Economia pode precisar de novo acordo de Plaza

Os Estados Unidos vão definir o ritmo para a economia global nos próximos meses. A recessão ou recuperação mundial vão depender das medidas que o país, à frente das nações industrializadas, tomar para manter a confiança do consumidor. Num cenário de incertezas sem precedentes como o atual, os analistas apontam a tríade que poderá definir os rumos da economia do planeta: G-7 e FMI, fóruns nos quais o peso dos EUA é preponderante, juntamente com a Opep. Octavio de Barros, economista-chefe do BBV Banco em São Paulo, é um dos que defendem uma coordenação mais rigorosa, ?mais importante do que o Acordo de Plaza?, entre o Grupo dos Sete e o Fundo Monetário para recolocar a economia mundial nos trilhos do crescimento. ?O cenário que está se configurando é cada vez menos benigno?, opinou logo depois que começaram os ataques dos Estados Unidos ao Afeganistão, no domingo passado. O Acordo de Plaza foi fechado em setembro de 1985 no hotel Plaza, em Nova York, pelos representantes do então G-5 (Estados Unidos, Alemanha, Japão, França e Reino Unido). O objetivo do pacto era coordenar a política econômica dos países mais industrializados e atacar as forças protecionistas, mas sobretudo reduzir o valor do dólar. A moeda norte-americana tinha atingido valor recorde frente a muitas moedas fortes, causando um grande déficit comercial para os Estados Unidos. ?O nome do jogo é a economia dos Estados Unidos, sem uma recuperação norte-americana as expectativas para o mundo continuam negativas?, reforça Octavio de Barros. ?Enquanto não houver uma ação inequívoca do Grupo dos Sete e do FMI, o quadro não muda?, alerta. O economista diz que os discursos já não bastam. Entre as medidas conjuntas que estes organismos podem adotar, Barros espera alguma forma de compensação da liquidez mundial. Segundo Barros, já se vislumbra uma atuação do FMI nesse sentido. Na sexta-feira passada, o diretor-gerente do Fundo, Horst Köhler, admitiu que talvez seja necessária a liberação de financiamento externo adicional aos países emergentes. Koehler admitiu também que só uma resposta coordenada internacional poderá lidar com os novos riscos para a economia. Um dia depois, ao término de um encontro em Washington, os ministro das Finanças e presidentes dos Bancos Centrais do Grupo dos Sete deram uma demonstração de unidade, numa inédita entrevista conjunta, na qual se comprometeram a adotar as medidas necessárias para estimular o crescimento econômico. Não foi, no entanto, divulgado qualquer plano de ação coordenada para ativar a economia. ?Será uma coisa país por país?, explicou o secretário do Tesouro norte-americano, Paul O?Neill. Opep Junto ao G-7 e ao FMI, o papel da Opep também será de grande importância para o destino da economia mundial. A queda no preço do petróleo, que contribuiu para manter a inflação mundial sob controle, foi um dos fatores apontados pelo ministro das Finanças da Grã-Bretanha, Gordon Brown, um dos participantes do encontro do G-7, para considerar que o mundo está hoje melhor posicionado para reagir à ameaça de recessão do que há 20 anos. Nas projeções do ING Barings, a alta do petróleo está entre os riscos potenciais mais quantificáveis da guerra ao terrorismo, lembra o estrategista para a América Latina, Mauro Schneider. Na época da Guerra do Golfo, o barril do petróleo ficou por um breve período em US$ 40. Se voltar a este patamar, o petróleo será responsável por cortar 0,6% do crescimento da economia global no próximo ano, segundo as simulações do ING Barings. No momento, a Opep se debate com o declínio dos preços e pode decidir por um corte na produção. Pelo sistema de bandas da organização, a produção deve ser reduzida em 500 mil barris diários quando o preço da cesta de petróleo que serve de referência à Opep ficar abaixo de US$ 22 por pelo menos 10 dias consecutivos. Este suporte vem sendo furado desde o dia 24 de setembro na expectativa de uma forte desaceleração da economia mundial que pressionará a demanda pelo petróleo. Teoricamente, a Opep deveria ter aplicado a redução automática de 500 mil barris/dia na produção na última segunda-feira, já que na sexta-feira anterior completaram-se os 10 dias com o preço do produto abaixo da banda. Em vez disso, os ministros de Petróleo do cartel preferiram manter conversações para avaliar antes o impacto dos ataques iniciados no domingo pelos EUA ao Afeganistão. Uma nova reunião dos ministros está marcada para o dia 10 de novembro, mas não se descarta uma decisão antes desta data. Recentemente, o analista da MB Associados para o setor de petróleo, Fábio Silveira, destacou que será fundamental a atuação da Opep para sustentar os preços do petróleo entre US$ 26 e US$ 27 o barril, uma faixa que já é considerada alta. ?Infelizmente, o risco de uma alta nos preços do petróleo é desconfortavelmente conhecido. Afinal, este foi um dos catalisadores da desaceleração global que experimentamos no ano passado?, avaliam os analistas de economia global do ING Barings. Reação Os Estados Unidos, que até o início da atual desaceleração vinham do mais longo período de crescimento do pós-Guerra, agiram rapidamente para tentar conter os efeitos negativos dos atentados. Na manhã do dia 17 de setembro, meia hora antes da reabertura da Bolsa de Nova York depois dos ataques do dia 11, o Fed, banco central norte-americano, liderou uma rodada mundial de cortes nos juros. No último dia 2, o banco central norte-americano reduziu seu juro de curto prazo mais uma vez, deixando-o em 2,5% ao ano, a taxa mais baixa desde 1962. Além disso, os EUA já se dispuseram a montar um pacote de US$ 130 bilhões para estimular a economia doméstica. Como parte do pacote, o presidente George W. Bush propôs cortes de impostos e aumento de gastos do governo entre US$ 60 bilhões e US$ 75 bilhões. Os gastos de emergência para aliviar os efeitos imediatos dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono devem somar US$ 40 bilhões. Além disso, foi aprovada uma ajuda federal de US$ 15 bilhões para as companhias aéreas, setor mais diretamente atingido pelos atentados. Apesar destas medidas, a recuperação da economia dos EUA, esperada para o último trimestre deste ano por muitos analistas, deverá demorar mais. A maioria das projeções aponta para a recuperação a partir do segundo trimestre do próximo ano tanto para os EUA quanto para a economia global. Köhler, do FMI, concordou que a recuperação deve começar no primeiro semestre de 2002, mas não descartou a probalidade de um cenário pior. Este cenário se configuraria se houver um séria deterioração na situação político-militar, segundo os analistas do ING Barings. Os riscos de deterioração, além da alta do petróleo, segundo o ING, incluem uma longa campanha terrestre das tropas lideradas pelos EUA no Afeganistão e talvez outros países do Oriente Médio, um abalo no apoio internacional à iniciativa de guerra dos EUA, e novos ataques terroristas aos EUA e à Europa, aumentado os danos físicos e psicológicos e abalando os mercados financeiros. A Economia Um Mês Depois dos Atentados nos EUA - Índice

Agencia Estado,

11 Outubro 2001 | 10h10

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