E se o Hamas aceitasse depor as armas

Ideia inspirada na destruição do armamento químico sírio tem pouca chance de êxito; solução para crise está distante

AARON DAVID, MILLER, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2014 | 02h03

Até ouvir a entrevista no fim de semana do premiê israelense Binyamin Netanyahu na CNN e ver o domingo sangrento em que inúmeros civis palestinos e 13 soldados do Hamas morreram, achei que conseguia imaginar o desfecho da história em Gaza. Acabaria - mais ou menos -, da maneira que os dois filmes anteriores terminaram.

Em ambos, de 2008-2009 e 2012, Israel acabou com armas de longo alcance do Hamas. Mas o Hamas sobreviveu e refez o seu arsenal com armas de alcance, precisão e letalidade ainda maiores. Manteve seu controle sobre Gaza e chegou até a extrair alguns benefícios políticos no processo. Ao mesmo tempo, a população de Gaza continuou a sofrer em decorrência do bloqueio econômico implacável e a catastrófica administração do Hamas e sua obsessão com a luta armada contra Israel. Com o governo de Abdel-Fattah al-Sissi no Cairo, a intensa pressão contra a Irmandade Muçulmana também afligiu a população de Gaza.

Agora Netanyahu esboçou uma visão diferente de um fim da conflito aceitável - a "desmilitarização" de Gaza. Citou como precedente o acordo entre Rússia e EUA sobre a remoção das armas químicas da Síria, acordo que elogiou várias vezes anteriormente. Essa é uma grande declaração, tratando-se de um premiê israelense avesso a riscos que raramente expõe grandes ideias quando se trata de assuntos de guerra e paz.

Ele falou seriamente? É possível uma desmilitarização de Gaza? Essa solução ofereceria algo mais do que apenas um recesso temporário entre um confronto e outro? Sejamos claros: "desmilitarização", como Netanyahu propõe, é o mais remoto dos possíveis resultados.

Saída diferente. Isso significaria um fim das hostilidades bem diferente do desfecho de confrontos anteriores. Exigiria uma mudança fundamental na situação política de Gaza, obtida por meios diplomáticos ou militares. Diante da perda de soldados israelenses, é difícil imaginar que Netanyahu estaria disposto a isso por meio das armas. Essa meta exigiria uma reocupação da Faixa de Gaza por um período prolongado e a eliminação dos braços político e militar do Hamas. O número de vítimas entre israelenses e palestinos tornaria os custos inaceitáveis.

Além disso, alguém teria de assumir a responsabilidade de fato por Gaza. É difícil imaginar um Hamas transformado sem armas. Mas se Israel tentar desmantelar à força o Hamas como organização, com certeza teremos vítimas em massa de ambos os lados.

A desmilitarização é impossível sem uma solução diplomática pela qual o Hamas concordaria em abandonar suas armas em troca de uma mudança fundamental nas condições políticas e econômicas em Gaza, talvez uma espécie de mini Plano Marshall.

Diversos israelenses, incluindo o ex-ministro da Defesa Shaul Mofaz, e Michael Oren, ex-embaixador de Israel nas Nações Unidas, apresentaram variações dessa ideia. O modelo é o acordo russo-americano para eliminar o estoque de armas químicas do presidente sírio Bashar Assad. Um acordo de peso estabeleceria que o Egito, as Nações Unidas e a Autoridade Palestina - apoiados pela comunidade internacional, intermediariam um acordo entre o Hamas e Israel. Mofaz propõe um fundo de US$ 50 bilhões para apoiar o desenvolvimento econômico em Gaza.

Naturalmente nada disso é, nem mesmo remotamente, possível. O Hamas teria de abandonar sua razão de 35 anos de existência, deixar a luta armada, aceitar o governo da Autoridade Palestina e tornar-se um partido político sem conseguir o fim da ocupação de Israel, não mencionando o objetivo de um Estado palestino.

Alguém teria de supervisionar a área próxima da fronteira entre Israel e Gaza dentro da Faixa para garantir que o Hamas não continue a cavar túneis. Uma força internacional aceitável teria de ser organizada para identificar, reunir e destruir as armas do Hamas. Todos os outros grupos de resistência de menor porte, incluindo a Jihad Islâmica, teriam de ser desarmados. Israel, pelo menos temporariamente, teria de aceitar a realidade do governo de unidade palestina durante a transição e a comunidade internacional - numa mostra de foco e comprometimento - teria de participar com muito dinheiro e assistência técnica. Em outras palavras, vamos esquecer tudo isso.

Mesmo nos anos 90, quando existiu realmente um processo de paz e não uma encenação como a que vemos hoje, não estou certo de que decisões como essas seriam possíveis. Gostaria de ganhar um dólar toda vez que alguma alma bem-intencionada apresentou um novo Plano Marshall para Gaza ou o Oriente Médio.

O melhor que podemos esperar, talvez, é um acordo de cessar-fogo intermediado pelos egípcios que, uma vez aceito, comece a fornecer alguns benefícios econômicos para Gaza. Talvez com o Catar pagando os salários de 43.000 empregados do Hamas, o Cairo trabalhando mais para regularizar a fronteira em Rafah e os israelenses autorizando Gaza a importar e exportar produtos. O International Crisis Group propôs alguma coisa bastante similar em um recente estudo.

O Hamas, contudo, tem planos mais ambiciosos para uma mudar a situação econômica de Gaza, um porto e um aeroporto, e quer ter o mérito sobre isso. A sofrida população de Gaza merece essas melhorias e mais ainda. Mas as cruéis realidades da política do Oriente Médio provavelmente conspirarão para assegurar que eles não tenham. O Egito não vai colaborar para um milagre no Mediterrâneo quando 40% da sua própria população vive com menos de US$ 2 por dia.

Alguns israelenses gostam da ideia de dois pequenos Estados palestinos em vez de um porque isso descartaria a solução negociada de dois Estados. Mas nenhum governo israelense pode recompensar e fortalecer o Hamas quando o grupo continua apelando para destruição de Israel e se armando para o próximo confronto. E a própria disposição do Hamas para preservar a si e a sua ideologia de resistência às custas do desenvolvimento econômico de Gaza, além dos seus apelos para combater os israelenses até o último cidadão de Gaza, não o tornam, na realidade, um parceiro para uma boa governança e desenvolvimento da região.

Tratando-se de Gaza, não sonhemos com a desmilitarização ou milagres econômicos. Na verdade, esqueçamos o fim do conflito. No momento, apelar para a urgência, o mediador certo e um acordo para pôr fim à matança será bastante difícil. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É VICE-PRESIDENTE DO CENTRO INTERNACIONAL WOODROW WILSON PARA ACADÊMICOS

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