Economia e imigrantes devem dominar 'Estado da União' nos EUA

Em esperado discurso para o Congresso, presidente Barack Obama deve pressionar por reforma migratória e medidas para incrementar competitividade do pais.

Pablo Uchoa, BBC

12 de fevereiro de 2013 | 16h00

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deve reiterar na noite desta terça-feira a sua determinação de abrir as portas da legalização para todos os 11 milhões de imigrantes indocumentados que vivem no país, na expectativa de fortalecer a classe média e criar oportunidades econômicas em meio à crise.

No seu esperado discurso sobre o Estado da União, feito anualmente no Congresso, Obama deve pressionar por uma reforma das leis de imigração que faça do país um "imã" de atração de talentos e impulsione a criação de empregos, além de recompensar os que chegarem no país apostando em "trabalho duro" para perseguir o sonho americano.

Essas são palavras-chave que o presidente tem usado em suas aparições públicas, e que, segundo a imprensa americana, deve repetir quando se dirigir ao Congresso às 21h desta terça-feira (0h de quarta-feira de Brasília).

Mas analistas esperam que a maior parte do discurso de Obama se atenha à economia, que voltou a patinar nos últimos três meses do ano.

Em declarações anteriores, Obama já havia mencionado a estratégia de apostar na educação e em tecnologias verdes para preparar a mão-de-obra e a estrutura produtiva para o futuro, respectivamente. Essas ideias devem fazer parte da exposição econômica do presidente.

Além disso, o democrata deve reforçar o pedido para que o Congresso encontre maneiras de equilibrar o déficit americano no longo prazo, por meio de uma política de mudanças na estrutura tributária e cortes cuidadosos nos programas sociais e na seguridade social.

Também é esperado que Obama enfatize a necessidade de uma legislação mais rigorosa para controlar a compra e o porte de armas, um assunto que tem sido alvo de um debate inédito desde o massacre na escola primária de Sandy Hook, em dezembro do ano passado.

Horas antes do discurso, uma fonte da Casa Branca disse à BBC que o presidente anunciará ainda que, até esta mesma época do ano que vem, 34 mil soldados americanos serão retirados do Afeganistão, reduzindo pela metade o número de soldados dos EUA atualmente servindo no país asiático.

Em busca de legado

Previsto na Constituição americana, o discurso sobre o Estado da União é o momento em que o presidente informa o Congresso sobre a situação do país e propõe medidas que considera mais urgentes. Foi feito pela primeira vez por Thomas Jefferson, eleito em 1800.

Mas diferente do discurso de posse, feito com os olhos na história, o discurso para o Congresso tende a se concentrar muito mais no pragmatismo de conceber e promover políticas adequadas para os desafios do momento.

"O discurso de posse é concebido para inspirar", disse à BBC Brasil Allan Lichtman, professor de História da American University. "Já o discurso sobre o Estado da União fala de políticas. Se quiser descrevê-lo em três palavras, seriam 'chato, chato, chato'", explicou.

"Você tende a ter uma lista de supermercado de propostas políticas, em vez de grandes temas dramáticos ou retórica de inspiração."

Entretanto, lembra Lichtman, "muitas vezes as políticas são importantes".

Nos anos 1820, James Monroe usou o seu discurso sobre o Estado da União para expôr a Doutrina Monroe, fundamental para estabelecer a hegemonia americana sobre o hemisfério.

Já Roosevelt optou por alertar os americanos após a sua eleição, em 1940, para o papel que os EUA teriam no apoio às vítimas do Nazismo e, futuramente, na guerra em si.

Mais recentemente, George W. Bush criou para o mundo o termo "eixo do mal", que aprofundou o antagonismo entre os EUA e a Coreia do Norte, o Irã e o Iraque (de Saddam Hussein).

De certa forma, o discurso é o início da transformação descrita pelo ex-governador democrata de Nova York Mario Cuomo, para quem os candidatos "fazem campanha em poesia" e, se eleitos, "governam em prosa".

A lógica, portanto, é que Obama aproveite o momento político a seu favor para tentar impulsionar neste segundo e último mandato qual será seu legado como presidente.

"Apesar de ter conquistado algumas coisas no seu primeiro mandato, como a reforma da saúde, que passou ao largo de muitos presidentes por muitas décadas, o legado de Barack Obama ainda está incompleto", avalia Lichtman.

"Ainda há muito o que fazer em termos de política doméstica e externa."

Economia e imigração

Uma pesquisa de opinião do instituto Pew Research revela que a principal preocupação dos americanos é hoje a economia, mais do que a reforma das leis de imigração, a mudança climática ou o controle das armas.

Para Audrey Singer, pesquisadora do instituto Brookings, todos esses temas devem fazer parte da lista de prioridades que Obama listará no seu discurso.

Sobre o assunto mais importante para os imigrantes nos EUA, diz ela, os pontos de discórdia entre o presidente e a oposição republicana são a necessidade de mais medidas para reforçar as fronteiras e a inclusão ou não de todos os imigrantes indocumentados nos EUA em uma legislação que os leve à legalização.

Os republicanos sugerem que deve haver um "gatilho" na segurança das fronteiras antes de qualquer legalização de indocumentados, enquanto o presidente alega que as fronteiras americanas nunca estiveram tão seguras quanto hoje.

Além disso, Obama considera que uma reforma migratória deve partir do princípio da legalização para todos. Os republicanos discordam.

Após o discurso sobre o Estado da União, o senador pela Flórida Marco Rúbio, um dos expoentes do partido, dará a resposta do partido a Obama.

Na área econômica, os desafios foram resumidos por um relatório do Escritório Orçamentário do Congresso, encarregado de fazer projeções econômicas, no início deste mês.

O órgão projetou que o desemprego, que interrompeu a sua trajetória de queda no ano passado, deve ficar acima de 7,5% durante todo o ano de 2014 (em janeiro a taxa ficou em 7,9%). Seria, assim, o sexto ano consecutivo acima deste patamar, o período mais longo em 70 anos.

O déficit americano deve, por outro lado, cair para US$ 845 bilhões (R$ 1,7 trilhão) ou 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, até atingir 2,4% do PIB em 2015 - mas subirá a partir dos anos seguintes, por causa dos gastos provenientes do envelhecimento da população, o aumento dos custos de saúde, os subsídios federais para a saúde e os juros da dívida. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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