Economia da Venezuela está paralisada

Queda contínua nos preços internacionais do petróleo agrava a situação interna do país liderado por Nicolás Maduro

Nick Miroff, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 06h55

A Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, enfrenta um dos mais dolorosos – e previsíveis – colapsos econômicos internacionais. As exportações de petróleo representam 96% das receitas comerciais, mas, esta semana, com o preço do petróleo pesado caindo para US$ 24 por barril, o país se encontra perigosamente perto do abismo.

Além disso, o custo de produção de um barril de petróleo é de aproximadamente US$ 20 para o monopólio da estatal venezuelana PDVSA, portanto, segundo analistas independentes, qualquer coisa abaixo desse patamar acaba com os poucos centavos de lucratividade do setor, essencialmente o único exportador do país. “É o desastre para a Venezuela, em todos os sentidos”, disse Francisco Monaldi, economista venezuelano do Instituto Baker de Política Pública da Rice University.

É o mesmo desafio com que se defrontam outros grandes exportadores como Nigéria, Rússia e Iraque, que também dependem consideravelmente das vendas de petróleo. Na Venezuela, que já registra a maior inflação mundial, no entanto, o sofrimento poderá ser pior.

Até que ponto chegará essa situação é algo que permanece um mistério, porque o governo socialista do presidente Nicolás Maduro não divulga estatísticas econômicas completas há anos. Com um Legislativo agora desfavorável, os venezuelanos esperam provavelmente que Maduro adote um tom mais conciliador e concorde com algumas medidas de aperto, ou que imprima um rumo mais radical ao país, como sugeriu nas últimas semanas, quando acusava os adversários de travarem uma “guerra econômica”.

Dólar. A intransigente política de controle cambial adotada por Hugo Chávez, seu mentor, e seguida por Maduro, deixou os setores produtivos da Venezuela em condições trágicas e seus supermercados, vazios. O país importa a maior parte dos alimentos e dos bens de consumo, mas, já há dois anos, quando o petróleo vinha sendo vendido a US$ 90 por barril, encontrava dificuldades para manter em estoque papel higiênico e fraldas. Desde então, o seu governo queimou praticamente a totalidade de suas reservas em moedas estrangeiras e está reduzido a mendigar empréstimos de emergência à China para continuar financiando os generosos programas sociais que tornaram Chávez tão popular.

A probabilidade de calote, no entanto, cresce à medida que as receitas das exportações de petróleo baixam cada vez mais, sem que seja possível enxergar o fundo do poço.

Os economistas do Fundo Monetário Internacional preveem para este ano uma contração de 10% do PIB venezuelano. A inflação anual deve chegar a 150%. Maduro terá de conseguir US$ 16 bilhões para o pagamento das dívidas até o fim de 2016 e as reservas da Venezuela, na maior parte em ouro, totalizam cerca de US$ 15 bilhões.

Viabilidade. O momento crítico chegará se a Venezuela começar a perder dinheiro bombeando o seu petróleo. Os gerentes da PDVSA insistem em afirmar que os custos de extração são os menores do mundo, menos de US$ 10 por barril, mas, segundo Monaldi, isso não leva em conta o transporte até as refinarias, os royalties pagos aos sócios no exterior e outros fatores como a importação de petróleo leve para misturar ao produto venezuelano.

“Muito provavelmente, a PDVSA ainda tem um fluxo de caixa positivo na maior parte da produção, mas, se acrescentarmos todos os outros custos, ela deverá chegar perto de zero nos lucros operacionais”, afirmou o economista. O dado real é mais próximo de US$ 20 por barril, segundo Monaldi e outros analistas do setor. A Venezuela foi a 12ª maior produtora de petróleo em 2014, segundo a Agência de Informações sobre Energia dos Estados Unidos.

Embora possa se gabar das maiores reservas comprovadas do mundo, os maiores depósitos do país se encontram numa área conhecida como o Cinturão do Orinoco, que exige consideráveis investimentos estrangeiros para ser desenvolvida, uma vez que o petróleo ali é muito denso, semelhante ao alcatrão – tornando seu transporte muito dispendioso.

“Consequentemente, não haverá investimentos privados no Orinoco e a produção da PDVSA tenderá a estagnar ou parar”, concluiu o especialista. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

NICK MIROFF É JORNALISTA DO THE WASHINGTON POST

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