Economia deve manter crescimento

Tragédia pouco afetou agronegócio, motor da região castigada; aumento do PIB em 2007 é estimado em 7,5%

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 00h00

A transformação dos desertos do Departamento de Ica em lucrativas fazendas dedicadas ao agronegócio nos últimos anos transformou essa região em vitrine da recente pujança econômica peruana. É natural, portanto, que a visão das suas principais cidades - Ica, Pisco e Chincha - reduzidas a escombros pelo terremoto da quarta-feira cause preocupação sobre as possíveis repercussões da tragédia na economia do país. De acordo com analistas, no entanto, apesar do grande impacto regional, o desastre não deve afetar a saúde da economia peruana - que deve crescer este ano invejáveis 7,5%.Os motivos são muitos. "Primeiro, porque apesar da sua recente notoriedade, a região afetada pelo tremor representa só 3,5% do PIB do Peru", explicou ao Estado o economista Fritz du Bois, do Instituto Peruano de Economia. "Depois porque, ao menos até agora, não há notícias de que o tremor tenha causado grandes estragos na infra-estrutura produtiva local, que se concentra majoritariamente no campo". Com a ajuda de sofisticados sistemas de irrigação, Ica hoje cultiva frutas cítricas, algodão, alcachofra, pimentão, abacate e aspargos - produtos que são catalogados, embalados e até congelados em instalações certificadas por técnicos internacionais antes de serem exportados. O departamento também possui uma sofisticada indústria vinícula que fez a sua fama como o berço do pisco, a bebida nacional do Peru. Fora isso, tem minas de minério de ferro e fábricas de farinha de pescado. "O suprimento desses produtos deve ter problemas apenas no curto prazo - por causa dos danos às estradas pelas quais é feito o seu escoamento - e é possível que haja falta temporária de mão-de-obra na região já que muitos trabalhadores terão de se dedicar a reerguer as cidades", diz José Oscátegui, economista da Pontifícia Universidade Católica do Peru. Outra das raras boas notícias envolvendo o desastre é que, mesmo sem contar a ajuda internacional, os cofres do governo peruano nunca estiveram tão bem preparados para dar início a reconstrução da região afetada. "Dinheiro não falta, porque após anos de déficit fiscal, hoje temos superávit", diz Elmer Cuba, da consultoria Macroconsult, em Lima. "A questão é saber se o governo saberá coordenar os esforços de reconstrução com a rapidez e eficiência necessárias." Graças a uma fórmula que combina abertura econômica com responsabilidade fiscal - e um belo impulso dos preços internacionais de commodities agrícolas e minérios - o Peru acumula 74 meses consecutivos de crescimento econômico. As exportações triplicaram desde 2003 e as reservas internacionais alcançam US$ 20 bilhões. O grande desafio do país no momento é fazer com que essa prosperidade se traduza em ganhos também para os mais pobres. Metade da população do país ainda vive abaixo da linha da pobreza e 60% dos trabalhadores estão na economia informal. Essa é uma realidade que os bairros pobres destruídos nas cidades de Pisco,Ica e Chincha não deixam esquecer. "O próximo ano será de grandes esforços para a recuperação das cidades afetadas", diz Cuba. "O fluxo de recursos para essas áreas urbanas, por outro lado, também deverá gerar empregos e abrir novas oportunidades para aqueles que ainda não haviam se beneficiado do ciclo de crescimento."

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