o Irã usasse seu sistema bancário para driblar as sanções financeiras. Além disso, como o Irã depende das importações de derivados de petróleo, a Venezuela - rica em petróleo - comprometeu-se a entregar ao país persa 20 mil barris de gasolina diários.

E a fim de aumentar sua capacidade nuclear, o Irã colabora com a Venezuela na extração de urânio dentro de suas fronteiras - proporcionando a Teerã uma rota potencialmente mais importante para a obtenção de materiais básicos imprescindíveis para o sucesso do seu programa nuclear. A aliança do Irã com as nações da América do Sul ajuda todas as partes envolvidas a promover uma pauta que desafia os Estados Unidos no mundo e em próprio quintal. Está na hora de Washington responder à altura. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É MEMBRO DO DEPARTAMENTO DE POLÍTICA EXTERNA NO CONSELHO AMERICANO DE POLÍTICA EXTERNA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.