Paul Drinkwater/NBC/AP
Paul Drinkwater/NBC/AP

E se Oprah realmente decidir concorrer à presidência dos EUA

A questão é se votaríamos nela por ser rival de Trump ou por a ser a melhor solução para o país

Jennifer Rubin / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2018 | 05h00

Existem várias razões para Oprah Winfrey não se candidatar: nunca foi eleita para um cargo público, não se sabe se aguenta o vale-tudo da política, o país pode estar saturado de neófitos disputando eleições. Se a ideia é lançar uma celebridade para combater outra, é bom os democratas considerarem que Donald Trump pode não estar no páreo em 2020 – por impeachment, renúncia ou aposentadoria. Oprah, então, talvez tivesse de encarar um republicano forte e qualificado.

Nem é preciso dizer que ela é infinitamente mais qualificada que Trump: é mais decente, mais inteligente, mais informada e mais confiável. A questão é se votaríamos nela por ser rival de Trump ou por a ser a melhor solução para o país. De certo modo, Trump destruiu o caminho da política presidencial para celebridades não iniciadas.

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Ficamos mais desconfiados de candidatos não políticos. Desconfiamos até de alguns empresários muito mais qualificados que ele. O mito de que o homem de negócios tem um trunfo secreto para governar acabou: aprendemos que o sucesso em um campo não se transfere necessariamente para o outro. 

No entanto, se Oprah estiver falando sério, precisa tomar algumas providências, e começar logo. Primeiro, teria de fazer o que Trump não fez – encerrar seus negócios, cancelar acordos de franquia e comprometer-se com a causa pública. A disposição em fazer isso mostraria um contraste com Trump, sempre enrolado em conflitos financeiros. Se Oprah não conseguir, é melhor parar logo com essa conversa de presidência. 

Walter Shaub, ex-chefe do escritório de ética do governo, tuitou: “Sugiro a todo o bilionário que pensa em disputar a eleição de 2020 que faça um exame de consciência para ter certeza de que está disposto a abrir mão dos interesses financeiros para comprometer-se, antecipadamente, com a missão pública. De outro modo, será parte do problema”. 

Oprah precisa também lembrar de que governa um império filantrópico. Ao contrário de Trump, ela faz doações em massa (até mesmo para entidades no exterior) e, para não seguir as pegadas de Hillary Clinton, teria de se afastar de todos os empreendimentos em que solicita doações, evitando conflitos de interesses. Se ela conseguir superar tudo isso, terá ainda de demonstrar, ao contrário de Trump, que leva a política a sério e compreende suas complexidades.

Ela terá de viajar, participar de reuniões, definir seus objetivos e planejar como apresentá-los. Uma coisa é assumir posições genéricas, ainda que admiráveis, sobre assédio sexual ou oportunidades iguais de trabalho. Outra, muito diferente, é decidir se é a favor do Nafta, que tipo de reforma fiscal vai propor ou como vai lidar com a Coreia do Norte.

Você pode argumentar que isso é injusto, que Trump não fez nada disso. E está certo – mas é precisamente por não ter feito que ele é o pesadelo que é. Assim, o próximo não político a concorrer, seja Oprah ou qualquer outro, terá de apresentar qualificações, confirmar capacidade e exibir altos padrões éticos.

Se Oprah não estiver à altura, ela pode – como vez em 2008 – ficar no papel de fazedora de reis (ou rainhas) e ajudar a eleger um candidato tradicional. Um modo de Oprah apoiar alguém contra Trump é fazer o que ela sabe: fascinar e entreter o público. Se alguém pode explicar às massas a ameaça que Trump representa, esse alguém é Oprah. Provavelmente, sua entrada na cena política irritaria ainda mais o presidente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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