Juan Karita | AP
Juan Karita | AP

Ecos da derrota de Evo

Acabaram-se os dias em que as receitas pareciam ilimitadas e era fácil obter popularidade

O Estado de S.Paulo

04 de março de 2016 | 08h00

Apesar de seu mandato presidencial terminar só daqui a três anos, o presidente da Bolívia, Evo Morales, havia convocado um referendo no dia 21 de fevereiro para mudar a Constituição do país e conferir a ele o direito de disputar nova reeleição em 2020, abrindo as portas para um quarto mandato consecutivo.

Numa região acostumada a improvisações de última hora, o excesso de planejamento antecipado soou como nervosismo diante das dificuldades que devem vir pela frente. Mas o tiro saiu pela culatra: o “não” venceu.

Ainda que por margem estreita, os bolivianos impuseram a Morales sua primeira derrota eleitoral significativa desde que ele se elegeu presidente, em 2005. O revés do presidente boliviano deve repercutir em toda a América do Sul. Não obstante seu apoio à “revolução bolivariana” promovida por Hugo Chávez na Venezuela e sua retórica implacavelmente antiamericana, Morales é, entre os líderes de esquerda da região, o mais fiscalmente responsável.

Também é o que apresenta as melhores taxas de aprovação e o que desfruta da situação política mais sólida, graças a seus laços étnicos (ele é descendente de índios aymará), a seus programas de inclusão social e ao pragmatismo dos esforços que vem empreendendo para melhorar a relação com o setor privado. Fazia dez anos que, impulsionado por exportações de gás natural e minérios, o PIB boliviano vinha crescendo a um ritmo de cerca de 5% ao ano. Agora a economia está perdendo vigor. O governo de Morales foi sacudido por escândalos de corrupção. “Talvez não tenhamos o mesmo apoio que antes” admitiu ele ao jornal espanhol El País na véspera do referendo.

A afirmação aplica-se com mais razão ainda ao desempenho da esquerda em outros países da região.

Líderes esquerdistas colheram derrotas eleitorais na Argentina e na Venezuela. No Equador, Rafael Correa anunciou que não se candidatará novamente no ano que vem.

No Brasil, não é certo que Dilma Rousseff conclua seu mandato – a situação dela se complicou há duas semanas, quando o marqueteiro de sua campanha eleitoral, João Santana, foi preso sob a acusação de ter sido remunerado com dinheiro de propinas. No Chile, a presidente Michelle Bachelet, que encerrou seu primeiro governo, em 2010, com mais de 80% de aprovação, hoje é aprovada por apenas 24% dos chilenos. Há três coisas por trás do declínio da esquerda sul-americana. Uma delas é o fim da farra das commodities. Não houve, por parte dos governos de Argentina, Brasil e (em especial) Venezuela a preocupação em economizar parte dos ganhos auferidos durante a fase de prosperidade. Determinados a não pôr em risco sua popularidade ou sofrer derrotas eleitorais, continuaram a gastar mesmo depois que os preços das commodities começaram a cair.

É um velho erro. Morales diz que advertiu Chávez de que ele não podia “continuar subsidiando tanto”. E acrescentou: “Para sustentar a ideologia é preciso garantir comida na mesa”. Um segundo fator é a corrupção, sobretudo na Venezuela e no Brasil. Dos países da região governados pela esquerda, só o Uruguai não é palco de escândalos. E o terceiro elemento é que, após uma década ou mais de hegemonia esquerdista, os eleitores querem caras novas e alternância de poder.

Isso significa que a vitória de Mauricio Macri na eleição presidencial argentina, em novembro último, talvez seja um presságio de mais sucessos eleitorais para a centro-direita. Depois de uma década em que boa parte da América Latina só queria saber da China, Barack Obama terá uma recepção calorosa em suas visitas a Argentina e Cuba no mês que vem.

Acontece que as coisas se complicaram na região e, seja quais forem as inclinações ideológicas das lideranças no poder, já não é tão fácil governar. Evidentemente, a diferença entre os países bem administrados, como Colômbia e Peru, e os que cometeram erros é significativa: é bem melhor viver com a economia crescendo 2% ou 3% e a inflação contida entre 2% e 7% do que encarar uma recessão e índices inflacionários acima dos 10%.

Mas acabaram-se os dias em que as receitas fiscais pareciam ilimitadas e era fácil conquistar popularidade. Além disso, a corrupção não é monopólio da esquerda, como atesta o caso de Otto Pérez, o presidente conservador da Guatemala que, no ano passado, em meio a uma série de protestos da população do país, renunciou e hoje está sendo processado por enriquecimento ilícito.

Combater a corrupção exige esforços pacientes, voltados para o robustecimento do império da lei. Estimular o crescimento requer trabalho incansável, concentrado no aumento da produtividade e da competitividade por meio de mais investimentos em infraestrutura, educação de melhor qualidade, um mercado de trabalho mais eficiente e assim por diante. Acima de tudo, essas tarefas exigem Estados que sejam mais enxutos e, ao mesmo tempo, mais fortes e eficazes.

Como chegar lá? “Atualmente, o problema econômico mais importante é de ordem política: as várias esferas da sociedade precisam entrar em acordo e dar mais ênfase à transformação produtiva”, aconselha Enrique García, do Banco de Desenvolvimento da América Latina.

Isso é algo em que a América Latina não costuma se sair bem. No passado, a direita ignorou a desigualdade e a pobreza. A esquerda merece crédito por ter colocado essas questões no centro da agenda política, onde é seu lugar. Mas a bonança das commodities também serviu para ressuscitar velhas ideologias.

No governo, muitas lideranças de esquerda recorreram à política do confronto, em vez de apostar na construção de consensos. A região deve entrar agora numa fase de ciclos políticos mais curtos e voláteis, em que os vencedores serão os que forem capazes de reunir apoio para executar tarefas difíceis, mas que deveriam ter sido feitas há muito tempo. TRADUÇÃO ALEXANDRE HUBNER

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