'É preciso punir quem tirou a vida da minha mãe'

Em que etapa está a investigação da morte de Cecilia Heber?

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h06

Infelizmente, estamos estancados. Não há dúvida de que ela foi morta por ingestão de Fosdrin, o veneno diluído no vinho. Mas é preciso responsabilizar os que cometeram esse crime contra um partido político, tirando a vida de uma mulher jovem e mãe de cinco filhos. Crime que poderia ter tirado vidas de famílias inteiras.

Se a autópsia logo indicou a presença do veneno, por que a família não saiu denunciando?

Na época ficamos em estado de choque... mas não podíamos fazer muito barulho, pois vivíamos uma ditadura. O clima de medo era tremendo.

Onde está o impasse do caso?

Na identificação e responsabilização dos culpados. Não tenho dúvida de que o serviço de inteligência do Uruguai esteve metido nisso. Como não tenho dúvida sobre quem escreveu o cartão que acompanhava as garrafas. Foi María Lemos, policial e irmã de um conhecido repressor. O problema é comprovar seu envolvimento através de provas caligráficas que divergem nos métodos e nos resultados. Será fundamental estabelecer este vínculo e identificar a rede criminosa.

Por que a ditadura queria eliminar os blancos, em 1978?

O partido, mesmo clandestino, fazia oposição e buscava abertura. Isso incomodava. Na época, dois mundos coexistiam na embaixada americana em Montevidéu: a ala mais alinhada ao Carter, pró-direitos humanos, e outra ala dura, conectada a uma rede de espionagem. Vem daí a ideia de cometer um crime de alto impacto.

Na presidência de Pepe Mujica, ex-preso político, as investigações do caso se intensificaram?

Tivemos apoio do ex-presidente Vásquez e temos uma relação boa com Mujica. Precisamos e queremos esclarecer. O problema é que, embora o Uruguai tenha responsabilizado muitos pelas violações, resta gente envolvida, civis querendo enterrar o passado. Há muito hermetismo na sociedade.

Como tem sido para o senhor e sua família conviver com essa longa busca pela verdade?

Meu pai morreu pouco depois de minha mãe, em 1980. De ataque cardíaco. Até esse momento, ele procurou superar a dor lutando pela reconstrução democrática. Nós, seus filhos, tratamos de seguir adiante. Eu tinha 20 anos quando mataram nossa mãe. Minha irmã menor, 14. Cecilia era uma italiana vibrante, passional, ligada à casa, mas interessada por política. Ter mãe mártir é motivo de orgulho. Mas também é um pedaço que nos falta. / L.G.

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