Economia em risco ameaça hegemonia de Putin

Favorito na disputa pelo Kremlin ignora perigoso cenário econômico e promete ampliar do orçamento militar aos gastos com funcionalismo público

TALITA EREDIA, ENVIADA ESPECIAL / MOSCOU, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h03

Logo após a convocação de eleitores para as urnas nas eleições presidenciais de amanhã - o voto não é obrigatório na Rússia -, a mensagem nos alto-falantes dos ônibus de Moscou anuncia vagas para trabalhar no serviço de transporte público por 25 mil rublos mensais (cerca de US$ 850). O iminente retorno de Vladimir Putin ao Kremlin e a situação econômica são temas que quase se confundem na Rússia.

"A economia certamente será um problema para Putin, que terá de pagar por todas as medidas populares que vem prometendo. Uma forma de se alcançar isso é aumentar impostos sobre a renda da elite - e isso obviamente não é bem visto. Outra maneira é cortar os gastos sociais, o que é reprovado pela maioria. Nos dois casos, Putin precisará de uma legitimidade de que agora não dispõe", diz o cientista político russo Nikolai Petrov.

Os candidatos ao emprego no serviço de transporte são, na maioria, trabalhadores de fora da capital. Cerca de 40% dos moradores de Moscou hoje são de outras regiões do país. É o caso de Maria Glazkova e Oksana Martinova. As duas jovens de 25 anos deixaram suas cidades no interior em busca de um emprego.

Maria saiu de Samara, no sul da Rússia, para viver na capital há dois anos. "Lá, os empregos são em fábricas, como a da Lada. Se você tem mais estudo, não adianta procurar. Não há oportunidades", afirmou ela, formada em relações públicas, ao Estado. Segundo Maria, viver em Moscou é caro e é preciso trabalhar duro para pagar as contas, "mas no fim do mês dá certo".

Desempregada em Nizhni Novgorod, Oksana conta que ela e o namorado decidiram mudar para a capital há 4 anos em busca de emprego, mas vivem na cidade com muita dificuldade. Corretora imobiliária, ela reclama do aumento do preço dos alimentos.

A economia russa não está em crise, mas os indicadores e as previsões apontam para uma queda preocupante. O país recuperou-se da crise de 2008 e mantém o desemprego na casa dos 6%.

Mesmo com os gastos públicos consumindo 40% do PIB, Putin fez promessas eleitorais extravagantes - quer aumentar as despesas estatais em mais de US$ 160 bilhões, com melhores salários a pensionistas, professores e profissionais de saúde. Promete ainda um aumento de 33% no orçamento militar. O dinheiro viria da renda do petróleo.

Um relatório publicado recentemente pela agência de classificação de risco Standard & Poor's alerta que a instabilidade política tende a continuar nos meses após a eleição e o crescimento econômico deve cair.

A fuga de investidores também provocará uma consequência grave na vital modernização que a indústria russa necessita e nos planos de privatização. O governo ainda pode ser obrigado a cortar programas sociais, o que abalaria a popularidade de Putin.

Externamente, a Rússia observa com temor a crise financeira europeia. A União Europeia é a principal parceira comercial de Moscou. Cerca de 75% dos investimentos estrangeiros na Rússia vêm da UE. Além disso, mais da metade das reservas internacionais russas são em euro.

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