É preciso que o Oriente Médio mude sozinho

Região só deixa os EUA felizes quando protagoniza algum movimento político que seja independente da Casa Branca, como os atuais protestos em países árabes

Thomas Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2011 | 00h00

Quando presidente Barack Obama anunciou um reforço de tropas para o Afeganistão, em 2009, disse que a medida só teria sucesso se três coisas ocorressem: o Paquistão se tornasse um país diferente, o presidente afegão, Hamid Karzai, se transformasse em um homem diferente e se os EUA conseguissem fazer exatamente o que dizem que não estão fazendo, ou seja, construir uma nação no Afeganistão. Nada disso ocorreu. Por isso, ainda acredito que nossas opções no Afeganistão são: perder cedo, perder tarde, perder muito ou perder pouco.

Meu voto é para perder cedo e pouco. Minha cautela vem de três perguntas: quando o Oriente Médio nos deixou satisfeitos? Como terminou a Guerra Fria? O que o ex-presidente Ronald Reagan faria? Vamos examinar as três: Quando o Oriente Médio nos deixou mais satisfeitos nas últimas décadas? É fácil:

1 - Quando o egípcio Anuar Sadat realizou sua visita histórica a Jerusalém.

2 - Quando a revolta sunita no Iraque contra forças favoráveis à Al-Qaeda mudou completamente a situação na região.

3 - Quando o Taleban, no Afeganistão, foi vencido pelos rebeldes afegãos, em 2001, apoiados apenas pelo poder aéreo dos EUA e algumas centenas de forças especiais americanas.

4 - Quando israelenses e palestinos esboçaram um acordo de paz secreto em Oslo.

5 - Quando a Revolução Verde eclodiu no Irã, em 2009.

6 - Quando a Revolução de Cedro explodiu no Líbano.

7 - Quando os protestos pró-democracia varreram Tunísia, Líbia, Iêmen, Síria e Egito.

8 - Quando Israel unilateralmente retirou-se do sul do Líbano e de Gaza.

O que tudo isso tem em comum? Os EUA não tiveram nada a ver com quase todos esses eventos. As pessoas agiram em causa própria: não vimos como os movimentos surgiram e muitos não nos custaram um centavo.

A maior verdade sobre o Oriente Médio é que a região só dá alguma satisfação aos EUA quando inicia um movimento. Se não começa com eles, se não tiverem o domínio de uma nova iniciativa de paz, uma batalha ou uma disputa pela boa governança, a mobilização de tropas americanas ou a distribuição de dinheiro não funcionará. Se iniciam o movimento, na verdade, não necessitam de nós, tampouco nos querem por perto por muito tempo.

Quando as pessoas detêm o controle de uma iniciativa - como a coalizão afegã original que derrubou o Taleban, como o povo na Praça Tahrir, como os negociadores egípcios e israelenses - elas agem por si próprias e a ajuda dos EUA pode ser um multiplicador.

Quando não querem ser donas da iniciativa - no caso do Afeganistão, uma governança decente - ou quando acham que queremos mais resultados do que conseguem fornecer, elas se sentirão satisfeitas em nos empurrar para a guerra e tirar nosso dinheiro.

Quanto à outra questão, como a Guerra Fria terminou, também é fácil. Ela acabou quando os dois governos - União Soviética e China, que forneciam dinheiro e ideologia para incentivar nossos inimigos - entraram em colapso. A China teve uma transformação interna pacífica do comunismo para o capitalismo e a União Soviética passou por uma mudança desordenada do marxismo para o capitalismo.

Desde então, ficamos cada vez mais envolvidos numa guerra contra outro movimento global: o Islã jihadista radical, que é nutrido com dinheiro e ideologia vindos da Arábia Saudita, Paquistão e Irã. Os ataques de 11 de Setembro foram uma operação conjunta de cidadãos sauditas e paquistaneses.

No entanto, invadimos o Afeganistão e o Iraque, porque a Arábia Saudita tem petróleo, o Paquistão tem bombas atômicas e o Irã é grande demais. A ideia era de que uma guerra por tabela produzisse mudanças nos três países. Até agora, nada.

Enquanto não rompermos essa combinação de mesquita, dinheiro e poder no Irã, Arábia Saudita e Paquistão, que alimentam o jihadismo, o que estamos fazendo no Afeganistão é combatendo os sintomas. Os verdadeiros motores por trás da violência jihadista continuarão funcionando. Essa ruptura, porém, exige uma nova política energética nos EUA.

George Will observou que o senador John McCain, um falcão no caso da Líbia e do Afeganistão, questionou "o que Ronald Reagan estaria dizendo hoje?". McCain deixou implícito que Reagan nunca deixaria guerras como a da Líbia ou do Afeganistão inacabadas. Eu realmente sei a resposta para essa questão. Eu estava lá, em 25 de fevereiro de 1984, no aeroporto de Beirute. Observei os veículos anfíbios da Marinha dirigindo-se para a pista, depois se afastando, atravessando a praia e desaparecendo no Mediterrâneo, saindo do Líbano em direção ao navio de apoio.

Depois que um atentado suicida matou 241 militares americanos, Reagan entendeu que estava no meio de uma guerra civil com um objetivo indefinido e um inimigo esquivo, cuja derrota não valia o sacrifício. Assim, reduziu suas perdas e simplesmente retirou-se. Foi advertido de que as consequências seriam terríveis. Afinal, isso ocorria em meio à Guerra Fria, com uma União Soviética com armas nucleares. Poderíamos parecer fracos.

Reagan, porém, achava que ficar ali é que nos enfraqueceria. Oito anos depois, a União Soviética estava na cesta de lixo da história, os EUA em ascensão e o Líbano tentando se acertar sozinho - e sem a nossa ajuda. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E ESCRITOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.