Ebola deixa milhares de crianças órfãs e rejeitadas ao destruir famílias

Ebola deixa milhares de crianças órfãs e rejeitadas ao destruir famílias

Cerca de 3.700 crianças na África Ocidental perderam um ou os dois pais vitimados pelo Ebola

DAVID LEWIS E STE, REUTERS

30 de setembro de 2014 | 18h02

Dois dias depois de sua mãe morrer em uma clínica de Monróvia, capital da Libéria, por causa do Ebola no mês passado, John, de 4 anos, foi colocado em um lar adotivo para ser monitorado pela doença.

O novo guardião de John, um sobrevivente do Ebola, era imune ao vírus letal e ficou feliz em cuidar do menino. Mas quando os vizinhos souberam do plano, recusaram-se a permitir que fossem adiante, com medo de que o garoto pudesse também infectá-los.

O caso de John ilustra as agruras sofridas por cerca de 3.700 crianças na África Ocidental que perderam um ou os dois pais vitimados pelo Ebola, e enfrentam agora o estigma e o abandono, de acordo com a Unicef. O número pode dobrar até meados de outubro, disse agência da ONU para infância.

As crianças são apenas 15 por cento das 3.091 mortes pelo Ebola, sobretudo na Libéria, Serra Leoa e Guiné, taxa abaixo da proporção que ocupam na população, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mas o número esconde um impacto mais amplo causado pela doença sobre as crianças. O medo do contágio faz com que muitos órfãos, mesmo aqueles que testam negativo, sejam abandonados.

A natureza perigosa da doença obriga os trabalhadores de ajuda humanitária a repensar o modo como cuidam dos pequenos.

"Em algumas comunidades, o medo ao redor do Ebola está se tornando mais forte do que os laços familiares", disse o diretor regional da Unicef para a África Ocidental e Central, Manuel Fontaine.

"Essas crianças precisam urgentemente de atenção e apoio especiais; ainda assim, muitas se sentem rejeitadas e abandonadas", acrescentou ele.

Enquanto especialistas em doenças alertam sobre o potencial de dezenas ou até mesmo centenas de milhares de pessoas morrerem por causa do Ebola antes de o vírus ser debelado, trabalhadores de ajuda humanitária chegam a comparar a situação aos desafios enfrentados durante as guerras civis em Serra Leoa e Libéria, nos anos 1990.

A ameaça de infecção faz com que as mesmas respostas usadas durante o período de conflito não possam simplesmente ser repetidas, já que agora as crianças órfãs precisam também ser monitoradas por causa da doença.

"Você não pode simplesmente montar um centro e colocar 400 crianças lá, como costumávamos fazer. É muito mais complicado do que isso", disse o diretor regional de proteção à criança da Unicef, Andrew Brooks, que trabalhou na região durante os anos de guerra.

A Unicef diz ter recebido apenas 25 por cento dos 200 milhões de dólares que julga necessários para ajudar as crianças e suas famílias afetadas pela crise. Fontaine apelou por "mais coragem, mais criatividade e muito mais recursos."

(Reportagem adicional de Fabien Offner em Macenta, na Guiné, e Josephus Olu-Mammah em Freetown)

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