'É um equívoco falar em uma nova Guerra Fria'

Professor rejeita a ideia de que tensão crescente na Ásia leve a quadro similar ao embate bipolar; 'não há mais disputa ideológica'

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2013 | 02h07

Um dos principais historiadores da Guerra Fria discorda dos que veem na escalada de tensão entre potências na Ásia, desde que a China anunciou sua nova Zona de Defesa Aérea, no mês passado, uma espécie de reedição do confronto bipolar que definiu a segunda metade do século 20. Para Robert McMahon, professor da Universidade de Ohio, não há sentido em falar numa "nova Guerra Fria na Ásia", pois falta ao mundo de hoje um componente essencial que existia até o colapso da URSS: o embate entre duas ideologias antagônicas, capitalismo e socialismo.

"Sem a luta em torno das ideias, temos apenas o velho jogo da disputa geopolítica pelo poder, como o que ocorre agora na Ásia", afirma o professor. "Mas Pequim ou Moscou não representam alternativa ao capitalismo de livre mercado". McMahon defende que a ascensão chinesa é o "maior desafio" à ordem internacional desde o fim do mundo bipolar. A seguir, a entrevista ao Estado.

Demonstrações de força que vimos recentemente na Ásia, sobretudo entre China e EUA, fizeram alguns analistas compararem a situação à Guerra Fria. Como o sr. vê esse tipo de paralelo?

Em primeiro lugar, agora não existe mais a dimensão ideológica que havia durante a Guerra Fria. Não temos uma luta em torno de ideias sobre como organizar a sociedade - China ou Rússia não representam uma alternativa ao capitalismo de livre mercado. A Guerra Fria foi, de um lado, uma luta geopolítica tradicional entre potências, mas, do outro, um enfrentamento ideológico. A combinação dessas duas coisas conferiu-lhe uma intensidade e uma periculosidade particulares. Essa perda da dimensão ideológica é provavelmente algo bom, pois faz do mundo um lugar menos perigoso. Mas a luta pelo poder entre os Estados persiste. O verdadeiro desafio da próxima geração é descobrir como lidar com a ascensão chinesa: será que Pequim será "absorvida" pela atual ordem internacional ou ela representará uma ameaça às atuais instituições?

O sr. considera a China uma superpotência, como os EUA são hoje e a URSS foi no passado?

A China tem uma combinação de poder econômico e militar que a faz a segunda maior potência do mundo hoje. Ela não tem o alcance global dos EUA ainda, nem um conjunto de alianças que lhe permita projetar seu poder em todas as partes do mundo. Aliás, vejo que a China parece não ter muito interesse em vários lugares do globo - como América Latina, África e o Oriente Médio - fora do âmbito econômico e do acesso a recursos naturais. Quando vemos problemas como o programa nuclear iraniano ou o processo de paz árabe-israelense, os chineses parecem permanecer um tanto distantes politicamente, enquanto seguem tentando assegurar seus interesses econômicos. Pequim é uma superpotência, mas não em todas as dimensões desse conceito.

Há ainda assuntos não resolvidos da Guerra Fria, como a divisão entre as duas Coreias ou Cuba. Como essa herança pesa sobre o mundo de hoje?

Ambos os casos, as Coreias e Cuba, são temas da Guerra Fria que continuaram bem depois do fim do mundo bipolar. O problema norte-coreano é o mais complicado e não vejo nenhuma solução para ele no horizonte. Mas não é apenas um tema da Guerra Fria: ele tem a ver também com a ocupação japonesa e a divisão do país após a 2.ª Guerra. Ao final, a Coreia se tornou uma vítima da Guerra Fria, mas a historiografia de hoje entende a Guerra da Coreia como uma interposição de guerra civil e a luta entre superpotências. Cuba, do outro lado, é uma relíquia da Guerra Fria e a situação perdura também em razão da política interna dos EUA. Não creio que esse quadro se mantenha por muito tempo, sobretudo tendo em vista a idade avançada dos irmãos Castro.

Embora assustadora, a Guerra Fria parecia muito mais previsível do que a política internacional de hoje. O sr. concorda?

Sim e isso atingiu o auge nos anos 70, quando EUA e URSS estavam dispostos a manter o status quo. A distensão entre as superpotências, entretanto, não durou muito e a Guerra Fria entrou em uma fase de grande intensidade nos anos 80, antes de se esgotar completamente. Mas, sim, sempre houve uma previsibilidade nos eventos internacionais que não existe mais hoje em dia. Atualmente, as ameaças à ordem variam da mudança climática ao terror, mas não há nenhum Estado que desafia o status quo. O único que pode fazer isso, no futuro, é a China. Mas, ao contrário dos soviéticos, que tentaram criar uma economia separada, os chineses aderiram ao capitalismo global.

Há uma percepção de que os EUA estão recuando na cena internacional e cada vez menos dispostos a se envolverem em problemas longe de casa. Qual é a opinião do sr.?

Acho que existe um certo exagero e, curiosamente, nos anos 80 havia uma percepção semelhante quanto ao "retraimento político" americano. Em 1987 foi escrito o clássico Ascensão e queda das grandes potências, do historiador Paul Kennedy. À época, o temor era que o Japão ultrapassaria os Estados Unidos. Haverá um recuo no orçamento de Defesa americano, e acho isso altamente positivo, e por um longo tempo Washington evitará se envolver militarmente em problemas longínquos, como ocorreu no Iraque, o que é ainda melhor. Os Estados Unidos serão uma superpotência mais humilde e menos propensa a ações unilaterais, mas claramente os americanos continuarão a assumir um papel de liderança em temas como o programa nuclear iraniano ou a paz entre palestinos e israelenses.

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