Economia em crise deu força ao PRI mexicano

"O PRI voltou", afirmava a manchete do jornal El Universal na segunda-feira, um dia depois de o Partido Revolucionário Institucional ter vencido com folga as eleições parlamentares. Mas a história toda poderia ser resumida numa foto que retratava o ex-presidente Carlos Salinas de Gortari saindo da cabine depois de votar. Ele não estava concorrendo a nenhum cargo, mas a foto parecia perguntar por que os mexicanos estavam devolvendo ao poder um partido identificado com Salinas, que deixou a presidência há 15 anos em meio a escândalos políticos e ao caos econômico. Seu partido, o PRI, governou o México com uma mistura de apadrinhamento político e corrupção durante mais de 70 anos até ser derrotado nas eleições presidenciais de 2000. Mas há uma semana, o PRI conquistou o controle efetivo da Câmara dos Deputados e de uma grande parcela das maiores cidades do México, além de ter vencido cinco dentre as seis eleições realizadas para governador. Os resultados foram um golpe para o presidente Felipe Calderón, cujo conservador Partido de Ação Nacional (PAN), não foi capaz de manter nem mesmo seus redutos eleitorais de maior tradição. "Reconheço que o PRI é corrupto", disse na segunda-feira Luis Osorio, vendedor de suco na Cidade do México, enquanto debatia as notícias da eleição com os fregueses que paravam em sua barraca. "Foi por isso que votamos no PAN, e eles se mostraram igualmente corruptos. Transformaram tudo em assunto particular deles." Apesar da popularidade pessoal de Calderón, suas políticas econômicas não inspiram aprovação semelhante. O México foi atingido pela crise econômica de maneira particularmente dura e as previsões sugerem que a economia do país sofrerá uma retração de até 8% este ano. "Não é boa ideia fazer um plebiscito sobre a presidência em meio a uma recessão", disse Jeffrey Weldon, cientista político do Instituto Tecnológico Autônomo do México. Calderón tentou lembrar os eleitores que a recessão não tinha sido provocada pelo governo, uma referência oblíqua a um prolongado período de turbulência econômica que teve início nos anos 70, conforme sucessivos governos do PRI se envolveram em gastos e empréstimos excessivos. Durante a campanha, ele recorria a estatísticas para mostrar que o México estava rompendo com esse padrão de governo - dados que evidentemente não ressoaram entre eleitores que enfrentam dificuldades para sobreviver. Um comercial na TV do PRI veiculado nos últimos dias da campanha foi especialmente eficaz. Três mímicos seguravam cartazes com números mostrando como a inflação e o desemprego tinham aumentado. Ao final, eles limpavam a maquiagem do rosto e diziam: "Realidade, não pode ser escondida." Lauro Mercado Gasca, pesquisador de opinião pública e diretor da Mercaei, uma empresa de pesquisa de mercado, chamou o comercial de "ataque muito eficaz". "Eles acertaram ao lembrar o eleitorado que o tema central da campanha deve ser a economia", disse ele. No nível local, no qual governadores populares do PRI operam quase na ausência de controle do governo federal, o partido respondeu ao derretimento econômico com a distribuição de comida e bens materiais. "As pessoas valorizam esse tipo de coisa, trata-se de uma ajuda útil", disse Mercado. Já o PAN foi considerado distante dessas dificuldades diárias enfrentadas pelos eleitores. PRESTÍGIO NO INTERIORA imagem do PRI fora da capital é muito diferente da reputação do partido entre a elite política e social da Cidade do México. "Declarar-se priista é motivo de muito orgulho em Tamaulipas", disse Francisco Abundis Luna, pesquisador de opinião pública da empresa Parametría, referindo-se ao Estado de Tamaulipas, que fica no Golfo do México e faz fronteira com o Texas.Muitos eleitores acreditam que os políticos do PRI são corruptos, disse Mercado. Mas as pesquisas de opinião realizadas por ele descobriram o que Mercado chamou de saudade perversa do estilo de corrupção do PRI. O partido tolera uma distorção de regras que permite aos trabalhadores - entre eles os vendedores ambulantes e os taxistas sem licença - ganhar a vida. "Trata-se de algo perverso e antimoderno, mas funcional", disse Mercado. O PRI terá, ao estabelecer uma aliança com um partido menor, o controle de facto sobre a Câmara. A influência de Calderón resume-se agora ao Senado, cuja composição não foi objeto da última eleição e onde seu partido dispõe de uma pluralidade de 40%. Ainda assim, muitos analistas alertaram contra a tentação de interpretar os resultados da eleição como ampla virada no poder político mexicano, destacando que o PRI obteve uma parcela do voto popular (37%) pouco superior àquela registrada nas eleições de 2003. O PRI também venceu em distritos e cidades onde antes costumava ficar pouco atrás do PAN, sendo a recessão a responsável por essa mudança. "Eles acabaram vencendo em distritos onde sua vantagem é apenas marginal", disse Weldon. "Pequenas mudanças renderam para eles muitos distritos." Mas para Weldon, não se deve supor que o sucesso obtido pelo PRI no dia 5 signifique que o partido esteja destinado a retomar a presidência daqui a três anos. O PRI teve bom desempenho nas eleições parlamentares de 2003, mas o partido escolheu um candidato extremamente impopular para concorrer nas eleições presidenciais de 2006, terminando em terceiro lugar. "A vitória obtida pelo PRI pode ser um presságio para os próximos anos", disse Weldon. "Mas pode também se revelar uma ilusão, como já aconteceu há seis anos."

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