E se Hillary tivesse vencido em 2008?

Alguns pontos da política externa do governo comandado pela ex-secretária de Estado seriam diferentes da agenda do presidente Obama

AARON , DAVID MILLER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2014 | 02h04

Durante seu mandato como secretária de Estado, Hillary Clinton se referiu muitas vezes ao "poder inteligente" - colocar a diplomacia no mesmo nível do poder militar. Agora, ela busca se distanciar da política externa do presidente Barack Obama, como ficou claro nas críticas que fez em entrevista a Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic. Mas e se Hillary estivesse no Salão Oval desde 2009? Até que ponto sua política externa seria diferente da de Obama? As perguntas são hipotéticas, mas como Hillary pode chegar à presidência, em 2016, os americanos têm o direito de saber as respostas.

Com certeza há diferenças de estilo entre Hillary e Obama. Mesmo durante a campanha presidencial anterior, ela se mostrava mais entusiasmada com a política externa do que ele, mais interessada em desenvolver relações com líderes mundiais e fazer o jogo da diplomacia. Hillary é mais sensível à imagem dos EUA como poder indispensável. E, embora não seja nenhuma combatente afoita, tem mais propensão a considerar o uso da força em circunstâncias específicas.

No entanto, provavelmente as estratégias políticas básicas não divergiriam fundamentalmente daquelas que o presidente contemplou quando ela era sua secretária de Estado. Hillary nunca teria se tornado secretária de Estado de Obama, nem teria sucesso na função, se ambos não compartilhassem a mesma visão de mundo e daquilo que os EUA deveriam fazer a respeito. Os dois são negociadores e não transformadores ideológicos - inteligentes, pragmáticos e não assumem riscos em um mundo de apostas sem chances de sucesso e de más escolhas.

Obama e Hillary nunca foram os gêmeos Bobbsey no que se refere ao Irã. Ela pressionou por sanções severas contra o país desde seus tempos de senadora pelo Estado de Nova York. Durante os debates presidenciais, criticou o propósito de Obama de conversar com o Irã sem precondições. Em sua autobiografia, Hard Choices, ela diz ter lamentado a recusa do presidente em adotar uma posição mais dura com os mulás, em resposta à repressão da Revolução Verde, em 2009.

Na entrevista para a Atlantic, Hillary se disse contra a ideia de que o Irã tem direito de enriquecer urânio. "De preferência, não deve haver nenhum enriquecimento. A posição de última instância seria no sentido de um enriquecimento tão pequeno que eles não conseguiriam chegar a uma arma nuclear." A equipe americana que negocia com Teerã aceita a possibilidade de algum enriquecimento de urânio pelo Irã, cujos limites devem ser estabelecidos.

Se Hillary se tornar presidente, ela provavelmente firmará o mesmo acordo e adotará uma estratégia similar, primeiramente buscando um acordo provisório e depois testando as possibilidades durante um ano ou mais de negociações, antes de um tratado definitivo. Afinal, foi ela que deu início às atuais conversações. Ela e Obama acertaram uma estratégia de via dupla, de pressão e engajamento, de sanções mais severas e prolongadas, mas mantendo a porta aberta para a diplomacia. Depois que o sultão de Omã ofereceu a Hillary um canal extraoficial para uma atuação diplomática secreta, foi o Departamento de Estado que atuou do lado americano.

Hillary como presidente, compreendendo que a alternativa a um acordo pode ser a guerra - um ataque israelense ou mesmo dos EUA - faria o máximo possível para assegurar que todas as possibilidades tenham sido analisadas antes de recorrer à força. Negociadores se aferram a suas negociações e não querem fracassar. Assim, Hillary permitiria que fossem feitas as mesmas concessões ao Irã, como observamos no caso da atual equipe negociadora.

Hillary é menos crítica do que Obama sobre as medidas adotadas por Israel, especialmente sua resposta militar ao Hamas. E, ao contrário de Obama, ela mantém relações de longa data com os participantes no processo de paz. Acompanhei Hillary quando ela ainda era primeira-dama, no funeral de Leah Rabin, e presenciei o seu charme e magnetismo sobre os israelenses, independentemente de partido. Além disso, ela sabe como lidar com Binyamin Netanyahu melhor do que Obama. No entanto, é difícil imaginar que Hillary seguiria um caminho diferente no tocante à solução de dois Estados - ou alcançaria resultados diferentes.

Diante da falta de confiança entre Netanyahu e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, as lacunas em assuntos primordiais e a impossibilidade de se alcançar um pacto provisório mais modesto, a única opção disponível foi a de Obama e John Kerry: tentar um "acordo estrutural", no qual muitos detalhes envolvendo questões essenciais, como Jerusalém, não estão resolvidos. Mesmo assim, o fracasso estava virtualmente garantido.

Como Hillary teria administrado os últimos confrontos em Gaza? Em 2012, ela teve um papel importante num cessar-fogo, embora o então presidente do Egito, Mohamed Morsi, tenha respondido pelo Hamas. Desta vez, como Kerry, ela provavelmente também não teria tido sucesso. Poderia ter mais influência sobre Netanyahu, mas com o Hamas desejando continuar a disputa, suas chances seriam pequenas.

Quanto à Rússia e à Ucrânia, Hillary tem reputação de ser dura com Moscou. Vladimir Putin já acusou-a de orquestrar as manifestações contra ele, em 2012. No entanto, é difícil acreditar que, como presidente, a pragmática Hillary teria tentado alguma coisa mais do que adotar uma política de "apertar o botão de reset" das relações com a Rússia, que chegaram ao seu nível mais baixo depois da guerra da Geórgia, das altercações envolvendo o Kosovo, do escudo de defesa antimíssil e da expansão da Otan. Com a ascensão de Dimitri Medvedev, qualquer americano teria tentado identificar assuntos em que EUA e Rússia poderiam cooperar. A estratégia de Putin não seria mudada nem mesmo se fosse adotadas as recomendações contidas em seu memorando de despedida para Obama: recusar convite de Putin para uma cúpula presidencial e evitar adulá-lo. Ele simplesmente tem mais cartas e vai jogá-las.

Quanto à Ucrânia, se Hillary estivesse no lugar de Obama nos últimos meses, quando Putin adotou medidas temerárias na Crimeia e se intrometeu na região oriental da Ucrânia, é difícil imaginar o que ela teria feito para impor um maior custo para a Rússia e reverter o apoio de Putin aos separatistas pró-Rússia. A força militar não é opção. De maneira que, como Obama, Hillary teria recorrido a várias medidas, como reunir os europeus, fornecer assistência militar não letal aos ucranianos, adotar uma retórica mais dura e sanções prolongadas.

Quanto à Síria, Hillary afirmou que, ao não se criar uma força de combate confiável, de oposição a Bashar Assad, ficou um grande vazio que os jihadistas ocuparam. Na terça-feira, Hillary telefonou para Obama para afirmar que não estava atacando suas diretrizes políticas, mas que os dois divergiam quanto à abordagem da guerra na Síria. Em 2012, Hillary queria agir com mais contundência para fragilizar Assad. No entanto, treinar e equipar uma oposição dividida e disfuncional não iria muito além do que Obama finalmente acabou por compreender em 2013.

Para mudar o equilíbrio de forças no campo de batalha, Hillary, como presidente, teria de ganhar apoio para uma estratégia militar mais ampla envolvendo não só os rebeldes armados, mas também criando zonas de exclusão aérea e autorizando ataques contra alvos do regime sírio. Não sabemos se ela chegaria tão longe, sem falar se o Pentágono, avesso a riscos, apoiaria.

Quanto às armas químicas, o enfoque de Hillary se coadunaria com o de Obama. Como secretária de Estado, ela reiterou a linha vermelha estabelecida por Obama. Embora tenha se afastado do cargo à época em que um ataque das forças de Assad, em agosto de 2013, matou 1.400 pessoas, Hillary apoiou a decisão de Obama de pedir autorização ao Congresso antes de lançar uma ofensiva.

Se Hillary fosse presidente, ela talvez relutasse em ir ao Congresso e acreditasse menos que um acordo intermediado pelos russos realmente eliminaria as armas químicas da Síria. Mas, como afirma em seu livro, a Síria era um "problema insolúvel". Não tenho certeza se, como presidente, ela teria se saído melhor do que ele.

Não se trata de desacreditar os talentos e capacidades de Hillary no campo da política externa, mas de enfatizar um aspecto crítico do papel dos EUA no mundo. Parafraseando Marx, homens e mulheres fazem a historia, mas raramente eles fazem o que lhes agrada.

Não importa o quão determinada Hillary esteja em afirmar a liderança dos EUA ou promover seu conceito de poder inteligente, o fato é que a natureza cruel e implacável do mundo teria imposto as mesmas severas limitações. Nem todo o problema hoje tem uma solução que se coadune com o poder militar ou diplomático dos EUA. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É VICE-PRESIDENTE DO WOODROW

WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS E EX-CONSELHEIRO DE

ASSUNTOS DO ORIENTE MÉDIO DO

DEPARTAMENTO DE ESTADO

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