É preciso reunificar a identidade britânica

Só será possível vencer os novos desafios impostos pela vitória do 'não' se o significado da caminhada rumo à secessão for compreendido plenamente

CHRIS PATTEN, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2014 | 02h03

No fim, eles foram salvos pela democracia. Com uma diferença de quase 11%, a maioria do povo da Escócia decidiu permanecer no Reino Unido da Grã-Bretanha - em parte graças à campanha de três políticos trabalhistas, Alistair Darling, Gordon Brown e Jim Murphy.

Houve momentos em que os dois lados pareciam quase empatados e outros em que nós, britânicos, parecemos prestes a engendrar o desmembramento do nosso país, que durante anos reuniu quatro comunidades nacionais: Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte e Escócia.

Os escoceses são parte do Estado britânico há mais de 300 anos e estão no coração da cultura protestante, imperial, aventureira e voltada para o exterior que forjou a identidade britânica. Ainda assim, essa identidade foi quebrada. Espero que seja possível repará-la. Em todo caso, as coisas nunca mais serão as mesmas.

Agora, os povos da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte, que afinal não foram rejeitados, precisam apresentar o melhor comportamento possível para salvar algo viável das discussões envolvendo a secessão, às vezes amargas e capazes de fomentar a inimizade. Temos de nos mostrar magnânimos - uma virtude bastante difícil de praticar no melhor dos momentos. Antes de tentar enfrentar esse novo desafio, o que podemos aprender com essa caminhada ao longo da beira do abismo?

Apesar do imenso número de eleitores que foi às urnas no dia do plebiscito na Escócia, os plebiscitos são uma maneira lamentável de tentar solucionar grandes questões políticas. Aqueles que criaram e desenvolveram a democracia parlamentar na Grã-Bretanha sabiam disso muito bem. Os plebiscitos são o dispositivo preferido dos populistas e aspirantes a ditadores. Uma votação num único dia sublima questões complexas numa pergunta de cédula, que muitas vezes não condiz com a questão que a maioria responde de fato. As democracias parlamentares não deveriam se envolver em plebiscitos.

Nesse caso, não jogamos fora 300 anos de experiência compartilhada e prosperidade comum numa quinta-feira de setembro de 2014. Há três motivos pelos quais houve momentos em que parecemos mais próximos desse resultado e nenhum deles decorre das virtudes do sistema político britânico, nem justifica a alegação segundo a qual nosso futuro deve ser diferente e será.

Em primeiro lugar, embora o nacionalismo escocês tenha muitas raízes e aspirações dignas, a campanha e seu processo de incubação demonstraram pesadas tintas chauvinistas e, ocasionalmente, uma hostilidade grosseira ao pluralismo, algo que pudemos observar, por exemplo, na intimidação de alguns jornalistas. No geral, os ingleses assumiram o papel daquilo que filósofos e cientistas sociais chamam de "o outro", uma força estranha e hostil, na campanha pela independência. Os ingleses foram os vilões do dia a dia. Agora, temos de tentar esquecer isso.

Em segundo lugar, a Grã-Bretanha, como outros países na Europa, está sofrendo com a ascensão de forças políticas raivosas, populistas e anti-iluministas, impulsionadas por teorias da conspiração. Na Inglaterra, o sucesso eleitoral do Partido da Independência da Grã-Bretanha (Ukip) é um exemplo desse tipo. Os demagogos empilham seus preconceitos sobre meias verdades e todas as tentativas de associar o debate à realidade são abatidas com rancorosas acusações de desonestidade e interesse próprio.

Os líderes políticos responsáveis terão de ser mais agressivos, ousados e vigorosos ao confrontar interlocutores desse tipo. Por fim, em se tratando de políticas, nós, britânicos, nos iludimos ao pensar que nosso sistema de governo - que cada vez mais demonstra ser pouco representativo, ineficiente e demasiadamente centralizado - poderia sobreviver apenas com alguns ajustes aqui e ali.

Essa crença atendeu aos propósitos dos dois partidos políticos principais. Os trabalhistas tentaram evitar um debate constitucional, pois qualquer mudança na direção de instituições federais requer que analisemos a inchada fatia de representação do partido no Parlamento britânico. É injusto conceder cada vez mais poder a um Parlamento escocês e manter a voz desproporcional dos trabalhistas (que controlam 41 cadeiras escocesas na Câmara dos Comuns) em relação ao que ocorre na Inglaterra.

Quanto aos conservadores, o partido permitiu que sua crença na união das partes constituintes do país confiscasse a possibilidade de debater como tal união poderia ser modernizada. Se quisermos impedir que a Grã-Bretanha se despedace, temos de mudar nossa forma de governo. O ritmo proposto agora pelo primeiro-ministro David Cameron para esse processo é de tirar o fôlego.

Há menos de 60 anos, os conservadores eram donos da maioria das cadeiras na Escócia. Hoje, há apenas um parlamentar escocês conservador entre os 59 que participam do Parlamento da Grã-Bretanha, evidenciando como os tories se deixaram afastar de algumas partes do país.

Em certos aspectos, este é o maior de todos os desafios à cultura política britânica. Os conservadores estão perdendo contato com partes do país onde antes foram fortes - não apenas a Escócia, mas também nas cidades e no norte da Inglaterra - e é cada vez maior a distância entre o partido e os grupos étnicos minoritários da Grã-Bretanha, cada vez mais importantes.

Alguns dos mesmos problemas afetam os trabalhistas. Ambos os grandes partidos terão de lidar com essas questões conforme iniciamos a longa e difícil tarefa de reformar uma Grã-Bretanha que perdeu parte do elo de afinidade e solidariedade que manteve esta união por tanto tempo.

Para alguns cidadãos britânicos ao sul da fronteira escocesa, será difícil agir com a boa vontade que agora se faz necessária para nos recuperarmos do episódio do plebiscito. Não sei até que ponto Alex Salmond, o líder do partido nacional escocês, que anunciou que renunciará ao cargo de primeiro-ministro, é responsável pela alta na popularidade do próprio partido, mas suspeito que ele pode ter galvanizado demasiadamente o sentimento nacionalista na Inglaterra.

Ouvi um comentarista afirmar que a campanha do plebiscito foi "linda". Talvez, no fim, bastasse "confiar no povo", uma ideia revigorante. Que aqueles que se opõem à democracia em seus próprios países tomem nota. Houve momentos, porém, em que a campanha esteve perigosamente próxima de ser um triunfo da falta de juízo. O desafio agora é descobrir como banir as meias-verdades e as grandes mentiras da nossa política, restaurando a razão e a moderação no nosso país. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

CHRIS PATTEN É REITOR DA UNIVERSIDADE DE OXFORD, FOI O ÚLTIMO GOVERNADOR BRITÂNICO DE HONG KONG E É COMISSÁRIO DA UE PARA ASSUNTOS EXTERNOS

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