É preciso prestar atenção

Os Estados Unidos apenas reconduziram Barack Obama à presidência e outra superpotência do planeta celebra seu grande ritual da "sucessão".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h06

Os Estados Unidos apenas reconduziram Barack Obama à presidência e outra superpotência do planeta celebra seu grande ritual da "sucessão".

Tudo separa os dois processos: nos Estados Unidos é o ruído e o furor da campanha eleitoral, a alegria, a palavra, a vida, a energia, a transparência, a liberdade. Na China, o silêncio, a sombra e o segredo, os acertos de contas nos bastidores, o mutismo da população. E a democracia é tão débil que os nomes dos futuros chefes já são conhecidos antes mesmo do início dos debates: Xi Jinping para presidente e Li Kegiang como primeiro-ministro.

Entretanto, por mais diferentes e antagonistas que sejam os dois sistemas, nenhum dos dois países pode ignorar um ao outro. China e Estados Unidos têm uma dependência mútua.

Pequim encerrou uma década prodigiosa. Em dez anos o Produto Interno Bruto (PIB) chinês multiplicou por quatro, os superávits comerciais por cinco. Sua reserva de ouro é a maior do mundo. Os salários triplicaram. O país possui 515 milhões de internautas.

Esta expansão causou estragos nos grandes países industriais. Por causa de suas exportações a preço baixo e os deslocamentos, a China afetou as indústrias americanas e europeias.

O grande salto para a frente chinês deu início ao recuo do Ocidente, levou à queda dos salários e provocou o aumento do desemprego nos EUA e sobretudo na Europa.

Mas vemos hoje surgirem os efeitos perversos do triunfo chinês. Ao debilitar as economias ocidentais, a China acaba prejudicando a si própria. Estados Unidos e Europa, presos numa crise que foi agravada pelo sucesso chinês, importam menos. As exportações chinesas registram um forte recuo. Ora, o crescimento da China depende inteiramente das exportações, se bem que este ano o crescimento ficou travado. Nos últimos seis anos ele foi de 11%. Este ano não vai passar dos 7%.

Se esse recuo não continuar, a China escapará da zona de turbulência. Mas se o crescimento cair para 5%, ela ficará em perigo. O desemprego explodirá e uma crise social pode ocorrer. E depois uma crise política.

Na verdade, se os chineses suportam um regime autoritário, excessivamente minucioso, desconfiado, opressor e policial, é unicamente porque seu nível de vida melhora. No caso de uma estagnação ou um retrocesso, então os protestos políticos, que já têm se multiplicado graças à internet, podem se ampliar e fazer cambalear o poder glacial dos dirigentes de Pequim.

Por isso é preciso prestar atenção no 18.º Congresso do Partido Comunista chinês. Não só porque será ratificada a nomeação do presidente, mas sobretudo porque neste congresso vão se defrontar "grupos" que propõem estratégias diferentes para enfrentar a tempestade.

Há o grupo da "nobreza vermelha" que quer entrar no jogo da globalização, mas afrouxar as amarras que estrangulam as liberdades individuais. Um segundo grupo é formado pelo pessoal de Xangai, empresários que conduziram o milagre dos últimos dez anos e desejam continuar neste caminho, embora o modelo adotado (exportação total) já esteja perdendo o fôlego, pelas razões já explicadas.

Dois outros grupos retomam suas ideias. Em primeiro lugar a "esquerda" ideológica, pura e implacável, que deseja assegurar a expansão das regiões do interior do país e consagrar todos os recursos para aumentar o nível de vida da população rural e operária.

E por fim o Exército, dotado de enormes recursos, que não vacila em instigar o "nacionalismo" das massas chinesas, para grande angústia de todas as nações vizinhas do gigante chinês. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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