Baptistão/AE
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E se a população mundial encolher?

ONU estima que o número de habitantes da Terra se estabilize em 10,1 bilhões na metade do século; previsões não consideram risco de um grande cataclismo ou epidemia

COLUM LYNCH É JORNALISTA (*FOREIGN POLICY), O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2011 | 03h05

Em algum momento por volta do Halloween, hoje, a Organização das Nações Unidas celebrará o nascimento do 7.º bilionésimo bebê do mundo. Como disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a líderes mundiais em Nova York, no mês passado, o 7.º bilionésimo bebê provavelmente será pobre e habitará uma terra maltratada pelos estragos de aquecimento global, desertificação e escassez de alimentos.

Caramba! Com esse tipo de retórica apocalíptica, não surpreende que boa parte do foco da mídia tenha sido na tensão de um planeta superlotado onde mais de 79 milhões de pessoas são adicionadas a cada ano à família humana, sobrecarregando cidades já superlotadas, disputando um reservatório de recursos naturais em constante diminuição.

Mas e se a população mundial encolher? Embora a população global tenha triplicado desde a criação da ONU, em 1945, as taxas de fertilidade globais nos últimos cem anos declinaram consistentemente, de um pico de 6 filhos por família na aurora do século 20 a 5 em 1950 e 2,5 hoje.

A ONU calcula que uma taxa de reposição de 2,1 filhos por família será alcançada após 2100. A organização internacional produziu diversos cenários mostrando a população crescendo para quase 10 bilhões ao longo do próximo século - ou mesmo até quase 27 bilhões, se a taxa atual de crescimento populacional persistir (é dispensável dizer que muitos demógrafos consideram insustentável esse desfecho).

O mais provável, segundo estatísticos da ONU, é que a população aumente de forma gradual até 8 bilhões em 2025, 9 bilhões em 2043, atinja 10,1 bilhões na metade do século, e, daí, se estabilize. A chamada projeção de "variação média" supõe que países com taxas de fertilidade elevadas como Níger (7,37 bebês por mulher) e aqueles com taxas de fertilidade baixas, como a Coreia do Sul, onde as mulheres têm uma média de 1,2 filho, acabarão convergindo.

Essa suposição, como a maioria das outras, é apenas uma suposição e não leva em conta eventos cataclísmicos potenciais, como um asteroide colidindo com a terra ou, talvez, um cenário mais plausível em que multidões de pessoas morram por doenças infecciosas. A epidemia de aids desacelerou temporariamente as taxas de crescimento populacional na África, impedindo que o continente africano superasse a população combinada da Europa e das Américas em 2025.

"Demografia não é destino. De certa maneira, o pressuposto mais implausível é a ideia de que o todo o mundo vai começar a ter 2,1 filhos. Não há nenhuma razão para acreditar que isso vai acontecer", disse Matthew Connelly, um professor de história da Universidade Columbia e autor de Fatal Misconception: The Struggle to Control World Population (Equívoco fatal: a luta para controlar a população mundial, em tradução livre do inglês). "Não me surpreenderia se tivermos mais surpresas à frente." Aliás, prever crescimento ou contração de população é, em geral, um jogo de perdedores.

Previsões erradas. Os demógrafos não previram algumas das mudanças demográficas mais importantes do último século, incluindo o primeiro declínio na taxa de fertilidade americana durante a Grande Depressão, o "baby boom" logo depois da 2.ª Guerra e a explosão da migração humana nos anos 1970.

Joel E. Cohen, um pesquisador da Universidade Rockefeller que estuda tendências populacionais, concordou que os demógrafos têm se mostrado fracos em previsões. "Eu vejo as projeções além de 2050 como cenários de 'E se...'. Não os vejo como declarações do que ocorrerá", disse ele. "Não previmos o 'baby boom' e não previmos o 'baby bust' (colapso) que se seguiu. Nossa capacidade de prever mesmo para as pessoas que estão vivas é limitada", disse.

Por exemplo, a queda vertiginosa da taxa de fertilidade do Irã, de 6,9 em 1960 para 1,6 hoje, pegou o mundo de surpresa - boa parte da diminuição ocorreu após a Revolução Islâmica. "Ninguém em 1980 poderia ter previsto que a taxa de fertilidade total do Irã estaria hoje muito abaixo da taxa de reposição." Cohen observou também que as previsões tenebrosas de que populações em declínio prejudicarão o crescimento econômico não comportam um confronto com a realidade econômica.

Muitos dos países mais ricos do mundo que têm experimentado declínios nas suas taxas de fertilidade prosperaram, enquanto muitos dos países mais pobres do mundo passam por dificuldades econômicas. "Tome o exemplo de Alemanha e Japão, dois dos países mais prósperos do mundo: eles têm uma população em declínio e, por enquanto, são dínamos econômicos. Não há uma relação necessária entre prosperidade e crescimento populacional." Mesmo no cenário mais provável da ONU, que prevê a população mundial na casa dos 10 bilhões até o fim do século, muitos países se contrairão, exercendo uma enorme pressão sobre seus governos para assegurar o progresso econômico e a estabilidade social - com força de trabalho e mercado em declínio e um suprimento cada vez menor de jovens para cuidar de uma população cada vez mais idosa.

Pelo menos 80 países já caíram abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos, entre os quais Alemanha, Itália, Japão, Rússia, Coreia do Sul e Espanha, onde as taxas de fertilidade caíram para 1,5 filho por mulher, ou menos.

Para refletir a incerteza, a ONU publica também variações sobre sua projeção para a taxa de fertilidade global futura. Dois modelos da entidade supõem que a população se aproximará ou de uma taxa de fertilidade de 2,5 ou de 1,5 - as variantes baixa e alta da ONU -, o que impelirá a população para cima até 15,8 bilhões ou para baixo até 6,2 bilhões, em 2100, a última representando um declínio de cerca de 800 milhões de pessoas em relação à população atual.

Uma população menor poderia aliviar a pressão sobre a natureza, assegurando uma exploração mais sustentável do meio ambiente. Mas o futuro desses Estados minguantes - definidos por uma combinação de uma grande quantidade de idosos aposentados e uma pequena quantidade de jovens trabalhando - poderia ser sombrio, particularmente se eles não conseguirem absorver migrantes jovens.

A Europa (incluindo a Rússia) que atingiu uma pico de população de 731 milhões em 2005, está projetada para ver seu primeiro declínio populacional da história, caindo para 664 milhões na metade do século. Estimativas da ONU projetam que a população da Rússia, hoje em 143 milhões, poderia perder quase 35 milhões, segundo a projeção mais provável - se a taxa de declínio se mantiver. Essa queda incentivou alguns países europeus, incluindo França e Macedônia, a oferecer incentivos econômicos, como dinheiro ou atendimento subsidiado às crianças, para encorajar mães a ter mais filhos.

China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, tentaram conter o crescimento demográfico nas últimas quatro décadas com uma série de medidas compulsórias não raramente draconianas - incluindo a política de um filho e programas de esterilização em larga escala na China. Mas o custo tem sido alto em termos humanos, particularmente na China, onde 20% dos meninos nascidos nos anos 90 possivelmente não conseguirão encontrar um par, segundo Connelly.

O descompasso na juventude chinesa provavelmente será seguido por uma população cada vez mais idosa, aumentando a tensão sobre a nova geração chinesa, que terá de amparar os numerosos avós. Em meados do século, 30% da população da China terá mais de 65 anos. E estará em piores condições de saúde que os habitantes do Ocidente, dadas as taxas crescentes de tabagismo e o alto índice de envenenamento por chumbo - e outros males ambientais - entre os chineses.

Connelly suspeita que a população global deixará de crescer em torno da metade deste século. China e Índia podem servir de modelos de como países trabalharão no futuro para controlar o crescimento populacional. "Temo um retorno de medidas mais coercitivas", disse ele.

Os EUA evitaram em grande parte o destino de muitos outros países em desenvolvimento por causa de sua grande população de imigrantes. Apesar de seus benefícios demográficos, a imigração ficou sobre crescente ataque político nos EUA, que anunciaram ter deportado mais de 400 mil estrangeiros no ano passado, mais do que em qualquer outra época da história americana.

Mas será isso realmente algo para Washington alardear? "Não temos um modelo de país com população em declínio que esteja experimentando um crescimento econômico", disse Joseph Chamie, o ex-diretor da Divisão de População da ONU e atual diretor de pesquisa no Center for Migration Studies. Segundo ele, o crescimento econômico mundial dependeu de uma população em expansão desde a Revolução Industrial. Chamie contrastou o destino de duas cidades americanas: Detroit, que sofreu uma queda de população de 25% na última década, caiu de joelhos; Nova York, que teve um aumento de 400 mil pessoas no mesmo período, prosperou.

"Uma população em declínio traz benefícios como um desgaste ambiental menor e menos consumo, mas terá também menos trabalhadores para cada aposentado. Isso pode se tornar um fardo financeiro muito grande para os jovens", disse ele. "Não sabemos exatamente como proceder se a população começar a cair como vimos na Rússia, Japão e outros lugares. Navegamos hoje em águas desconhecidas." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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