EFE/EPA/ALAA BADARNEH
EFE/EPA/ALAA BADARNEH

Economist: Só negociações podem trazer a paz duradoura

Potências devem pressionar líderes israelenses e palestinos que, até agora, só se interessaram em manter o próprio poder

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2021 | 05h00

Era um confronto pronto para acontecer, dentro de um conflito que o mundo prefere ignorar. Israelenses e palestinos mais uma vez empurraram uns aos outros até a beira da guerra na Terra Santa. Centenas de foguetes disparados por militantes palestinos miraram Jerusalém, Tel-Aviv e o sul de Israel. A Faixa de Gaza, território palestino governado pelo Hamas, um violento movimento islâmico, foi atingida ainda mais fortemente por ataques aéreos israelenses. Árabes e judeus entraram em confronto nas ruas das cidades israelenses. Dezenas de pessoas foram mortas, a maioria palestinas.

A pior batalha entre israelenses e palestinos dos últimos anos se concentra em Jerusalém, como em tantas outras vezes. Em abril, no início do sagrado mês muçulmano do Ramadã, o chefe da polícia de Israel bloqueou o acesso à praça ao redor do Portão de Damasco, uma das entradas para a velha cidade murada de Jerusalém e tradicional ponto de encontro para os palestinos. A mudança, feita por “razões de segurança”, provocou confrontos entre palestinos e policiais israelenses. Centenas ficaram feridos. Aí os foguetes começaram a cruzar os céus.

A violência, como sempre, é contraproducente. Transformar as cidades israelenses “no inferno”, como ameaça o Hamas, não ajudará os palestinos que sofrem gravemente em Gaza – muito pelo contrário, na verdade. Cada foguete disparado pelo Hamas facilita a alegação israelense de que “não há parceria para a paz” e intensifica o cerco a Gaza. Mas Israel também precisa reconsiderar sua estratégia. Seus líderes veem o conflito mais amplo como algo a ser administrado, não resolvido. Mas seu tratamento injusto para com os palestinos cria problemas. A crise de hoje era previsível, mesmo que a faísca que a acendeu não fosse.

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Jerusalém simboliza o problema. Israel reivindica a cidade como sua “capital eterna e indivisível”. Mas seus habitantes estão irrevogavelmente divididos. A parte oriental da cidade, embora capturada por Israel em 1967, continua sendo em grande parte palestina. Os Acordos de Oslo de 1993 deixaram o status da cidade para ser estabelecido em um acordo de paz permanente entre Israel e os palestinos. Mas Israel construiu um muro separando Jerusalém do interior palestino. E procura fortalecer sua reivindicação de toda a cidade cercando-a com novos lares judeus e expulsando os palestinos. Embora representem 38% da população de Jerusalém, a maioria dos palestinos locais não são cidadãos, mas meros “residentes”, com acesso a cuidados de saúde e seguridade social, mas não com os mesmos direitos dos judeus.

Essa disparidade na lei está no cerne de um caso perante a Suprema Corte de Israel que está deixando toda a atmosfera ainda mais febril. O tribunal está revisando uma sentença de despejo de famílias palestinas do bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental. Suas casas ficam em terras que pertenciam a judeus antes de a Jordânia ocupar a parte oriental de Jerusalém em 1948. A lei israelense permite que os herdeiros dos proprietários originais reivindiquem propriedades em Jerusalém Oriental. Mas os palestinos não podem reivindicar suas antigas casas em Jerusalém Ocidental (ou em qualquer outro lugar em Israel). Não é à toa que os residentes palestinos da cidade estão sempre prontos para protestar.

As injustiças nos outros lugares são piores. Palestinos de toda a Cisjordânia, como os de Jerusalém, viram Israel confiscar terras e construir assentamentos em territórios ocupados, o que é ilegal segundo o direito internacional. Eles também têm de lidar com os postos de controle israelenses e um oneroso regime de licenças. Em Gaza, mais de 2 milhões de palestinos estão isolados do mundo pelos bloqueios israelenses e egípcios desde 2007, quando o Hamas assumiu o controle. O território tem dificuldade de manter as luzes acesas; a água da torneira está suja. O desespero em tais condições levou à violência em 2018 e 2019 e está alimentando o surto atual.

Mesmo assim, os políticos israelenses ignoram o conflito. A questão palestina não apareceu em nenhuma das quatro eleições que Israel realizou recentemente. A maioria dos israelenses se sente confortável com o “antissolucionismo” do premiê Binyamin Netanyahu, que mostra pouco interesse em buscar um acordo permanente com os palestinos. Seus rivais domésticos estão se aproximando de um acordo que o tiraria do poder. Mas, antes da violência recente, falaram pouco sobre como lidariam com o conflito.

Os líderes palestinos facilitaram para Israel desistir da paz. O Hamas está mais interessado em lançar foguetes do que em melhorar a vida dos habitantes de Gaza. Seu rival, o Fatah, não se saiu muito melhor na Cisjordânia. O líder do partido, Mahmoud Abbas, está no 17.º ano de um mandato de quatro anos como presidente da Palestina. Parece preocupado sobretudo em preservar o próprio poder. Em 29 de abril, culpando Israel por restringir a votação em Jerusalém Oriental, ele adiou indefinidamente as eleições que o Fatah provavelmente perderia.

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Com pouca esperança de um futuro melhor, um bom número de jovens palestinos prefere enfrentar Israel, o que faz com que os repetidos surtos de violência letal sejam inevitáveis. Somente negociações trarão uma paz duradoura. As potências ocidentais e regionais precisam pressionar para que estas sejam retomadas; os líderes israelenses e palestinos devem sentar-se à mesa. Resolver o conflito será ainda mais difícil do que administrá-lo. Mas conversar é a única saída permanente/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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