REUTERS/Jon Nazca
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‘É provável que Reino Unido reverta decisão de sair’

Pesquisador do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri) lamenta resultado do referendo britânico, mas tem dúvidas sobre se o Reino Unido vai mesmo deixar a União Europeia

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2016 | 05h00

Poucos cientistas políticos acompanham a construção da União Europeia tão de perto quanto o francês Philippe Moreau Defarges. Ex-pesquisador do Instituto de Estudos Políticos de Paris, hoje do Instituto de Relações de Relações Internacionais (Ifri), é autor de mais de uma dezena de livros como Où va l’Europe?, sempre sobre temas nos quais é especialista: a construção europeia e a globalização. Ao Estado, ele lamentou o resultado do referendo britânico, mas tem dúvidas sobre se o Reino Unido vai mesmo deixar a UE. A seguir, trechos da entrevista. 

François Hollande, Angela Merkel e Matteo Renzi se reuniram em Berlim pela primeira vez para discutir o futuro da UE sem o Reino Unido. Outras cúpulas virão nessa semana. O que podemos esperar dessas reuniões?

É cedo para dizer. Trata-se de uma reunião preparatória, na qual Hollande, Merkel e Renzi vão discutir e bater boca, eventualmente. Esse é o momento adequado para isso. Na prática, não podemos esperar nada dessas primeiras reuniões, porque o processo todo vai durar vários anos. Tenho certeza de que será de fato muito parecido com um divórcio – afinal, o que se passa entre a UE e o Reino Unido é um divórcio que leva muitos anos e pode se passar bem em alguns momentos, mal em outros. No início, haverá mais desacordos do que acordos, pode ter certeza.

O senhor acredita que os líderes europeus já têm uma estratégia para a UE pós-Brexit?

Não, eles não têm uma visão clara. Os líderes europeus estão muito divididos, porque é tudo muito recente. Observe que os países-membros estão divididos até mesmo sobre o Brexit – se ele de fato deve ou não acontecer. Alguns dirigentes vão esperar que o divórcio seja longo, como Angela Merkel, e outros que seja rápido, como François Hollande. A Alemanha considera que o Reino Unido é indispensável. A França deseja uma União Europeia mais coerente e continental.

Mas o fato é que a posição do Reino Unido foi decidida pelo referendo.

Sim, os britânicos decidiram. Mas pare de acreditar no referendo. O referendo foi um capricho político de um dirigente, David Cameron, com um resultado que foi um grito de uma parte da opinião pública. Os britânicos votaram por partir, você tem razão, mas para eles foi como se embriagar. Eles se embriagaram nas urnas. Agora, veio a ressaca. Os britânicos votaram para sair, mas crer que seja a vontade dos povos que decide a História é ingênuo. Há decisões históricas mais importantes que são tomadas do ponto de vista econômico e político. Portanto, vamos ver. Para mim, o processo do Brexit será um longo, difícil e imprevisível processo de divórcio, pode terminar com um novo casamento ou nem mesmo terminar. 

A hipótese de passar por cima do referendo vem sendo evocada no Parlamento local da Escócia, em Edimburgo, e no Parlamento nacional, em Londres. Esse seria o caminho para bloquear o Brexit?

Para ser franco, ainda não sei como pode acontecer. A hipótese de um veto por Westminster, o Parlamento britânico, não pode ser descartada, porque a maioria de seus deputados é pró-UE. E, francamente, é do interesse de todos que o Reino Unido continue na União Europeia, dos britânicos e da Europa continental. Esperemos então que as pessoas sejam razoáveis. Talvez o Brexit venha a terminar sendo um “não-divórcio”. Há tantas possibilidades diferentes que o eventual veto de Westminster é só uma delas. Não podemos descartar a hipótese de que a opinião pública britânica intervenha e impeça o Brexit. 

Portanto, o senhor não acredita que a decisão seja irreversível, como afirmaram David Cameron e François Hollande nos últimos dias? 

Não, não se pode afirmar hoje que seja uma decisão irreversível. A União Europeia está atravessando um momento grave, mas é também o momento de início de um procedimento de divórcio. Até o fim, tudo pode acontecer. Angela Merkel não dirá jamais em público, mas ela não quer o divórcio. E ela tem razão. O cenário mais provável, a meu ver, é que o Reino Unido não saia da União Europeia.

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