Economista da dissidência cubana morre em Madri

Ativista trabalhou por mais de 20 anos para o regime de Havana antes de ser qualificado como 'contrarrevolucionário'

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2013 | 02h10

Uma das principais vozes da dissidência cubana se calou ontem em Madri. O economista Oscar Espinosa Chepe morreu em um hospital da capital espanhola, onde se tratava de problemas hepáticos, aos 72 anos. Desde 1992, quando foi acusado de ser um "sujeito contrarrevolucionário" por Havana, o dissidente - comunista de formação cujo pensamento se converteu para a social-democracia - criticava o regime castrista publicamente.

O ativista expressava suas ideias em artigos sobre a realidade socioeconômica cubana, publicados na internet e em veículos de comunicação de todo mundo, além de declarações à imprensa estrangeira. As opiniões do dissidente, contrárias à ortodoxia de Havana, fizeram com que ele fosse um dos 75 presos na Primavera Negra, em 2003 - a última onda repressiva ordenada por Fidel Castro contra os críticos de seu governo.

Chepe, natural de Cienfuegos e conhecido por seu sobrenome materno, foi detido em março daquele ano e condenado a 20 anos de prisão. O economista já tinha problemas no fígado, que se agravaram durante a detenção e, em novembro de 2004, obteve uma licença extrapenal em razão de sua saúde.

Em janeiro de 1968, quando atuava havia três anos no escritório de Fidel para planejamento da produção pecuária do governo revolucionário, Chepe foi obrigado a trabalhar recolhendo excremento de morcegos, em cavernas, para a fabricação de estrume. A transferência ocorreu depois de ele ter expressado suas opiniões, diferentes das do líder cubano, sobre a política econômica da ilha.

"Estavam se afastando do que tinha sido feito na União Soviética, onde os meios de produção foram mantidos", disse em junho, na penúltima entrevista que concedeu ao Estado, em Madri. Depois de um ano e oito meses de trabalhos forçados, Chepe - que era funcionário da Revolução Cubana desde 1961, quando chefiou o Instituto Nacional de Reforma Agrária - retornou aos serviços internos, após a interferência do então presidente, Osvaldo Dorticós Torrado (1959-1976). Nas cavernas em que coletava excremento de morcego, o economista contraiu a doença hepática cujas complicações lhe tirariam a vida.

Entre 1970 e 1984, coordenou as relações econômicas de Cuba com Checoslováquia, Hungria e Iugoslávia. Casou-se em 1975 com a então diplomata Miriam Leiva - socióloga que também passou para a dissidência. Nove anos depois, foi trabalhar na Embaixada de Cuba em Belgrado, com a mulher. Depois de uma visita de Fidel à missão, porém, em que o líder cubano mostrou insatisfação em encontrar Chepe entre seu pessoal diplomático, o economista perdeu o emprego na capital iugoslava, em 1987. Foi transferido para o Banco Nacional. Após ser rotulado de contrarrevolucionário, ainda trabalhou em outra instituição financeira do regime - que o demitiu do serviço público.

Sem aposentadoria ou compensação após a demissão, Chepe viveu em um pequeno apartamento de Havana, cercado de livros, acompanhado de Miriam. Fazia cálculos com base nos dados econômicos do governo e atendia repórteres estrangeiros com paciência, didatismo e um astuto bom humor - além de atuar como jornalista independente. Apesar de muito doente, recusava-se a deixar Cuba sem autorização para retornar à ilha - o que ocorreu em fevereiro, apesar de ele ainda estar cumprindo pena. No mês seguinte, foi se tratar na Espanha. "Ele contribuiu com o que pôde para a crítica ao regime cubano. Alcançou a atenção de todo o mundo", disse ontem Miriam. Chepe será cremado hoje em Madri.

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