Ric Feld/AP
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Ebenezer: Igreja de Martin Luther King Jr. faz história novamente, dessa vez, no Senado

Reverendo Raphael Warnock, democrata que adota uma plataforma de justiça social, enfrenta a atual senadora republicana Kelly Loeffler em segundo turno na Geórgia

DeNeen L. Brown, The Washington Post

05 de janeiro de 2021 | 07h00

ATLANTA - Em 4 de fevereiro de 1968, o reverendo Martin Luther King Jr. subiu ao púlpito da Igreja Batista Ebenezer de Atlanta, onde cresceu ouvindo seu pai pregar contra a injustiça social em um mundo segregado.

Como líder do movimento pelos direitos civis, King frequentemente se afastava da histórica igreja negra liderada pelo pai. Mas ele tentava voltar à Ebenezer para os cultos do primeiro e terceiro domingos.

Naquele momento, exatamente dois meses antes de seu assassinato, ele apresentava um sermão com uma mensagem estranhamente profética. Em The Drum Major Instinct (O instinto do líder da marcha, em tradução livre), King Jr. - há muito o alvo de ameaças de morte e uma tentativa anterior de assassinato - refletia sobre como ele queria ser lembrado quando morresse.

Naquela manhã de domingo, as palavras de King Jr. tornaram-se poderosas em um ritmo estrondoso: "Se algum de vocês estiver por perto quando eu morrer, não quero um funeral longo. E se vocês conseguirem alguém para fazer o discurso fúnebre, diga para não falarem por muito tempo...Diga-lhes para não mencionar que eu tenho um Prêmio Nobel da Paz - isso não é importante."

"Deixem isso claro", seu pai costumava gritar, pontuando o sermão com a tradição de falar algo e escutar a resposta da igreja negra.

"Eu quero que vocês digam que eu tentei amar e servir a humanidade. Sim, se vocês quiserem dizer que eu era um líder da marcha, digam que eu era um líder da marcha pela justiça."

Agora, um pastor diferente comanda o púlpito em Ebenezer: o reverendo Raphael Warnock, que está concorrendo a uma vaga no Senado dos EUA. Warnock, um democrata que adota uma plataforma de justiça social na tradição dos pastores de Ebenezer, enfrenta a atual senadora republicana Kelly Loeffler na terça-feira em um segundo turno na Geórgia que pode decidir o controle do Senado.

"Alguém perguntou por que um pastor acha que deveria servir no Senado", disse Warnock em um vídeo de campanha. "Bem, eu comprometi minha vida inteira a servir e ajudar as pessoas a alcançarem seu maior potencial. Sempre pensei que meu impacto não para na porta da igreja. Na verdade, ali é onde ele começa."

A campanha de Warnock colocou Ebenezer de volta ao centro das atenções. A igreja de 134 anos, fundada em 1886 por negros anteriormente escravizados, sempre foi um eixo central para a luta pela liberdade dos negros. Seu papel em moldar Martin Luther King Jr. e servir como uma plataforma para suas ideias a torna uma das igrejas mais importantes da história dos EUA.

Se Warnock, 51 anos, vencer o segundo turno da Geórgia, "ele será o primeiro representante no Congresso do sul desde a Reconstrução a professar explicitamente a tradição espiritual do evangelho social tal como imaginado e projetado por pessoas de ascendência africana", escreveu o reverendo Otis Moss III, pastor sênior da Trinity United Church of Christ em Chicago, em um artigo para o Washington Post.

Mas seus sermões têm sido atacados por Kelly, que o denuncia como radical.

Warnock é apenas o quinto pastor sênior na história de Ebenezer, disse o historiador da igreja Benjamin Ridgeway. O segundo foi o reverendo Adam Daniel Williams, avô materno de Martin Luther King Jr.

"Williams era um pastor enérgico e um grande pregador", disse Ridgeway. "Ele pregava um evangelho de justiça social. Ele foi responsável por uma das primeiras escolas de ensino médio afro-americanas em Atlanta. Ele e alguns outros pastores foram fundamentais na fundação do comitê de Atlanta da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês). Ele realmente levou Ebenezer ao seu prestígio em Atlanta."

Williams aumentou o número de frequentadores de Ebenezer e acabou mudando a congregação para um novo prédio na Avenida Auburn em 1922.

Ele também contratou o reverendo Martin Luther King como pastor assistente em Ebenezer, onde se casou com a filha de seu chefe, Alberta Christine Williams, no dia de Ação de Graças em 1926, de acordo com o King Institute da Universidade Stanford. Quando o reverendo Williams morreu em 1931, King tornou-se o pastor de Ebenezer.

Ele deu continuidade ao ministério de justiça social de Ebenezer, lutando por salários iguais para os professores e persuadindo o Departamento de Polícia de Atlanta a contratar oficiais negros.

"King não só se envolveu em atos pessoais de dissidência política, como pegar o elevador 'apenas para brancos' da prefeitura para chegar ao cartório de eleitores", segundo o King Institute, "mas também foi um líder local de organizações como a Liga Cívica e Política de Atlanta e a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor".

Na década de 1930, King liderou uma marcha na prefeitura de Atlanta "para protestar contra bebedouros diferentes para cidadãos negros e brancos", Isaac Newton Farris Jr., neto de King, escreveu em uma introdução em Daddy King: An Autobiografia (Papai King: uma autobiografia, em tradução livre).

Em 1939, King organizou uma "campanha massiva de recenseamento eleitoral iniciada por uma marcha à Câmara Municipal". Durante um comício em Ebenezer, "King se referiu a seu próprio passado e incentivou os negros a uma maior militância", segundo o King Institute. "'Não vou mais arar a terra com mulas', gritou ele. 'Nunca mais sairei da estrada para deixar os brancos passarem.'"

King era pastor em Ebenezer enquanto sua esposa, a quem ele chamava de "Bunch", dirigia o ministério musical de Ebenezer. Seus filhos cresceram na igreja. Foi ali que um jovem Martin Luther King Jr. frequentou a escola dominical. E onde, em 1947, King Jr. pregou seu primeiro sermão e foi ordenado pastor.

Quando King Jr. tornou-se pastor da Igreja Batista da Avenida Dexter em Montgomery, Alabama, em 1954, os frequentadores da Ebenezer viajaram mais de 257 quilômetros para assistir ao culto de sua posse. Ele se tornou pastor assistente em Ebenezer em 1960, de acordo com a história da igreja.

"Quando Martin Luther King Jr. estava no meio do movimento pelos direitos civis, ele ainda era um pastor muito ativo em Ebenezer. Realizava casamentos, conduzia funerais e batizava", disse Ridgeway. "Ele cumpria seus deveres pastorais. Tentava estar presente no primeiro e no terceiro domingos de cada mês. No Domingo Sangrento em Selma, Alabama, Martin Luther King Jr. estava pregando em Ebenezer."

King Jr. permaneceu como pastor assistente de Ebenezer até ser morto em 1968. Sua mãe e seu pai estavam em Ebenezer quando souberam do assassinato de seu filho mais velho.

"Ebenezer é uma igreja movimentada e estávamos lá quase todas as noites para uma atividade programada", escreveu o pai de King Jr. em sua autobiografia. "Quando chegamos à igreja, Bunch e eu encontramos o trajeto de nosso carro até o estacionamento próximo à igreja bloqueado por um motorista que buzinava o tempo todo."

Carros pararam ao longo da Avenida Auburn. King correu para a igreja e subiu as escadas para seu escritório. Ele ligou o rádio.

"M.L. tinha sido baleado, dizia um locutor, e estava com um ferimento muito sério", escreveu ele. “O choro era silencioso enquanto esperávamos por notícias mais específicas. Comecei a orar, preenchendo o escritório com minhas palavras. Logo, mais notícias foram recebidas por uma estação de rádio local que indicava que M.L. estava ferido, mas ainda vivo. Outro relato chegou dizendo que a bala o atingira no ombro e eu me ouvi pedindo: 'Senhor, deixe-o viver, deixe-o viver!' "

Mas então o repórter anunciou: "Martin Luther King Jr. foi morto a tiros enquanto estava em uma sacada no Lorraine Motel, em Memphis."

King voltou-se para a esposa: "Nenhum de nós conseguia dizer nada. Tínhamos esperado, agonizando durante as noites e dias sem dormir, assustados por quase qualquer som, incapazes de comer, simplesmente olhando para as nossas refeições. De repente, em alguns segundos de rádio, tudo acabou. Meu primeiro filho, cujo nascimento me trouxe tanta alegria que eu pulei no corredor fora da sala onde ele nasceu e toquei o teto - a criança, o estudioso, o pregador, o menino cantando e sorrindo, o filho - tudo se foi. E Ebenezer estava tão silenciosa; por toda a igreja, enquanto a equipe ficava sabendo do que havia acontecido, as lágrimas corriam, mas quase completamente em silêncio. "

O funeral de King Jr. foi realizado em Ebenezer em 9 de abril de 1968.

Mais de seis anos depois, em 30 de junho de 1974, sua mãe, Alberta, foi morta a tiros enquanto tocava o "Pai Nosso" no órgão em Ebenezer. Um diácono da igreja de 69 anos, Edward Boykin, também foi morto - cada um assassinado a tiros por Marcus Chenault, um homem de 21 anos de Ohio que gritava: "Todos os cristãos são meus inimigos", segundo o King Institute. "Alberta Williams King morreu mais tarde naquele dia, aos 70 anos."

Após o funeral de Alberta, King reuniu seus netos. "Daddy King já havia perdido Martin para a bala de um assassino e Alfred Daniel (seu irmão mais novo), conhecido como AD, em um acidente de afogamento. Perder sua companheira de vida após essas outras tragédias poderia ter acabado com um homem mais fraco. Mas não Daddy King", Andrew Young, ex-embaixador dos EUA nas Nações Unidas, escreveu na introdução de Daddy King.

Os netos perguntaram "Por que Deus deixou isso acontecer?" com sua avó, a quem chamavam de "Big Mama". “Por que Deus deixou aquele homem louco matar Big Mama?”

"Essas eram perguntas difíceis, mas Daddy King não vacilou em sua fé. Ele deixou seus netos expressarem sua amargura e chorarem suas lágrimas. Seu conselho para eles, entretanto, foi claro e inequívoco. 'Eu sei que é difícil de entender, mas nós temos que agradecer pelo que nos restou. Deus quer que amemos uns aos outros e não odiemos.'" / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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