Economia de Evo não é sustentável

Para analistas, falta de segurança jurídica afasta investimentos de longo prazo para setores-chave do país

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 00h00

Apesar dos últimos indicadores positivos, a política estatista do presidente boliviano, Evo Morales, põe em risco a frágil estabilidade econômica do país. A advertência é de analistas para os quais a falta de segurança jurídica causada pela gestão econômica do governo de Evo afugenta investimentos sustentáveis. Para eles, a aparente prosperidade atual está diretamente relacionada à alta dos preços internacionais de gás e dos minerais - que provoca a alta concentração de reservas internacionais -, que podem não se manter em longo prazo.A Bolívia segue como o país mais pobre da América do Sul, com 60% da população de 9,1 milhões de habitantes vivendo abaixo da linha de pobreza. Em entrevista ao jornal The New York Times, Evo afirmou que as reservas cambiais do país mais do que dobraram desde sua posse, em janeiro do ano passado, atingindo cerca de US$ 4 bilhões. No entanto, Roberto Laserna, economista do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social, em Cochabamba, afirma que a atual estabilidade do país não representa crescimento econômico, uma vez que o PIB boliviano não cresceu na mesma proporção."O preço dos minerais que a Bolívia exporta subiu nos últimos anos, o que causou um superávit comercial e fiscal", disse Laserna, por telefone, ao Estado. "No entanto, essa situação está condicionada ao funcionamento dos mercados nos países que importam matéria-prima boliviana."Alejandro Mercado, diretor do Instituto de Pesquisas Socioeconômicas da Universidade Católica Boliviana, acredita que a política econômica de Evo é ineficiente e, em parte, responsável pelo crescimento econômico estar abaixo do esperado. "Estima-se que o crescimento anual fique em torno de 3%, o que é ruim, uma vez que nossa meta era de 6%."Para Mercado, Evo erra por ter uma concepção equivocada de como funciona a economia. "O que vemos é um governo defensor de um Estado grande", afirma. "Dessa maneira, não há segurança jurídica que atraia investidores para a Bolívia." Mercado afirma que a visão socialista de Evo é ruim para a Bolívia por ser retrógrada. "Nesse momento, a economia deveria estar muito bem, mas não está por causa da aversão do governo ao setor privado."Os dois analistas bolivianos acreditam que a política de nacionalizações de Evo foram prejudiciais para o país. "Depois da nacionalização dos hidrocarbonetos, a Bolívia começou a importar mais energia do que antes", explica Mercado.Laserna acredita que a estatização das empresas energéticas só apresentou algum resultado logo após serem anunciadas. "Em curto prazo, ela permitiu ao governo ter um superávit importante", explica. Mas isso comprometeu o nível de produção desses setores. "A economia está mal e isso fica claro quando observamos o nível de crescimento econômico."NÚMEROS6 por cento era a meta de crescimento econômico para o ano de 20073 por cento é a previsão da taxa de crescimento para este ano60 por cento da população boliviana vive abaixo da linha de pobreza

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.