'É uma questão de liberdade, não de política'

O presidente da Associated Press, Gary Pruitt, disse que não quer transformar o caso da escuta em uma batalha judicial ou política, mas apenas que o Departamento de Justiça "reconheça seu erro". A seguir, trechos da conversa com Pruitt, que visitou a sede do Estado ontem.

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2013 | 02h05

Como o sr. soube do caso?

Só na sexta-feira à tarde descobri que o Departamento de Justiça tinha secretamente obtido os registros telefônicos, por dois meses, em uma ampla devassa. Celulares, linhas residenciais, escritórios. Cem jornalistas podem ter usado esses números.

Qual foi a reação imediata?

Entendemos que isso foi exagerado e, pela lei, eles deveriam ter vindo conversar conosco antes. A única exceção para não falar antes com a AP seria se eles acreditassem que esse contato poderia comprometer a investigação - o que não é absolutamente o caso. Nem mesmo tínhamos esses registros, pois eles ficam com a empresa telefônica que presta serviço para nós. Foi algo ilegal, é contra a liberdade de imprensa.

E o que ocorrerá agora?

Não sabemos ainda qual será o próximo passo, mas esperamos que, no final, não tenhamos de recorrer à Justiça. Quero que eles reconheçam que essa história foi mal conduzida, devolvendo os registros telefônicos. E o mais importante é ter certeza de que isso nunca mais ocorrerá.

A investigação contra a AP parece ser parte de um esforço maior do governo americano contra vazamentos a jornalistas. Não?

O governo Obama tem sido muito mais agressivo contra fontes que vazam informações sigilosas do que qualquer outra administração americana. Isso é equivocado, pois prejudica principalmente o público, que confia no trabalho de controle da mídia sobre o governo. Nós, da AP, não vamos ficar intimidados por esse tipo de ação. Mas fontes internas que queiram relatar abusos talvez fiquem.

Causou surpresa ao sr. o fato de a Secretaria de Justiça ter defendido a vigilância sobre a AP?

Entendo que Holder não tenha se envolvido pessoalmente nesse caso. Mas não entendo o presidente, que, por meio de um porta-voz, disse que seria inapropriado envolver-se no caso. Quando você é o presidente e descobre que seu governo provavelmente violou leis e a Constituição, é preciso se envolver.

A questão virou política, então?

Para a AP, não é uma questão política. Queremos deixar isso no nível jornalístico, da lei e da liberdade de expressão.

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