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Venezuelanos nas ruas de Tumbes, no Peru: segundo estimativa da ONU, mais de 3 milhões de pessoas já fugiram da Venezuela    REUTERS/Douglas Juarez

Economia forte atrai venezuelanos ao Peru 

Lava Jato atingiu 4 ex-presidentes, mas bonança econômica seduz refugiados

Luiz Raatz, enviado Especial a Lima , O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 05h00

Apesar do impacto da Operação Lava Jato e da queda do preço das commodities, a economia peruana tem apresentado uma rara estabilidade e cresce em ritmo razoável – fato incomum em uma região estagnada. É exatamente a solidez econômica o fator que mais atrai venezuelanos ao Peru. Em fuga da crise criada pelo chavismo, 715 mil vivem hoje no país, segundo dados oficiais do governo peruano.

A enfermeira Lila Valera saiu da Venezuela, deixando para trás as três filhas e a mãe, em busca de dinheiro para alimentar a família, nem que fosse a milhares de quilômetros de distância. A reportagem do Estado acompanhou a fuga de Lila da Venezuela, em junho de 2018. Sem dinheiro suficiente para uma passagem inteira, ela então viajou parte do trajeto em pé no veículo, que foi alvo de pedradas de saqueadores na saída de Caracas. 

Dez meses depois, a reportagem voltou a procurá-la em Lima. No Peru, ela conseguiu uma rede de clientes como cuidadora de idosos e plantões na seção de enfermagem de um hospital. Guarda cada trocado que pode para ajudar as filhas. Muito magras, as meninas, às vezes, almoçam só arroz. A casa em que vivem quase nunca tem luz, segundo Lila. 

“Vivo há dez meses no Peru. Consegui trabalho e tenho conseguido sobreviver e ajudar minha família na Venezuela. O Peru, na parte econômica, é muito melhor que a Venezuela”, conta Lila. “No segundo dia aqui, saí para procurar emprego, com apenas 20 soles (moeda peruana). Com outros venezuelanos, descobrimos onde precisavam de garçonetes. E assim foi indo, até que consegui me estabelecer como enfermeira.”

Milagre econômico

O milagre econômico peruano começou nos anos 90, com a adoção do programa de ajuste do Banco Mundial, que pretendia tornar o país mais atraente para empresas estrangeiras por meio de reformas, desregulamentações e privatizações. Foi a maneira que o então presidente Alberto Fujimori encontrou para superar a crise – a inflação chegou a 400% ao mês em 1990.

Ao abrir sua economia, as exportações dispararam e os investimentos estrangeiros começaram a entrar, o que fez a dívida pública peruana diminuir, a inflação ser contida e as reserva cambiais aumentarem. Em 1990, o Peru exportava US$ 3 bilhões. Em 2010, US$ 36 bilhões. 

A estabilidade já dura 20 anos e tem resistido ao fim do ciclo das commodities e aos efeitos da Operação Lava Jato nas obras de infraestrutura. Nos últimos anos, o Peru tem diversificado sua pauta de exportações, que tradicionalmente dependia de metais como cobre, ouro e ferro, e agora conta também com frutas e legumes. Isso, segundo analistas, evitou uma desaceleração maior da economia.

“A diversificação veio após a queda dos preços dos metais, em 2014”, explica o economista da Pontifícia Universidade Católica do Peru Óscar Dancourt. “Graças a investimentos em irrigação, com recursos provenientes do boom das commodities, tanto privados quanto públicos, cresceu a produção de aspargos, uvas e abacates, principalmente em razão da demanda de países ricos por uma alimentação mais saudável.” 

Com a economia mais dinâmica, o consumo cresceu, assim como o emprego formal e a construção civil. Entre 2002 e 2013, o Peru nunca cresceu menos de quatro pontos porcentuais por ano – exceção feita a 2009, quando a crise financeira fez a economia crescer apenas 1,1%.

“Os anos de alta do preço dos metais levaram também a uma necessidade de ampliar a infraestrutura do país”, lembra Dancourt. “É nesse momento que aparecem as obras envolvidas na Lava Jato. Estimava-se que a construção do gasoduto no sul do Peru acrescentasse 1 ponto porcentual ao crescimento do PIB (a obra foi paralisada).”

Perigos

Segundo ele, o maior risco para a economia peruana, depois da Lava Jato, é o desemprego. A quantidade de vagas no setor urbano parou de crescer nos últimos anos e a chegada dos venezuelanos ampliou a oferta de mão de obra. “Uma solução seria o governo apostar em investimento em obras que estão paradas para estimular o emprego, principalmente na construção civil”, diz.

O fim do ciclo das commodities coincidiu com o início da diáspora venezuelana e com as denúncias da Lava Jato. A partir de 2015, milhares começam a deixar a Venezuela em razão da escassez de comida e de remédio. O Peru é o destino de muitos que, como Lila, foram atraídos pela promessa de emprego e por uma economia estável, sem se importar com as denúncias de corrupção.

Imigração

Hoje, dos 715 mil venezuelanos que vivem no Peru, 285 mil possuem visto temporário de residência e 205 mil ainda estão à espera da autorização. Segundo autoridades peruanas, pelo menos 10 mil venezuelanos vivem em situação de extrema vulnerabilidade – 1,3 mil, por exemplo, são HIV positivos que chegaram em busca de tratamento. Segundo a Organização Internacional das Migrações (OIM), a média salarial dos venezuelanos no país é de US$ 309 (R$ 1,2 mil). “A economia peruana é um fator de atração para os imigrantes venezuelanos”, afirma o diretor da OIM no Peru, José Iván Dávalos.

Carlos Scull, representante diplomático do líder opositor venezuelano Juan Guaidó em Lima, diz que oito em cada dez venezuelanos que estão no Peru, assim como Lila, vivem na informalidade – ela trabalha no hospital por diárias, sem registro. E cinco em cada dez, também como ela, têm diploma universitário ou de nível técnico. 

 “Estamos trabalhando com o governo peruano para que essa validação de diplomas saia mais rápido e possamos interiorizar os venezuelanos, já que Lima abriga 65% deles”, afirma Scull. “Seria uma situação boa para todos.”

 Ao contrário de muitos venezuelanos, portanto, Lila é um caso de sucesso. “Trabalho como autônoma, mas consigo ganhar, em média, 1.500 soles por mês (US$ 451)”, diz. “Dois terços disso vão para pagar minhas contas aqui e o restante, para a Venezuela.”

Recomeço 

Em junho de 2018, Lila Valera partiu de Caracas com US$ 20 e o diploma de enfermagem. Seu objetivo era chegar até Lima, onde tinha promessa de emprego num hospital. O dinheiro acabou na fronteira com a Colômbia, onde outros imigrantes tentaram pressioná-la a se prostituir. A história sensibilizou um leitor do Estado residente na Austrália, que pagou a passagem aérea de Lila para Lima, onde ela voltou a trabalhar como enfermeira.

 

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Xenofobia preocupa governo peruano

Problema preocupa autoridades peruanas, migratórias e a comunidade venezuelana no Peru

Luiz Raatz, Enviado Especial a Lima, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 05h00

Embora em índices menores que no vizinho Equador, a xenofobia já preocupa autoridades peruanas, migratórias e a comunidade venezuelana no Peru. De acordo com uma pesquisa feita pelo instituto Ipsos, 55% dos moradores de Lima são contra a chegada de mais venezuelanos ao país. 

A cidade, segundo a Organização Internacional para Migrações (OIM), recebe 65% dos imigrantes venezuelanos que chegam. A maioria aponta o medo de perder o emprego e o fato de os refugiados aceitarem trabalhar por salários menores como motivo para ser contra receber os que fogem do chavismo. 

Jonathan Terán saiu de Barinas, terra natal de Hugo Chávez, com mulher e filho pequeno e o sonho de chegar à Argentina.

Atravessou a pé, de carona e com o pouco dinheiro que conseguia com bicos, boa parte de Venezuela, Colômbia e Equador até chegar a Tumbes, no norte do Peru, onde encontrou um abrigo para refugiados. Ali, um grupo de peruanas emboscou sua mulher para agredi-la com paus e pedaços de pedra. Acharam que ela era uma venezuelana que havia “roubado” o marido de uma peruana da cidade. 

“Confundiram ela com outra moça e começaram a agredi-la. Deixaram uma cicatriz em seu rosto”, contou ao Estado Terán, que vive em um abrigo de Lima mantido pela Igreja em parceria com a ONU. “Minha mulher tem muito medo. Não quer nem ouvir falar da possibilidade de viver aqui depois do que aconteceu.”

Iris, a mulher, não quer falar nem ser fotografada. Apenas brinca no abrigo com o filho do casal, de pouco mais de 1 ano. A magreza é nítida nos dois. “Já não conseguíamos mais sobreviver nem ter dinheiro para comer”, diz Terán. “Saímos da Venezuela por isso.”

Com direito a mais cinco dias de albergue – o máximo permitido é 15 dias –, Terán e a mulher não sabem como será o futuro. Viver no Peru não é uma opção, mas ambos não têm recursos para seguir viagem rumo ao Chile. “Está ficando difícil encontrar trabalho aqui”, disse o mecânico. “A documentação também tem sido complicada.”

Tentativa de estupro

Veronika Guerra é garçonete e trabalha num restaurante venezuelano no bairro de Miraflores, em Lima. No Peru há um ano, ela também já foi vítima da violência. No ano passado, acordou cedo para tirar a permissão de permanência temporária, o PTP, exigida pelo governo peruano para viver no país. Sabendo da má fama de alguns taxistas, associados por trapaças, roubos e agressões, principalmente contra mulheres, ela optou por um motorista do aplicativo Uber. Em vão. 

“Ele seguiu um caminho diferente do que deveria e tentou me roubar. Quando viu que eu não tinha dinheiro, tentou me violentar”, disse. “Comecei a gritar e um carro que passava parou para ver o que estava acontecendo. Foi a minha sorte.”

Indicado pelo líder opositor Juan Guaidó para ser seu representante diplomático em Lima, Carlos Scull reconhece a xenofobia como um dos grandes problemas da comunidade venezuelana no Peru. “Temos organizado programas em parceria com o governo para orientar a comunidade local a se capacitar para buscar empregos e ter maior segurança”, disse Scull ao Estado.

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