'É preciso levar os criminosos ao tribunais'

Ativista argentina critica lentidão do Brasil na punição de crimes cometidos durante a ditadura militar

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2014 | 02h03

"O que é que vocês estão esperando no Brasil para julgar os criminosos?" A cobrança é de Estela de Carlotto, presidente da entidade Avós da Praça de Maio, que, por 37 anos, buscou seu neto desaparecido depois da morte da filha nas mãos da ditadura militar argentina. Em agosto, ela encontrou seu neto, Guido, e diz que a busca pela verdade é a única garantia de que os crimes do passado não sejam repetidos. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida em Genebra, na sede do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Qual a importância da busca pelo passado nas sociedades latino-americanas?

Nos países que não se resolvem as questões do passado, o risco é que os crimes voltem a ocorrer. Enquanto não se esclarece o que ocorreu durante as ditaduras latino-americanas, não podemos falar em democracia plena. O país que esquece sua história corre o risco de repeti-la. Em todo o continente, vimos casos de ditaduras que mataram, sequestraram e torturaram, mas o que vemos é que, em muitos lugares, a única resposta tem sido apenas a criação de uma Comissão da Verdade, que faz um trabalho histórico e entrega um relatório. E isso acaba assim, sem qualquer consequência.

As comissões da verdade não têm um papel importante?

Sim, têm. Mas não é suficiente. Essas pessoas envolvidas nos crimes precisam ser punidas. É preciso levar os criminosos aos tribunais.

Como a sra. vê o processo no Brasil?

Muito lento. O relatório feito nos anos 80, conhecido como Tortura Nunca Mais, relatou tudo. O que mais precisa ser sabido se esses documentos já revelaram toda a tortura? Qual a dúvida? Por que não ter a coragem de ir adiante em processos judiciais? O que é que vocês no Brasil estão esperando para julgar os criminosos?

É possível que alguns dos

netos que vocês procuram

estejam no Brasil?

Sim. Encontramos netos no México, no Paraguai, na Espanha. Eles foram levados pequenos e não descarto nada. Vou ao Brasil nas próximas semanas para conversar com as famílias das vítimas. O movimento no Brasil enfrenta sérias dificuldades. Não existe um impulso político. Não existe um movimento social como na Argentina. É verdade que não foram 30 mil desaparecidos, como na Argentina, mas é curioso que eu ia ao Brasil nos anos 80 para pedir ajuda. Eu fui a São Paulo para uma visita do papa João Paulo II. Entregamos ao cardeal Paulo Evaristo Arns documentos para que ele entregasse ao papa sobre os crimes na Argentina. Depois, fui muitas vezes ao Brasil para falar com exilados argentinos. Queríamos saber o que eles tinham visto nas prisões, se tinham visto mulheres grávidas dando à luz.

O que a sra. deseja para a

família que recebeu o seu neto?

Isso cabe à Justiça. Os tribunais precisam determinar quem foi o responsável pelo sequestro, porque a família o aceitou receber. Não temos juízo nem a favor e nem contra essa família. Ela cuidou dele com muito amor. A questão é saber se ela teve responsabilidade. Por todos esses anos, fizemos nosso trabalho sem o sentimento de vingança. Nossa reparação é restituir a identidade dessas pessoas roubadas.

A sra. falou com a família que recebeu seu neto?

Não cabe a mim esse contato. Entendo meu neto, que diz amá-los. Eles o trataram muito bem e o criaram bem. Mas não cabe a mim falar com eles.

Como a sra. ficou sabendo que encontraram seu neto?

Foram 37 anos de buscas. De repente, uma juíza me ligou e disse: "Estela, tenho uma notícia muito boa. Encontramos o seu neto". Ela me disse assim, sem anestesia. Eu saltava de felicidade, gritava. Até agora, estou vivendo essa emoção. Chorei muito.

E a reação dele?

Num primeiro momento, ele disse que precisava pensar. Mas, no dia seguinte, veio me ver. Nos reunimos em casa, com meus filhos, e ele chegou com sua companheira. Ao entrar em casa, dei um abraço nele e ele me disse: "Vamos com calma". Mas, depois de horas conversando, ao se despedir, ele disse: "Até logo, vovó". Isso foi o máximo que eu poderia esperar. Desde então, o levo em meu coração todos os dias. Laura, minha filha, pode finalmente descansar em paz.

Agora, com um papa argentino, chegou a hora de o Vaticano

colaborar com a luta?

Sim. E a Igreja sabe disso. Estamos em negociações para conseguir os arquivos da Igreja. Muitos no clero eram cúmplices. Irmãs em conventos recebiam os netos sequestrados e os davam para outras famílias. Elas sempre souberam o que estavam fazendo.

O papa já deu algum sinal de que pode colaborar?

Sim. Eu estive com ele no ano passado e vou voltar a me reunir com ele logo mais. Ele está disposto a ajudar.

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