Economistas franceses dividem governo chavista

Trabalho de equipe de especialistas em reestruturação de dívidas é responsável por insatisfação de aliados históricos do bolivarianismo

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2014 | 02h01

Uma equipe de economistas franceses está no centro do caso que envolve a demissão do ex-ministro do Planejamento venezuelano Jorge Giordani, que na semana passada evidenciou a cisão dentro do chavismo entre um núcleo mais pragmático - majoritário - e um mais radical, do qual o ministro demissionário faz parte. Esse grupo seria chefiado por Matthieu Pigasse, ex-assessor de líderes socialistas e acionista do diário Le Monde.

Em sua carta aberta de demissão, publicada no site chavista Aporrea, no dia 18, Giordani reclamou "da ingerência de uma assessoria francesa que nada tem a ver com a situação que vivia o país". Na semana passada, em artigo na mesma publicação, o sociólogo alemão Heinz Dieterich - o ideólogo do socialismo do século 21 - afirmou que Pigasse, ex-assessor de Dominique Strauss-Kahn e Laurent Fabius, seria o mais importante desses assessores.

"Diante da crise, o governo tenta evitar o colapso econômico e político bolivariano mediante um plano de resgate - na verdade, uma reestruturação capitalista", escreveu Dieterich, que se tornou, ao longo dos anos, um crítico do chavismo. "Pretendem esconder que o plano em curso está nas mãos do grande capital nacional e financeiro global. Graças a essa conexão francesa, no entanto, não é necessário acudir ao Fundo Monetário Internacional (FMI)."

Pigasse é diretor do Banco Lazard, especialista em reestruturação de dívidas, e participou de projetos semelhantes no Equador, na Argentina, no Iraque e na Grécia. Além de ter assessorado Strauss-Kahn e Fabius no começo do século, recentemente ele entrou no mercado da mídia. Em 2010, comprou parte das ações do Le Monde e tem participações em outros meios, como a revista Les Inrockuptibles e a versão francesa do Huffington Post.

"Uma parte importante do meu trabalho é aconselhar os governos mundiais contra o establishment financeiro global", disse Pigasse, em entrevista recente ao Financial Times. "Quando reestruturamos a dívida argentina, entre 2004 e 2005, cortamos a dívida bancária. De certo modo, financeiramente falando, devolvemos aos países o que lhes foi tirado."

Fontes próximas ao governo confirmam a presença dos técnicos europeus e seu trabalho para reformar a economia venezuelana. "Os assessores franceses de (Nicolás) Maduro têm muita influência sobre ele", disse ao Estado o analista Oscar Reyes, consultor do canal estatal TVES. "Eles dizem que a economia não está bem e o controle de câmbio é muito severo."

A parte mais radical do chavismo, no entanto, vê a assessoria francesa, supostamente chefiada por Pigasse, como capitulação. Giordani era o artífice da desapropriação de terras e empresas, política promovida por Hugo Chávez nos anos finais de seu mandato. "Até agora, Maduro tem feito mudanças pontuais em razão da oposição da ala mais à esquerda do chavismo", complementou Reyes.

Avanço. O diretor do Instituto Datanálisis, Luis Vicente León, vê um avanço do pragmatismo com a saída de Giordani, mas lembra que o ministro já vinha perdendo espaço desde a posse de Maduro, no ano passado, quando foi substituído no Ministério da Economia por Nelson Merentes, que tem um perfil mais técnico. "Maduro não tem a mesma habilidade de Chávez para contornar os radicais", afirmou León. "Qualquer mudança que pretenda fazer terá resistência dos radicais. E ele tem hesitado em enfrentar esse custo político."

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